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Uma Prancha é um Pedestal para o Corpo

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

A paraense Danielle Fonseca, artista multimídia responsável pelo filmeA Vaga‘, volta ao Surfari para apresentar um desdobramento de sua pesquisa que relaciona surf e filosofia.

Uma base é um substantivo feminino, a superfície inferior de um corpo, algo que serve de apoio, de princípio ou fundamento. Às vezes chamada de pedestal, para os músicos é a nota fundamental, a tônica. Para o artista italiano Piero Manzoni uma base*1 pode ser tão mágica a ponto de suportar em si esculturas vivas, mas, sobretudo pode ser lugar de discussão para arte conceitual; para os surfistas uma base é a prancha, objeto que proporciona o escorrego, a fricção entre o corpo e a onda. Espécie de tapete mágico onde o surfista-dançarino de uma cena líquida pode fazer jus a teoria do filósofo francês Gilles Deleuze e ser a própria dobra, “a dobra somos nós” escreveram os surfistas a Deleuze. “Mormente, o surfista, ao contrário do nadador, dispõe de um material extra-humano: a prancha e a força motora extracorporal, isto é, a vaga. É claro que o trabalho, a técnica, o treino, a escuta do corpo, da onda e alianças desses dois elementos nutrem a sensação do surf-imagem-movimento, inserido numa filosofia vitalista, a imanência, uma vida”*2.

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Fonte: Revista Gotaz

Habitar a dobra da onda é a tarefa deles e, com efeito, os surfistas fazem isso muito bem, e eu nessa imersão de águas que é a Amazônia descobri que (abro aqui umas aspas históricas) o surf foi criado por antigos povos peruanos que já se utilizavam de uma espécie de canoa confeccionada de junco para deslizar com seus caballitos de totora (1100 d.C) em ondas que atravessavam o Monte Mismi (onde está uma das nascentes do rio Amazonas) até chegarem quem sabe nas pororocas do rio Araguari (AP), de Chaves no Ilha do Marajó, de São Domingos do Capim e nas ondas tubulares da praia do Marahú na Ilha do Mosqueiro, paraíso dos surfistas de Belém e do poeta Max Martins. Além de Gilles Deleuze, o filósofo Pierre Levy também traçou algumas questões sobre o surf em seu livro “O que é o virtual”, Levy trata de um corpo súrfico, mas não sobre somente àquela ideia de corpos saudáveis e atléticos das revistas de esportes radicais, mas de um corpo que ultrapassa limites, conquista novos meios e intensifica sensações, “Os esportes em que mais se intensificam a presença física do aqui e do agora são os de prática de queda (paraquedas, asa delta, bungee jump) e deslizamento (esqui nas montanhas de gelo e aquático, surf, windsurf) são reações à virtualização, onde a pessoa reafirma o fato de ser mortal”. Em Pierre Levy o corpo de um surfista adquiriu, através da prancha, extensão de pés, que o fazem andar sobre as águas.

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Fonte: Arquivo Pessoal D.F.

Na Polinésia e no Peru, as pranchas eram fabricadas pelos próprios usuários ou surfistas. Acreditava-se, que ao fabricar sua própria prancha, se transmitia todas as energias positivas para ela e, ao se praticar o “esporte”, se libertava das “energias negativas”. E eis que se deu certo dia que mandei fazer para mim uma prancha. Era a sério. Encomendei uma prancha especial, de pinho, construída em madeira de corpo único, feito um fundo de canoa, que é quase uma prancha sem as margens. Prancha é lugar para caber justo um remador ou um surfista. E teve que ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para o contato com a água uns muitos anos. Se João Guimarães Rosa tivesse conhecido algum surfista diria que são seres que executam a invenção de se permanecer em espaços de rio ou mar, de meio a meio, sempre em cima da prancha, como se dela não fossem saltar nunca mais.

 

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Fonte: Arquivo Pessoal D.F.

*1: Base Mágica – Sculptura Vivente (1961).

*2: Deleuze: O surfista da Imanência, Daniel Lins.

Texto por Danielle Fonseca.

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