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Venice Beach

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

O balneário californiano Venice ficou famoso no resto do mundo quando Jim Morrison e sua banda The Doors estouraram em 1966. Naquela época o lugar era decadente, abandonado, quase uma favela: seus habitantes, migrantes e trabalhadores de várias etnias, moravam ali por não poderem pagar o alto custo dos aluguéis na vizinha Los Angeles.

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Fonte: pbase.com/venicepix

Desde a sua fundação em 1905 por Abbott Kinney, um empreendedor que enriqueceu com tabaco, Venice tinha sido planejada para ser uma pré Las Vegas para ricos cidadãos. Como Los Angeles não tem mar e praia, Kinney comprou por baixo preço uma área pantanosa e barrenta de oito quilômetros que ninguém queria, para criar um lugar repleto de parques de diversões, teatros, circos e até mesmo um cassino. Fascinado pela italiana Veneza, quis construir uma cópia da original. Para isso cavou canais em todo o pântano, substituindo o que seria asfalto por água e especificou que as construções deveriam lembrar o estilo de arquitetura dos antigos “pallazzos” venezianos.

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Fonte: pacificoceanpark.tripod.com

Em seu sonho importou até mesmo gôndolas e gondoleiros italianos que cantavam O Sole Mio a plenos pulmões naquela terra ensolarada. A notícia logo se espalhou pela América: cada fim de semana era um acontecimento para turistas do país inteiro, endinheirados ou não, que chegavam na nova Ferrovia do Pacífico, que finalmente ligava o país inteiro, ou os habitantes de L.A. que percorriam de bonde os 23 quilômetros entre os municípios só para ver “as novidades”, como tendências, corridas de iates, roletas, concertos de jazz. Com uma população de três mil habitantes, a cidade recebia nos finais de semana mais de 100 mil visitantes. Era sucesso de público, modismos e vendas. As celebridades da recém fundada Hollywood compravam mansões ali só para o weekend.

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Fonte: pacificoceanpark.tripod.com

Mas com o progresso, quase todos os canais que deram nome e fama à cidade foram aterrados em 1929 para dar lugar aos novos automóveis Ford. Sobraram apenas três.

 

Califórnia dreamin’

Como já dizia o baiano Caetano, “todos sabem que as cidades foram feitas para serem destruídas” e assim o sonho veneziano de Kinney terminou com a Grande Depressão de 1929 que atingiu a nação e o mundo. Mas, com o fim da Lei Seca, em 1933, que bania e punia o transporte e consumo de bebidas alcóolicas, Venice se beneficiou e deu uma respirada financeira.

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Fonte: pacificoceanpark.tripod.com/

Os negócios voltaram a prosperar, os turistas retornaram, os copos, corpos, vestidos e maiôs subiam e desciam ao sabor das modas e das marés. Mas em 1941 a entrada do país na II Guerra Mundial acabou por detonar a festa: o governo impôs blackout obrigatório e toque de recolher, o que obrigava o comércio a operar somente durante o dia. Porém a constante visita de navios militares às praias locais trouxe um novo tipo de diversão nada familiar ao local. Milhares de marinheiros e soldados, indo ou voltando da guerra no Pacífico, desembarcavam em terra firme atrás de diversão, sexo e muita ação. E tome mão de obra especializada para saciar tantos desejos.

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Fonte: pacificoceanpark.tripod.com/

 

Corações beat acelerados

Nos anos pós guerra, entre o final da década de 1940 e começo de 1950, Venice fisicamente só não estava mais destruída do que outras cidades europeias, bombardeadas ou não. Mas já era famosa por seu estilo de vida e caldeirão multirracial. Emigrantes sobreviventes da guerra na Europa eram os novos inquilinos, e logo se tornou o destino e ninho de uma geração de poetas pobretões, beberrões, malditos nas grandes cidades. Quase todos filhos e netos dos operários que construíam a América. A geração beat finalmente encontrava um lar para chamar de seu.

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Fonte: pbase.com/venicepix

 

Faça amor, não faça guerra 

Durante o governo do republicano Eisenhower em meados dos anos 1950, passando pelo democrático porém conservador Lyndon Johnson, para culminar com a repressão contra o movimento estudantil pelo odiado e odioso presidente Richard Nixon (o mesmo de Watergate) em anos de protesto contra a Guerra do Vietnã, artistas, pintores famosos, cineastas cultuados, músicos, escritores começaram a procurar a cidade em busca de uma liberdade que abrisse as asas sobre suas cabeças, corações e mentes. No final dos anos 1960, Venice de beat passou a hippie. E é nas portas da Era de Aquarius, que a história moderna da cidade começa.

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Fonte: pbase.com/venicepix

Hoje, além de vários eternos doidões de plantão, Venice é lar de personalidades como Julia Roberts, Tim Robbins, Nicolas Cage, Anjelica Huston, Kate Beckinsale, Anna Paquin,Viggo Mortensen, Robert Downey Jr.

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Point de surf dos Z-boys. Fonte: pbase.com/venicepix

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Fonte: pbase.com/venicepix

Venice é lançadora de moda e modismos. Em meados de 1970 alguns jovens e pobres da localidade de Dogtown nos arredores de Veneza tiveram uma ideia para surfar no cimento nos dias sem ondas: colocaram rodas em pequenas pranchas de surf. Para iniciados, aconselho um excelente documentário sobre skatismo feito em Veneza chamado Dogtown.

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Os Z-boys. Fonte: pbase.com/venicepix

Os patins modernos também apareceram por lá e logo se tornaram febre mundial. É comum ver no calçadão, isto é, bem na beira da praia, patinadores travolteando ao som de sucessos Disco dos anos 70. Como se o tempo, contradizendo Cazuza, parasse.

Em qualquer dia da semana, o calçadão é sempre festa, é passarela, é vitrine, palco, galeria, consultório, salão de beleza, de massagem ou de tatuagem. Sem falar na mulher barbuda, e no homem sem ossos do Freak Show.

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Fonte: pbase.com/venicepix

O austríaco Arnold Schwarzenegger começou sua musculosa carreira ao ser descoberto em uma academia gratuita para fisiculturistas na beira mar em pleno Ocean Front. Carreira que o levou a se tornar o unico governador da Califórnia com sotaque de cyborg.

Entre as atrações do calçadão, a principal, sem dúvida alguma, é Harry Perry, o personagem mais folclórico, mais famoso e mais fotografado de Veneza que, desde 1973, patina pela orla com túnicas, turbante na cabeça e tocando uma guitarra caquerada na aparência e no som. Harry já apareceu em vários filmes hollywoodianos que tem a cidade como cenário. Aliás, Hollywood adora Veneza. Semanalmente sempre tem algum filme ou seriado de televisão sendo rodado lá. Harry Perry também está representado em um grafite que retrata uma Vênus sensual, d’aprés Botticelli, saindo de uma concha com patins – e shortinho.

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Texto: , da plataforma NOO Magazine.

 

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