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Trip-O-Rama Peru (pt.3): Cusco e Vale Sagrado

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Texto: Lucas Zuch

Participação especial: Gabriela Moreira

Assim, iniciaríamos a parte da jornada que havia sido – ao oposto da minha – exaustivamente planejada pela Gabi. Teríamos 5 dias em Cusco, incluindo um dia e meio destinados à Machupicchu. Não menti sobre minha motivação inicial para uma viagem, mas mal sabia eu que esta parte me surpreenderia tanto.

Enquanto a transição Piura-Lima correu suave, a conexão Lima-Cusco deve ter adiantado algumas rugas no meu rosto. Tínhamos um tempo apertado, menos de uma hora, entre o pouso e a próxima decolagem. Nossa ‘querida’ companhia aérea fez o favor de queimar 25 destes preciosos minutos nos deixando trancados no avião à espera de um maldito ônibus que conduziu todos pelos 200 metros que separavam a escada de saída da porta de entrada do aeroporto. A preocupação fez com que apertássemos o passo. Na hora de passar o cartão de embarque na catraca da revista o segundo problema: precisávamos de um adesivo do imposto da p*$& que o pariu! Isso transformou os passos em trote até o guichê. Adesivo colado, voltamos já correndo para a catraca. Acredite, não estou mentindo só para deixar a história mais divertida, mas a desgraçada da funcionária havia colado o adesivo ERRADO no bilhete. Nessa hora, superei meu recorde pessoal de corrida rasa para tentar nos salvar da perda do avião e já trouxe junto uma testemunha da TACA prevendo que o pior ia acontecer. Voamos pela catraca e pelo raio X, chegamos suando ao portão de embarque apenas para ver o sorrisinho sarcástico de não-posso-fazer-porra-nenhuma-para-te-ajudar das funcionárias. Depois de quase expelir um alien pela testa de tanta raiva, conseguimos lugar no voo seguinte, teríamos que esperar – por sorte, segundo a corja sarcástica – apenas uma hora.

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Formações rochosas enriquecem o visual na viagem até Cusco.

Já com os ânimos mais calmos, embarcamos em direção às montanhas. Só uma fuga da narrativa para demonstrar o quanto eu deveria estar com uma nuvem negra pairando acima de mim: a aeromoça, provavelmente querendo parecer solícita e querida, deu o último sanduíche (que seria o meu) para um guloso que pediu repeteco. Ganhei dois amendoins como compensação, ahhvápápú!!

Tá, tudo bem, chegamos inteiros, nossas bagagens também chegaram. Fui sacar um dinheiro, visto que teríamos que comprar tickets de trem e ingressos para Machupicchu, mas o caixa eletrônico não cuspiu nada. Achei que era problema do terminal e não dei bola (Nota do autor: guarde este detalhe, ele voltará mais à frente). Para espantar qualquer vestígio de crise, conseguimos negociar rapidamente um táxi e fomos recebidos no hostel (novamente de graça, mas se chama Casa Elena, um chalé colonial muito aconchegante, bem localizado, limpo, com ótimo café da manhã e chuveiros quentes, por mais ou menos R$ 35/pessoa) com nosso primeiro chá de folha de coca.

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Lucas, alegre por salvar seu relacionamento a tempo; Gabriela, feliz por ter opções de lazer disponíveis.

Como planejado cautelosamente pela Gabi, teríamos uma programação intensa e variada, com poucos momentos de descanso, então tratei de assumir a posição de carona e fui me deixando guiar. Nossas antecipações sobre como seria Cusco não chegaram nem aos pés do que encontramos. Descrever a cidade à altura de sua beleza é algo difícil, mas vamos lá. Situada a aproximadamente 3.400 metros acima do nível do mar, Cusco foi inicialmente projetada sob a forma de um Puma, um dos três animais sagrados dos incas. No coração da cidade está situada a Plaza de Armas (aparentemente todas as cidades do Peru possuem uma) rodeada por duas igrejas católicas extraordinárias. A princípio não é o tipo de coisa que me impressiona muito, mas até um ateu ficaria impressionado com a imponência e apuração de detalhes. Paralela à praça, fica uma das avenidas principais, Av. Sol, que abriga todos os tipos de estabelecimentos comerciais, galerias de arte, hotéis, jardins, igrejas e é um dos locais de maior fluxo de turistas de todas as idades e nacionalidades possíveis.

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As charmosas e estreitas ruas de Cusco. Não parece, mas a inclinação combinada a altitude cansa.

Aliás, duas coisas sobre a cidade que talvez escapassem à sua atenção. Cusco foi a primeira e principal cidade inca, portanto abriga templos e construções muito importantes desta época (a partir do século XI), incluindo o mais rico e destacado, chamado Q’oricancha – que significa algo como Templo do Ouro em quechua, idioma inca – mais relevante até do que Machupicchu. Apenas para fixar, isto não é relativo à beleza e arquitetura das construções, mas à sua proeminência. O outro fato é que, cidades destacadas significavam esforço extra dos conquistadores para ‘apagar’ a história, o que resultava em saques, estupros, destruição dos templos, catequização e construção de igrejas católicas. Por isso Cusco, uma cidade de 300 mil habitantes, ostenta nada menos do que 15 templos católicos, sendo no mínimo 4 edificações de porte enorme.

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Uma dos mais belos templos do mundo, a Catedral de Cusco, em si, vale a viagem.

Utilizamos o primeiro dia para nos ambientar ao local e fazer funções burocráticas que a dispensa de um pacote de viagens implica. O ideal, logo ao chegar à Cusco, é não fazer muito esforço, a altitude realmente mexe com o organismo. As dicas para amenizar os efeitos são consumir bastante água, não comer demais, priorizar carboidratos, evitar sal, tabaco e bebidas alcóolicas. As folhas de coca, mascadas ou em chá ajudam a evitar qualquer contratempo (apesar de mais tarde ouvirmos de um guia que elas não passam de um belo placebo). De modo geral, o lance é ter cautela, há pessoas que não sentem nada e outras que passam muito mal.

Contrariando todas as dicas anteriores, batemos perna o dia inteiro desbravando as ruas e calçadas estreitas e de paralelepípedos alinhados. A cidade é limpa e organizada, conservando excepcionalmente bem tudo que sobreviveu ao tempo. É difícil não pensar que se está no cenário de um filme ou que a qualquer momento ao virar uma esquina vamos avistar a chegada de cavaleiros espanhóis aterrorizando a cidade.

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Senhorinha com a indumentária local dos antigos Incas, em Cusco.

Lembram-se daquela nota para lembrar sobre o primeiro incidente com o caixa eletrônico?

Como a vida não é feita apenas de sonhos, estamos com certa dificuldade para sacar dinheiro, os caixas só liberam 100 soles por saque, além de ter um limite diário que não sabemos qual é. Quase perdemos os tíquetes do trem por causa disso ontem. Mas não criemos pânico, estamos maravilhosamente bem! Quem precisa de dinheiro quando se está em Cusco?! Tá, a gente precisa. Mas daremos um jeito, eu posso bordar tecidos coloridos e vender na rua para gringos desinformados, enquanto o Lucas dá aulas teóricas de surf…

Sobre esta parte de compra de entradas, o melhor que se tem a fazer é adquirir antecipadamente pela internet (ao fim do texto disponibilizarei os endereços), pois os acessos são limitados e em temporadas altas – de julho a setembro – o movimento é muito intenso, o que é passível de acarretar enormes decepções. No entanto, havíamos (a Gabriela havia, para ser mais honesto) pesquisados as disponibilidades e fizemos tudo lá em Cusco mesmo. Para o ingresso de Machupicchu + passagem de trem + passagem de van (que leva até o trem) você deve desembolsar mais ou menos uns 350 soles (aprox. 280 reais). Não preciso nem dizer que vale cada centavo investido.

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“Respeite a faixa de pedestres”, diz o palhaço local.

Após um dia exaustivo de intenso sobe e desce (caso você ainda não tenha se situado, Cusco fica numa montanha, ou seja, pedestres, bicicletas e afins são altamente desafiados pela geografia), fomos nos deleitar num belo restaurante italiano. O Lucas pediu Raviolli de ají de gallina e eu Fetuccine ao funghi. Enquanto a mesa ao lado, cheia de americanos ria brindando com champanhe, nós dividimos uma água-sem-gás-sem-gelo-e-sem-limão, bem como eu gosto. Por isso, não pense que somos esbanjadores, apenas é que o mote de nossas viagens é economizarmos na acomodação para alimentar bem o corpo. E nesse quesito o Peru está de parabéns, apresenta vários estilos culinários e adaptáveis a todos os bolsos. Sendo que as melhores opções ainda são sensivelmente mais baratas que no Brasil.

No dia seguinte acordamos cedo para iniciar o city tour pelo Vale Sagrado, que havíamos comprado no dia anterior. Vou deixar minha guia particular lhe conduzir pela geo-socio-política do local.

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Vale Sagrado dos Incas.

O dia foi demais, eu amo os Incas. Queria ser uma inca. O Vale Sagrado é uma região venerada pelos incas por ser protegida pelas montanhas, ter terra muito fértil e um rio com água pura, vinda dos picos congelados dos Andes. Várias cidades ficam nessa região, os incas levaram 100 anos para conquistar o lugar, porque eles eram muito políticos e não faziam guerras, iam fazendo charminho, presenteando os povos, trocando serviços, até que um dia sem ninguém perceber a terra era todinha deles! Bando de sem vergonha. O casamento era pra toda a vida, mas antes de casar o casal era obrigado a passar por um período de convivência de 1 ano morando junto, pra ver se rolava o clima. Caso contrário ninguém era obrigado a casar com quem não queria. Eta povinho evoluído!

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Maíz y papas del Valle Sagrado de los Incas.

Eles criaram métodos para desidratar os alimentos e armazenar para alguma necessidade. A guia nos contou que uns arqueólogos acharam um tumba cheia de ouro, roupas, joias e…… batatas secas, para que quando o vivente acordasse na outra vida, não morresse de fome (essa frase ficou estranha, o vivente morto acordando na outra vida querendo não morrer de novo?). Tudo bem até ai, mas escutem o que os criativos arqueólogos resolveram fazer: reidratar as batatas e ver se estavam boas para consumo! O pior é que estavam, todos comeram as papas incas. Um comentário aqui: boa para eles não é boa para mim. Uma papa desidratada de mil anos atrás, que estava armazenada em uma tumba com um defunto não seria boa nem que viesse com um selo da vigilância sanitária. Sem contar que pra desidratar as papas, eles usavam sus pezitos, que deveriam ser a coisa mais limpinha do mundo, até remover toda a água. No, gracias.

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Especiarias incas para colorir a lã das llamas.

O highlight do passeio foi um local chamado Ollantaytambo, esta foi uma das últimas cidades incas a ser destruídas pelos conquistadores, mas como ainda não estava acabada quando fora encontrada os espanhóis não deram muita importância e algumas partes permaneceram intactas. Foi a nossa primeira introdução propriamente dita à arquitetura e modo de vida desse povo. Um excelente aperitivo para o que iríamos encontrar em Machupicchu, a cidade sagrada. Foi lá que se passou um importante evento na história inca, que viria a salvar Machupicchu da aniquilação. Flashback histórico rápido: os incas acreditavam que um dia os profetas da salvação iriam descer à Terra e se mostrar à eles em um momento de revelação. Por meio de figuras, nota-se que a noção deles destes profetas compreende uma figura semelhante ao Criador pintado por Michelangelo na Capela Cistina. Bem, quando os espanhóis chegam à Ollantay, brancos, barbudos e vestindo túnicas, os incas têm uma epifania e presenteiam os “profetas” com ouro, comida e cerveja artesanal (a parte da cerveja não é piada, é feita do milho há muitas gerações. Só não era gelada).

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Rosto do “profeta” esculpido na montanha em frente a Ollantaytambo.

Percebendo que Pizarro e sua turma não eram flor que se cheire, os incas decidem despistá-los do caminho à cidade sagrada fugindo pela direção oposta, que leva até Amazônia peruana. O lance é que esse caminho é terrível, se sobe a mais de 5.000 metros e é tão íngreme que os cavalos dos espanhóis não conseguiam subir, além disso, muitos europeus morreram de frio, fome e males da altitude. Ainda assim, eles seguiram no encalço dos incas por 36 anos até encontrá-los, apenas para cometer um tremendo genocídio (quem eram mesmo os bárbaros?!). Nesse meio tempo, a cidadela de Machupicchu já havia sido coberta pela vegetação e ficaria ‘esquecida’ por séculos. Após muita história, caminhada e paisagens, havia sido um dia cheio e fomos dormir com as mentes fervilhando ao processar todas novidades que presenciamos e tudo que ainda estaria por vir. À essa altura não sentia arrependimento algum por ter abandonado Lobitos.

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Jardins de Ollantaytambo.

 

Continua…

Fotos por Lucas Zuch e Gabriela Moreira.

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