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Trip-O-Rama Peru (pt. final): Águas Calientes e Machupicchu

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Texto: Lucas Zuch.

Participação especial: Gabriela Moreira.

Fotos: Lucas Z. e Gabriela M.

Dicas de albergues, hotéis, ingressos e companhias aéreas no rodapé do texto.

No dia seguinte, sem pressão nenhuma de horário – pela primeira vez desde o início da viagem – acordamos mais tarde, tomamos o café da manhã e arrumamos tudo para a partida de Cusco rumo a Águas Calientes, a cidade que fica no pé da montanha onde se situa Machupicchu.

Almoçamos às 11:00 AM, pegamos nossas malas no hotel e fomos em busca da estação de ônibus. Pelo mapa parecia bem pertinho, mas com a altitude, o sol rachando na cuca e o peso das bagagens pareceu a marcha olímpica. Chegando na  rua, não tinha nada indicando o local do ônibus, mas percebemos de imediato que estávamos no lugar certo quando dois peruanos começaram a brigar pela gente. Sim, enquanto um dizia que tinha lugar o outro berrava “yo soy el bus oficial, ello es pirata!” aiai peruanitos…. Me dizer que o outro era pirata funcionou, pegamos o “oficial”- ahã, sei. Nosso destino era a estação de trem de Ollaytaytambo (duração 1:30h, custo médio 10 soles/ pessoa). Sempre com aquela conhecida trilha sonora latina.

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A viagem de trem até Águas Calientes é um dos pontos altos do Vale Sagrado.

Chegando lá, fomos aguardar nosso trem. A sala de espera tinha tanta gente diferente que parecia um milk-shake de culturas. Uma pitada de franceses, famílias americanas vestindo aquelas calcas cáqui e chapéus estilo Indiana Jones, um maço de japoneses magrelos e elétricos, nós e outras criaturas sem procedência conhecida. Tudo isso em um liquidificador servido diretamente ali, na sala de embarque. 

O trem Ollantay-Água Calientes é um ponto alto por si só. Há amplas janelas para observar o caminho, que acompanha o rio Urubamba e vai cortando o vale sagrado, uma paisagem sinuosa e com picos de montanhas. É uma daquelas paisagens em que na hora que você está passando realiza que é muito bonito, mas sua mente ainda está meio em estado de choque com o ineditismo e não sinaliza à sua percepção o quão especial aquele lugar é. Algo que eu classificaria como um torpor consciente.

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A viagem de trem e a cidade de Águas Calientes.

Chegamos lá, demos um giro pela cidade, que só existe por causa do fluxo de turistas. Conhecemos um colombiano que havia visitado as ruínas de MP há 30 anos e disse que tudo era muito diferente. Não havia Águas Calientes, não era necessário comprar ingresso e partes da cidade ainda estavam abaixo de mata extensa. Compramos os tickets do ônibus que leva até o topo da montanha (U$ 17) e basicamente matamos tempo, esperando ansiosamente pelo dia seguinte. O primeiro ônibus sai as 5:30 da manhã e ninguém quer ficar para trás, então não se iluda, você nunca vai ser o primeiro do dia a pisar lá. Combinamos de acordar bem cedo, 4:30 para tomar café e pegar, se possível, um dos primeiros lugares. A Gabi quebrou o acordo. Acordou as 3:00 e não conseguiu mais dormir, tamanha a ansiedade. Eu ainda bem, não tive esse problema e só levantei porque o despertador tocou. Desayunamos, guardamos as coisas e partimos para o bus. Eu tinha consciência que não seríamos os primeiros, mas não esperava que as 5:10 da matina a fila já estaria dando voltas no quarteirão.

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Águas Calientes é um lugar digno de fotografia em qualquer hora e situação

Sem grandes problemas pois a cada 5 ou 10 minutos sai o próximo e não há muita diferença entre ser o primeiro ou o oitavo. É legal chegar cedo para ver o sol raiar e conseguir algumas fotos sem muita gente, mas o dia estava encoberto de nuvens, então não havia muita pressa. A estrada até o topo é um desafio às leis da física. Os motoristas quase conseguem contraria-las e colocar dois corpos no mesmo espaço quando se cruzam em alguma das incontáveis curvas (mais de 20) do caminho. Olhando pela janela, não se enxerga nada a não ser montanhas enormes e por instantes tu chega a se questionar se há mesmo uma cidade “equilibrada” no cume. A esta hora a excitação chega a se confundir com a descarga de adrenalina provocada por uma atividade esportiva. Não, não quero comparar isso com o surf, são coisas distintas, mas é uma situação que se destacou dentre os registros sensitivos adquiridos nas viagens que fiz.

Bem, chegamos. Passamos a catraca e depois de 100 metros pudemos ver a cidade. A descarga de informação é muito rápida. Apesar de o cérebro processar os dados que seus olhos transmitem à ele e comparar com as milhares de fotos que você eventualmente já viu do lugar, querendo com isso achar um padrão conhecido e ganhar algum descanso, você não permite que isso aconteça. Não há como se concentrar em apenas uma construção, não há como trazer uma referência conhecida, não há como parar de pensar “como é possível?”, não há como frear a vontade de ver aquilo tudo quando era “vivo” e habitado, não como parar de se perguntar como foi possível construir aquilo tudo.

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Vista clássica da cidadela de Machupicchu.

Um pouco de história então. Acredita-se que Machupicchu foi  “inaugurada” em 1440. Para sua construção foram necessários 10 mil homens por dia, que trabalharam durante 100 anos para que a cidade ficasse pronta. Relaxante muscular, por favor. Esses super-homens vieram da Bolívia por volta de 1200 em busca de novos territórios, pediram ao corretor de imóveis uma área de 1.000 m² metros quadrados para investir e quem sabe montar uma casinha. Gostaram de Machupicchu (velha montanha) pela topografia estável (hein?!), pela abundância de água e pelo clima favorável. Acredito que a vista deve ter tido algum impacto na escolha também. Aqui no Peru, houve uma fusão com os nativos criando essa super “espécie”: os incas.

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Vista panorâmica da cidadela de Machupicchu.

Todo o império inca teve 14 governadores e foi dividido em fase local e expansionista quando chegaram a possuir um território de meros 30 milhões de km². E eu que achava que o Hitler era demais. Muita calma, não aquela parte amorosa e humana, mas o lado de conquistas e tal. Voltando aos incas, estima-se que pelo número de casas existentes no local, viveram em torno de 600-700 pessoas. São 132 casas, onde viviam entre 4 e 5 pessoas/cada. Machupicchu era destinada ao estudo, como uma universidade mesmo, onde pessoas como sacerdotes, astrônomos, astrólogos e engenheiros iam estudar e depois voltavam para espalhar o conhecimento para o resto do império.

Na sociedade inca, todas as pessoas tinham de trabalhar nas construções, com três objetivos: 1. Como forma de pagar impostos; 2. Ajudar na construção dos templos sagrados; 3. Pela “Reciprocidade”, com o lema “Hoje por ti, amanhã por mim”. Todos se ajudavam em tudo. Um belo exemplo de vida em comunidade e sustentabilidade. Para os incas, as pessoas deveriam basear suas atitudes lembrando de três coisas: conhecimento, amor e trabalho.

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A rica e intrigante arquitetura Inca.

Vários engenheiros e arquitetos usam Machupicchu como referência de estudos, mas foi a percepção de uma arquiteta (por sinal, uma das escritoras do nosso guia do Peru) que definiu MP da melhor forma que pude compreender. Se trata, simplesmente, da melhor integração entre geografia e arquitetura jamais vista. Isso, aliado ao que o guia (você pode optar por fazer toda a exploração sozinho, mas é altamente recomendável a companhia de um, pois eles detém muita informação útil e fascinante. Custa em média 20 soles/pessoa um tour de 2:30 horas) ia nos explicando sobre as construções faz a experiência ficar – sem o apoio de melhor definição – chocante!

Nada era feito por eles na base do acaso. A posição solar beneficiava todas edificações, a acústica foi planejada de forma ao palanque central ecoar por todos os cantos, há canais de água natural potável que serviam como torneiras para a população e funcionam até hoje. Tive que cortar a oração anterior para não lhe deixar zonzo com tanta informação, mas seguiria dizendo que as paredes dos prédios eram erguidas em um ângulo de 13 graus em relação ao solo para evitar a destruição por abalos sísmicos, os terraços que serviam para agricultura tinham sistema de irrigação e cultivavam diferentes tipos de alimentos de acordo com o microclima nele estimulado. Tudo foi pensado para durar milênios. Pense que estamos falando de um local que demorou mais de 100 anos para ser construído. 100 anos. Apenas para ser construído. Projetado para durar eternamente.

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Vista da cidadela inca no caminho da Porta do Sol.

Conhecer esse lugar me fez pensar bastante em algumas coisas. A primeira delas, não necessariamente ao meu alcance de transformação, foi a infeliz percepção de que a grande maioria das cidades e edificações onde moramos erguidas sem lógica alguma, a não ser ambições comerciais. Antes que seu processador interno comece com julgamentos, eu não sou hippie ou anticapitalista por afirmar isso, estou apenas fazendo uma analogia ao que um povo “primitivo” fez muito melhor do que nós para obter conforto, segurança e perpetuar sua espécie.

O outro insight que me ocorreu foi bastante introspectivo. Pensei no quanto o mundo atual, em especial a minha geração (tenho 23 anos) e, com certeza, a posterior à minha, são imediatistas e pouco tenazes naquilo que se propõem. Provavelmente tem a ver com os acontecimentos mundiais e tecnológicos, mas o fato é que não existe em nossas mentes a ideia de processo evolutivo ou construtivo. Processo, segundo a definição que me refiro é uma atividade ou conjunto de atividades que se destinam à obtenção de algo. Processo está intimamente relacionado ao tempo, ao investimento de horas à fio em “uma atividade ou conjunto de atividades”. E quem tem tempo para “perder” hoje em dia, esperando que algo aconteça. Eu tenho uma séria dificuldade em conter a ansiedade quando envolvido em um projeto, um novo negócio, uma ideia que deve ser tirada do papel. Qualquer coisa. De alguma maneira, conhecer a história desse povo e desse lugar – onde vários dos inúmeros homens (uma média de 10.000 por ano) que trabalharam na construção não viram o lugar pronto, mas mesmo assim acreditavam no processo – me fez olhar para o meu próprio umbigo e me deu uma grande lição sobre humildade e tenacidade.

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Paz. Esse é o sentimento de quem visita Machupicchu.

Devaneios à parte, terminamos o passeio guiado e fomos explorar por nós mesmos o lugar. Caminhamos até a Porta do Sol, que é o local de chegada da Trilha Inca, um caminho de 4 dias e 3 noites que diversos aventureiros encaram para sentir uma pontinha do que era ser inca. O local tem uma vista surreal da cidade. Caminhamos de cima a baixo, voltamos e revimos, olhamos de outro ângulo, continuamente em êxtase. Quando percebemos, eram 3 da tarde e tínhamos caminhado mais de 8 horas! Tratamos de descer nossos corpos moídos de lá, alugamos um chuveiro para dar um alento ao corpo e voltamos à Cusco, novamente de trem.

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Cusco vista de cima.

Após estes dias frenéticos – queria ter um contador de passos para ter a real noção do quanto caminhamos ao todo – chegamos em Lima, de onde sairia nosso voo de volta, e aproveitamos para descansar. Claro que qualquer exploração continuava sendo feita a pé, mas demos uma boa aliviada no itinerário e, por incrível que pareça, os dois últimos dias pareceram mesmo férias. Ainda consegui trazer meu relacionamento novamente à estaca zero (após enfrentar um nível perigosamente baixo na parte de Lobitos) conquistando a Gabi pela boca. Na verdade foi o chef que nos conquistou. Em nosso último dia nos demos ao maior luxo de nossas viagens (quiçá de nossas vidas), fomos ao premiado restaurante Astrid y Gastón. Premiado mesmo, é um dos 50 melhores restaurantes do mundo! Certamente, os preços não condizem com essa honraria, do contrário jamais teríamos cruzado a porta. Por aproximadamente R$ 120/pessoa, comemos a melhor comida das nossas vidas, incluindo entrada e sobremesa. Não vou me ater muito a detalhes pois poderia contar outra história apenas sobre essa refeição, mas o lance dos chefs é combinar culinária peruana e mundial. O resultado é algo que apenas o próprio paladar da pessoa explica.

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Uma fotografia que exalta o sentimento da viagem.

Com isso, estávamos satisfeitos e prontos para o retorno à realidade de trabalho, estudos e etc. Quanto à minha motivação, aquela de viajar para surfar, não digo que ela tenha mudado completamente, creio que isso é muito difícil pois o primeiro pensamento sobre um destino é se ele é banhado por um oceano ou mar. Mas acredito que tanto surf quanto cultura podem, e devem, estar juntos em uma viagem. Isso torna o contexto muito mais rico e interessante, há um belo equilíbrio entre as coisas. Equilíbrio é importante.

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Lucas refletindo sobre os ensinamentos desta viagem na Porta do Sol, Machupicchu, Peru.

Ainda assim, não desisti da sonhada boat trip para as ilhas Mentawaii.

Mas também não me sai da cabeça conhecer a Europa. E o melhor é que na Europa, além de cultura também tem altas ondas… e por aí vai.

Sites e indicações (referem-se apenas aos locais que ficamos durante a viagem,  tendo bom custo/benefício):

Lima: Lion Backpackers

Lobitos: El Hueco Villas*

*Não é o mesmo que nós ficamos e que estava em construção, mas o proprietário Christoph Ibarra pode lhe dar informações sobre ambos

Cusco: Casa Elena

Águas Calientes: Hostal Inti Quilla

– Machupicchu:

Trem: Peru Rail

               Inca Rail

Ingressos

– Companhias aéreas:

Taca

StarPeru

Lan

Peruvian Airlines

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