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Apaixonado pelas belezas das paisagens litorâneas e da vida na praia, o australiano John Owens criou A Liquid Life, uma galeria online onde ele exibe e comercializa uma série de trabalhos artísticos e peças de memorabilia ligadas ao surf – o que inclui pinturas, fotografias antigas, miniaturas e camisetas.


The Smoker por Bruce Usher

Este tipo de trabalho de valorização da surf art é ainda pouco difundido mundo afora, mesmo num país com uma história tão longa e rica com o surf como a Austrália – no Brasil, temos o belo exemplo da galeria Alma do Mar de Tito Bertolucci localizada em São Paulo. Pessoalmente, curti muito apreciar as fotografias antigas do acervo da A Liquid Life, que capturam um pouco da história de picos clássicos e ícones do surf australiano.


O pico de Broken Head por John Pennings

Conversando com o simpático John fica evidente que a satisfação de se envolver com a surf art supera as dificuldades de tornar esta uma atividade financeiramente rentável. Na entrevista a seguir você conhece um pouco sobre ele e os artistas australianos em destaque em sua galeria:

Conte um pouco sobre quem você é, onde você vive, e seu relacionamento com o surf ao longo dos anos?

Estou na casa dos 50, casado com três filhos e uma neta e vivemos nas praias do norte de Sydney. Eu tive a sorte de fazer a minha casa nesta área há cerca de 40 anos atrás e fazer uma série de amigos e conhecidos ao longo dos anos seguintes e, juntamente com minha família, temos compartilhado um monte de grandes ondas e experiências.


Bruce Channon em Seal Rocks 1968 por Bruce Usher

Eu comecei a minha longa associação com a praia e o estilo de vida costeiro quando eu tinha uns cinco depois que a minha família construiu uma casa de férias na costa ao sul de New South Wales. Como a maioria das crianças, minha primeira prancha de surf era de segunda mão e eu compartilhei com minha irmã. Foi feita pela Keyo Surfboards e tinha uns 9 pés de comprimento com longarinas de madeira e um vermelho escuro no deck e no fundo. Era também muito pesada.


John Fordham em North Narabeen, 1963 – por John Pennings

Lembro-me da prancha voando do teto do carro da nossa família numa viagem pela costa. Eu consertei os trincados usando o enchimento que se usava para consertar a lataria de carros destruídos. No entanto, ela ainda flutuava e eu meus colegas a usamos durante anos para remar pelo riacho e surfar os quebra-cocos.


Byron Bay, inverno de 1965 por John Pennings

Como surgiu a idéia de criar A Liquid Life, e desde quando ela existe?

Trabalho na indústria de TI (tecnologia da informação) desde 1972 e tenho testemunhado o início de uma série de tecnologias, incluindo a Internet. A idéia de ter uma loja on line, especialmente uma loja de surf sempre me atraiu, e combinar o meu interesse em surfar e meu background com TI foi um caminho fácil de seguir. Meu plano de negócios era simples e envolveu conversar com alguns amigos como Bruce Usher – cujas fotos estão no meu site – sobre o meu projeto e já que que nenhum deles riu da minha ideia, comecei o site há cerca de quatro anos atrás.

Atualmente existe apenas um punhado de lojas de varejo na Austrália que tem uma gama de produtos tão extensa quanto eu tenho na A Liquid Life e eu não tenho conhecimento de qualquer negócio baseado na web que se aproxime disso. Nós recebemos visitas de todo o mundo e ter enviado produto para lugares tão distantes como Nova York e Irlanda é algo que me deixa grato pelo reconhecimento o site tem recebido.


O artista Gary Birdsall ns antigas, por Bob Weeks

Fale sobre sua coleção atual de surf art disponível para venda e como você vê o interesse em memorabilia de surf na Austrália e no mundo?

Eu destacaria a arte de Gary Birdsall por três razões principais: 1) Ele tem estado envolvido no surf por um longo tempo, tanto na Austrália quanto na Califórnia, e tem um número de realizações surfísticas creditadas em seu nome 2) eu amo seu estilo e as cores que ele usa, e 3) ele tem uma grande variedade de colecionadores para escolher. Isto inclui peças originais e uma grande variedade de materiais impressos de surf.


Back Yard Board Builder e Cronulla Point por Gary Birdsall

Baseado na minha experiência com A Liquid Life e minhas viagens, me parece haver algum interesse em memorabilia de surf em cada país que tem uma história ligada a esta atividade. Eu ainda não tive o prazer de visitar o Brasil no entanto pelo que tenho visto na internet certamente parece ser o caso aí também. Não muito tempo atrás fui contactado por um homem na casa dos 70 anos do Reino Unido, cujo orgulho e alegria foi a sua prancha de Gordon Woods, feita em Brookvale (um subúrbio industrial e centro de fabricação de pranchas localizado não muito longe daqui) em algum momento entre 1962 e 1972. Foi uma das três pranchas antigas que ele tinha em sua coleção. As outras eram do Havaí e na Califórnia.


Nathan Barker e suas séries de miniaturas de pranchas

Algumas das mais impressionantes artes de surf e memorabilia que eu vi foi no Havaí. As lojas de surf e galerias de lá tem de tudo, desde antigas pranchas de madeira e réplicas, 50 e 60 pranchas de fibra de vidro e as mais incríveis fotos, pinturas e esculturas. Se algum dia eu ganhar na loteria eu sei exatamente quais lojas eu irei visitar.



Duas lendas do surf australiano em ação: Bob McTavish (topo) em Angourie Point 1965 e Wayne Lynch (abaixo) em Palm Beach, 1968 – Fotos: John Pennings

Na sua opinião, o que faz uma obra de arte se enquadrar na categoria de surf art?

Essa é uma pergunta interessante, porque na minha mente um grande exemplar de arte surf não tem necessariamente de incluir um surfista ou mesmo uma onda, mas tem que descrever um grande dia na praia. Por causa da combinação de experiência surf e habilidade artística, Gary Birdsall consegue combinar uma série de elementos (surfistas, prédios, carros velhos clássicos e talvez até mesmo um cavalo e cavaleiro) nas imagens que nos lembramos de tempos passados.

Os artistas menciono concentram-se na paisagem costeira. Eles usam suas habilidades artísticas para produzir o que eu considero ser uma fantástica arte surf, por causa da maneira que capturam e combinam a praia, o céu, as árvores, as pessoas e o oceano em uma grande pintura.


O lendário pico de Noosa Heads em Queensland, 1967, por Bruce Usher

Quais outros artistas você mais admira e gostaria de ter em A Liquid Life?

Curiosamente eu não sou um grande fã de pinturas das ondas, já que muitas vezes parecem frias e pouco convidativas. Eu gosto de cor e calor de modo que há dois artistas que eu admiro, Jennie Jones e Julie Hickson.

Jennie Jones passou a infância 200 kms da costa e então se mudou para um apartamento em Tóquio antes de viajar para a Austrália e estabelecer a sua galeria a beira-mar. Isso pode ser um caminho incomum para uma artista que já pintou mais de 700 cenas de praias e baías. Suas pinturas são coloridas e transmitem o estilo de vida maravilhosamente relaxado que todos nós desfrutamos na praia. Eu conheço algumas das praias das pinturas de Jennie e elas podem ser cheias, ou mesmo lotadas, no verão, por isso é muito bom poder admirá-las através de seus olhos. Como Jennie diz “eu crio uma janela para a sua vista favorita”.

Uma caminhada da Praia de Bungan até Pittwater nas praias do norte de Sydney, vai levá-lo a passar pela galeria Julie Hickson. Ela usa uma técnica de arte singular de estencil, conhecida como “pochoir’. para produzir suas pinturas originais. O estêncil é colocado sobre uma tela ou papel e pintado à mão com tinta acrílica. Esta técnica foi desenvolvida no período “art nouveau” na França como uma forma de reproduzir ilustrações coloridas e foi usado por Matisse em alguns de suas séries ‘Jazz’ em 1947 *. Julie usou pochoir para produzir o seu pod and pod com séries de pinturas de edição limitada e, claro, meus favoritos são da sua série Coastal. Eles podem não incluir os surfistas, mas mostram a praia de uma forma maravilhosa e única.

* O surf e o tempo devem ter sido ruins em 1947, já que Matisse não incluiu nenhuma imagem de surf em suas obras.

Créditos: Foto acima – John Owens surfando em Whales Beach 2011. Foto de abertura: Ian Usher em Rock Pools, 1975, por Bruce Usher. Todas as reproduções do acervo A Liquid Life autorizadas por John Owens. contato para aquisição de imagens: john@aliquidlife.com

Visite a galeria A Liquid Life clicando aqui.

Introdução e entrevista por Luciano Burin. Originalmente postado em Surf & Cult.


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