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Trip-O-Rama Fernando de Noronha (pt. 1)

Como novo colaborador do Surfari, começo a sessão com perguntas.

Quem nunca sonhou em conhecer o paraíso? E passar uma temporada nele, você já pensou?

A partir de agora você vai descobrir os encantos e desencantos de um paraíso chamado Fernando de Noronha.

Aconchegue-se no seu sofá, abra aquela cerveja gelada e viva uma experiência diferente através das palavras.

Por Rodrigo Pacheco Lima.

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Era dia 1º de Outubro de 2010, 9h40 da manhã quando saí da sala de reuniões da empresa de aviação que trabalhava em São Paulo e de onde eu acabara de me desligar. O convite já tinha sido feito mais de uma vez e com certeza não iria deixar passar novamente.

O convite era: morar em Fernando de Noronha por 3 meses, pegando onda e fotografando o dia todo e trabalhar das 18h às 00h em um  restaurante. Isso, literalmente, é estar no paraíso. Meu primo, que era quem havia me convidado diversas vezes para visitar e trabalhar nas férias, já morava havia 7 anos na ilha e era proprietário do dito restaurante, que fica na Vila dos Remédios.

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Pra que deixar para depois o que pode ser feito agora?! Logo que saí da sala de reuniões, peguei meu celular e liguei para ele avisando que pousaria na ilha em dezembro para passar a temporada e trabalhar com ele no restaurante. Não teve erro, fui admitido na hora, é claro. Acordo feito na empresa, homologação marcada para receber a rescisão, seguro desemprego por 5 meses, mais salário no restaurante e venda de fotos, com certeza seria o suficiente para desbravar a ilha nos próximos 3 meses.

Fernando de Noronha é o sonho de todo surfista brasileiro. Praias com areia branca, festas iradas na alta temporada – como a festa de fim de ano na pousada Zé Maria – mulheres lindas por toda parte, água clara, onda pra esquerda, onda pra direita, fundo de pedra, fundo de areia e, principalmente, muitos, muitos tubos.

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Comecei a mexer os pauzinhos e um amigo me cadastrou como beneficiário em uma empresa aérea. Passagem Florianópolis/Fernando de Noronha ida e volta R$350,00. É isso mesmo, R$350,00 ida e volta.

Isso que é amigo. Ele querendo ir para o paraíso e não podendo, ajuda a realizar um sonho meu, e de poucos sortudos.

Não fique chateado por falar poucos, não quero me gabar, mas digo isso pois, infelizmente, é mais barato você ir para outro país pegar onda do que ir para Fernando de Noronha.

De início, para entrar nesse paraíso existe uma taxa ambiental do IBAMA que custa R$ 44,00/dia por pessoa, somando com acomodação, alimentação, buggy ou moto alugado e gasolina – sendo vendida a R$ 4,00 o litro – convenhamos que é necessário desembolsar uma boa grana. Isso sem falar na passagem aérea que fica em torno de R$ 1.700,00 saindo do sul do país.

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Seguindo…

Passagem comprada, pranchas embaladas, equipamento fotográfico organizado, bicicleta desmontada na caixa, taxa de preservação do IBAMA liberada (pois iria a trabalho), muitos tubos e clicks me esperavam. O sonho estava prestes a ser realizado! Peguei o caminho do aeroporto Hercílio Luz em Florianópolis, onde moro, e chegando lá… uma surpresa. Como era beneficiário, só embarcaria no vôo se tivesse lugar em todas as etapas, ou seja, teria que ter espaço de Floripa para São Paulo, de São Paulo para Recife e de Recife para Fernando de Noronha. Como meu santo é forte tinha lugar em todas as etapas dos vôos e embarquei sem problemas. Até liberado do excesso de bagagem eu fui. Santo santo.

Após vários sobe e desces, troca de avião e comendo porcaria, cheguei em Noronha no meio da tarde. Meu primo já estava me esperando no aeroporto com um buggy, vulgo Táxi. Após a função”pega-mala-acerta-a-liberação-da-taxa-passa-pela-polícia-federal-inclusive-cão-farejador”, não tive nem tempo para desarrumar minhas coisas, já caí no trabalho tão logo cheguei no restaurante.

De dezembro a março a ilha recebe em média 600 turistas por dia, sendo que existe um limite diário de pessoas que podem permanecer lá. Mas com o entra e sai constante, o fluxo na alta temporada é sempre o mesmo, em média 2.000 turistas mais os moradores locais, que são por volta de 3.000.

O arquipélago realmente é um paraíso do surfe nacional. As praias mais frequentadas pelos surfistas são Cacimba do Padre, Bode, Abras, Conceição, Porto e Praia do Meio, onde ondulações de até 15 pés (+- 5 metros) quebram proporcionando ondas de altíssima qualidade. Muitas vezes chegávamos a comparar a Cacimba do Padre com a famosa onda de Pipeline, no Hawaii.

Após uma noite puxada de trabalho caí no sono rapidamente, pensando no meu primeiro dia de surf e de fotos. Como falei anteriormente meu santo é forte, e bota forte nisso. No primeiro dia de surf, um swell de 6 pés vindo de Noroeste com vento terral daquele jeito me esperava na Praia da Cacimba (0 terral na cacimba vem da direção S – SE). Organizei uma mochila de sobrevivência na praia com toalha, protetor solar, máquina fotográfica, lentes, caixa estanque, nadadeira, monopé, garrafa d’água e algumas frutas.

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Se não quiser levar comida, na própria Cacimba tem dois restaurantes onde você almoça um PF por R$15,00, com peixe, salada, arroz, feijão e farofa. Os dias seguintes não foram diferentes, a ondulação permaneceu forte por uns 5 dias e a primeira impressão foi boa. Ondas de qualidade e muita gente na água para clicar. Já nos primeiros dias consegui fazer contatos que tenho até hoje, o que me levou à Indonésia no ano seguinte, mas essa é uma história para mais tarde.

Fernando de Noronha é pequena, tem a menor BR do Brasil, a 363 com 17km. Ela inicia no Porto e vai até a praia do Sueste, onde você pode fazer mergulhos com os guias e observar as tartarugas e tubarões, que podem chegar aos 2,5m. Os locais garantem que eles são inofensivos, nunca houve um ataque na ilha, mas vai saber… melhor tomar cuidado.

Durante a o verão a ilha é muito seca, sendo necessário banhos rápidos e desperdício zero, pois muitas vezes falta água nas pousadas e até mesmo energia em dias de ventos fortes e muita chuva. Gás, então, é uma guerra para conseguir. Por ser distante do continente, Fernando de Noronha recebe todos os seus principais mantimentos como material de construção, alimentos, gás, carros, motos, bicicletas e tudo que você possa imaginar que uma cidade necessita, por barco ou avião. As empresas aéreas cobram fortunas para despachar cargas, sendo mais viável por barco.

Não é nada anormal você ver um barco com carros e caminhonetes, geladeiras e caixas perto do porto aguardando para atracar e descarregar. O processo é lento e burocrático e ainda depende das condições do tempo para que o barco possa encostar no porto. Às vezes passam dias, semanas até, nas proximidades antes de poder encostar. Para se ter idéia de como tudo é muito caro, em Fernando de Noronha para ter um carro circulando na ilha você tem que ser nativo ou ter um negócio na ilha, sem falar na pior parte, que é desembolsar mais ou menos uns R$ 30.000 por uma autorização pelo carro. Moto é a metade do preço, mas ainda assim salgado.

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Minha primeira semana na ilha foi de adaptação, muito calor, sempre carregando muito peso na mochila, conhecendo as praias e as pessoas, organizando a bagunça no quarto que fiquei hospedado e tentando levar uma vida bem diferente da que estava acostumado. Estava tudo se encaixando perfeitamente, até que surge uma gangue de mulheres lindas e cariocas para jantar. Tá bem, não era assim uma gangue, mas 3 lindas mulheres, que mais tarde fui descobrir eram aeromoças de uma empresa aérea.

Continua…

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