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Trip–O–Rama Uruguai

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Com a aproximação da Mostra Surfari Uruguay, na próxima quinta-feira, 04/12/2014, resolvemos reeditar alguns textos. Dentre eles, não podíamos deixar passar o primeiro relato sobre o país vizinho que o Surfari recebeu. Em 2011, para uma de suas surftrips, Gustavo Andrighetto reuniu os amigos Renato Joelsons e Cassiano Dornelles, para uma incursão abaixo de zero ao litoral cisplatino. Entre o frio, os perrengues e as ondas que buscavam, fica a certeza de que esse pedaço da costa latino-americana foi talhado para exploradores.

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Acho que é uma busca infinita pelo escape. A cada avanço tecnológico do homem os problemas sociais se agravam, e há aqueles que recorrem às raízes da vida indo ao encontro da natureza para buscar razões e explicações acerca o progresso. Como lidar com o dinheiro, contas a pagar, responsabilidades de trabalho, projeção de carreira, pressões capitalistas e sociais? As coisas podem parecer simples e naturais.Talvez sejam. Talvez não sejam.

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Data do início da era industrial o desejo bucólico dos árcades em buscar um estilo de vida aliado à natureza, como alternativa à fria, brutal, obscura e desigual realidade do início do século XIX. É quando as ideias, situações e obrigações ficam muito distantes destes instintos básicos que olhar para dentro e fazer as perguntas mais simples são vitais para obtermos felicidade. Aquele velho “quem sou eu, onde estou e para onde vou” serve como ponto inicial para esta investigação pessoal. Só restava convergir os elementos para uma forte experiência.

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Com a aproximação de um swell consistente, tudo indicava que a costa sul do Brasil e do Uruguai apresentassem boas ondas. Idealizamos uma viagem em três amigos para a costa uruguaia, que poderia apresentar um surf de qualidade nas praias que gostaríamos de ir, onde nos hospedaríamos acampando, misturando nossa sede por ondas com uma imersão na natureza. Foi no início do mês de julho, na semana mais fria registrada no ano até então, que decidimos partir.

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Os imprevistos de uma empreitada planejada para não ser planejada são muito interessantes, pois a cada curva é possível encontrar um desafio. Nossa chegada na cidade de Punta del Este foi um enorme contraste com toda empolgação que vínhamos tendo na viagem. Demoramos para encontrar um local que aparentasse ser seguro para montarmos nossa barraca. Estávamos em Solanas, em uma pousada abandonada que se localizava nas margens do Mar da Plata. Encarávamos o geladíssimo vento sul vindo direto da Antártida sem barreira geográfica alguma. Simplesmente direto.

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Na manhã seguinte, encontramos poucas condições para surf em Punta, o que nos fez rumar mais ao norte, onde acompanhamos a costa, observando o crescimento da ondulação de acordo com o recorte do litoral. E foi a 100 km de onde estávamos, que encontramos ondas em um point break localizado em uma praia completamente bucólica. Foi então que sentimos que nossos objetivos estavam sendo alcançados. Nossas reflexões estavam indo longe, surfando em águas geladas, dividindo com mais cinco pessoas ondas de qualidade, de maneira muito amistosa. E assim, fizemos amigos.

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Como é interessante a experiência de conhecer pessoas quando se está viajando. O que ocorre quando estamos em nossa cidade é que, antes de conhecermos uma nova pessoa, já seremos julgados. Isso porque de tabela esta pessoa pode lhe conhecer de algum lugar, ter ouvido falar de você ou possuir amigos em comum. O problema é que muitas vezes o interesse nesta relação varia de acordo com as vantagens que ela terá possuindo a sua amizade. Este tipo de pré-conceito não existe quando estamos viajando, por que a aproximação das pessoas ocorre de maneira natural e, creio eu, que através de uma conexão entre as energias de cada indivíduo.

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À noite, fomos recebidos na casa destes amigos, um casal formado por uma argentina e um irlandês. Fizemos churrasco, bebemos vinho e demos muitas risadas neste encontro puramente casual. Recebemos o convite para passar aquela noite em sua cabana, mas cordialmente agradecemos e informamos que havíamos encontrado um local para acampar na beira da praia em frente às ondas, igual ao que meu pai fazia em algum lugar em Santa Catarina durante sua juventude. Era o que buscávamos.

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Nossas experiências de “cada curva da viagem”, foram complementadas nesta noite. Assim que montamos nosso acampamento, fomos convidados a nos retirar pela polícia, pois estávamos em uma área ilegal para camping. Deve ser ressaltado que fomos tratados com muito respeito, diferente da polícia brasileira, mas de qualquer maneira não poderíamos mais dormir ali. Entre idas e vindas, nosso carro quase atolado em meio a um bosque à meia noite, decidimos que o melhor lugar para pernoitarmos, era no carro mesmo.

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De acordo com o nosso planejamento de não planejamento, tivemos mais surpresas, quando fomos acordados por duas pessoas tentando roubar nossas pranchas que estavam do lado de fora do carro, já abarrotado de bagagem. Não houve contato visual, mas conseguimos afastar os bandidos quando acordamos sem comprometer nem o pessoal, nem o material.

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No dia seguinte as condições para o surf já estavam em declínio, e resolvemos retornar a nossa cidade natal. Nossa bagagem era basicamente composta por equipamentos necessários para acampar e para surfar. No entanto, nossa bagagem experiencial havia aumentado muito. Como pode em apenas três dias termos adicionado tanta vida em nossas vidas? Só vejo uma resposta para isso, quando optamos pelas experiências mais simples e básicas da vida. O quanto mais nos afastamos destes instintos, mais distantes ficamos da nossa essência.

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Durante os 800km iniciais de volta para casa, obtive respostas que impulsionaram meu pensamento sobre como encontrar um equilíbrio na vida entre meu lado animal humano e social. Todos somos parte da natureza, e enquanto possuirmos células e alma, estas perguntas devem existir e serem feitas.

Gustavo Andrighetto, setembro de 2011.

Links com informações sobre o Uruguay:

www.olasyvientos.com.uy

www.surfinguruguay.com

Portal de ideias e experiências que nosso amigo irlandês é colaborador:

www.brain-cloud.net

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