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Trip-O-Rama Chile

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos


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De cara para o gol.

Já diria o poeta Gabriel, O Pensador: “Navegar é preciso, senão eu fico louco”.

Com a latente vontade de viajar aliada à necessidade de surfar ondas de qualidade, os amigos Bernardo Zanatta, Pedro Carvalho, Renan Osório e eu, decidimos executar um projeto sugerido por outros conhecidos: ir ao Chile por terra. A separação do estado do Rio Grande do Sul apenas pela Argentina, o clima bastante quente no verão e a promessa de bons swells de sudoeste oferecidos pelo oceano Pacífico Sul, viabilizava e instigava a empreitada. Escolhemos os destinos a serem explorados baseados na qualidade e acessibilidade dos principais picos da região central. Nesta área situam-se as regiões de Pichilemu – com a famosa Punta Lobos – e Valparaíso – com beachbreaks promissores e alguma diversão noturna – sendo o clima de verão bastante semelhante ao Sul do Brasil.

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Como um quadro vivo.

Era possível escolher entre inúmeras opções de ondas e climas existentes no território chileno, uma tripa com mais de 4 mil quilômetros de litoral, entre eles a região norte com os pesados points de Arica e El Colegio ou a parte sul, pouco explorada e geladíssima. Entretanto, dicas colhidas com amigos conhecedores da geografia local nos indicaram a região central como a introdução perfeita ao lado oeste da América Latina. O país é geograficamente separado da Argentina pela Cordilheira dos Andes, sendo a principal entrada terrestre chilena distante apenas pouco mais de 100 km de Valparaíso. Decidimos ser esse o nosso caminho  e com a sabedoria passada por um grupo de motoqueiros, que incluía o pai do Bernardo, traçamos nosso roteiro pela Ruta 0 argentina. A viagem foi estimada em 3 dias, com duas paradas, uma ainda em solo brasileiro – pit stop logístico na fazenda de um dos tripulantes – e a outra após cruzar Mendoza, na Argentina. Depois de definimos os principais pontos, a exploração restante se daria de acordo com o monitoramento das ondulações.

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Prestes a colocar o pé na estrada.

Com isso, começamos a juntar toda parafernália necessária para um mês de acampamento: roupas, wetsuits, barracas, fogareiro, panelas, talheres, entre algumas outras tralhas. Dica quente: nunca esqueça de levar uma cadeira portátil, acredite, experiências anteriores mostraram-se inconvenientes sem a mesma. Investimos alguns trocados na aquisição de um GPS – que se pagou pelo aviso de radares fixos e economia de gasolina sem caminhos errados – e mapas para estudar a geografia já no destino. O quiver foi estipulado em 3 pranchas por cabeça, com comprimentos entre 6’0″ e 6’6″. Estávamos preparados para ocasonais bombas, mas na média os swells de verão no Pac–Sul são bem menos intensos que no inverno, mantendo ondas na faixa de 4 a 6 pés.

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Galera já em solo chileno.

A partida, marcada para o dia 10 de janeiro, foi aguardada com expectativa por todos após as tradicionais comemorações de Ano Novo. Duas novas ondas haviam entrada em nossa rota, por indicações dos amigos Lucas De Nardi e Google Earth. A primeira, uma esquerda (que novidade!) situada na cidade portuária de Constitución, parecia, pela indicação do mapa, uma “Snapper Rocks” espelhada, se as condições permitissem; a segunda, foi descrita como algo resultante da hipotética junção entre a perfeição de G-Land e a geografia e o fundo de La Punta, em Zicatela. Não é preciso comentar o quanto nossas expectativas foram infladas após a inclusão destes destinos. De qualquer forma, partimos na data combinada e, após a parada na fazenda do Bernardo para o abastecimento – barracas, acessórios e churrasco de ovelha – penetramos as planícies Argentinas com ímpeto. As longas horas de viagem foram preeenchidas com muita música, conversas, bobagens, chimarrão e peidos ocasionais. Depois de pernoitar em San Luis, segunda parada da viagem, seguimos rumo à fronteira chilena. Houve demora no desembaraço aduaneiro pois todos os veículos são revistados, incluindo malas, sarcófagos, motor, etc, com a presença de cachorros, portanto, fica o aviso aos aventureiros. Chegamos em Viña del Mar com as bundas tão quadradas que a diversão noturna se resumiu à pizza e cerveja. Estávamos enfim, no Chile.

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Fronteira Argentina-Chile.

Desconsiderando a cronologia dos fatos e a linearidade da rota, de modo a deixar a cereja do bolo para o final, observamos a previsão e decidimos ir ao local mais certo, Punta Lobos. Chegando lá não havíamos reservado nenhum tipo de estadia pois nosso planejamento ocorreu mais na base do “vai lá e faz” do que qualquer outra coisa, acabamos conseguindo uma vaguinha em uma das melhores estadias que o Chile pode oferecer. Uma cabana rústica de cara pro gol, na frente de “Las Tetas”, como os morros de Punta Lobos foram carinhosamente apelidados. Quando digo de frente pro pico não minto, pois até mesmo a privada foi colocada no centro do banheiro de forma a priorizar a visão do line up. Ficamos lá por dois dias e pegamos boas ondas com um swell perfeito para o início dos trabalhos, 4–5 pés, vento terral, séries espaçadas por um bom período.

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Uma visão que que coloca o sorriso no rosto.

Como a sede de descoberta era grande, após a bela iniciação decidimos gastar mais um pouco os pneus rumo à prometida Constitución que, viva a tecnologia e o Google Earth, fora descoberta pelo desbravador de Bigode (Renan).

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O mecânico Diamante.

Lá chegando, fomos hospedados pelo simpático casal Guillermo e Javiera que nos contaram um pouco da história do local e onde deveríamos encontrar o surf. Na manhã seguinte, fomos até o porto da cidade para checar o potencial. Olhando do carro, as ondas não mostravam grande coisa e o vento parecia dificultar mais ainda. Aproveitamos para descansar um pouco, almoçar um belo feijão com arroz e carne preparado pelo mestre cuca Pedro. Depois da morgada pós almoço voltamos a olhar o pico. Parecia ainda pior, mas como não tínhamos nada melhor para fazer, resolvemos nos molhar. Thanks Huey. O que parecia uma grande confusão de fora mostrou-se, na verdade, uma das tantas joias da costa chilena. Um point longo e rápido, que em duas ondas te levava até o meio da praia, materializou-se em frente aos nossos pés, que só tinham o trabalho  de caminhar de volta à ponta para já entrar novamente no outside. Pra quem convive com a arrebentação infinita e a corrente massacrante de Atlântida (RS), salve salve as ondas mecânicas!

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Constitución.

Ficamos lá por mais alguns dias, que demonstraram ondas tão boas quanto o primeiro dia, e nos deixaram imaginando como é a onda naquela condição as good as it gets. No entanto, como o ser humano é um bicho eternamento insatisfeito e, afinal de contas, havíamos vindo atrás de uma dica, foi para lá que rumamos. Algumas horas ao sul de Santiago e após uma meia hora de estrada de chão (tudo que fui autorizado a contar), nos deparamos com algo que mais se parecia um precipício. Fin Camino, dizia a placa dando a impressão de que… bem, é óbvio. Graças à primeira marcha reduzida da 4X4 e um exercício de maestria e desprendimento, descemos o estreito desfiladeiro. Atravessamos a praia e chegamos ao camping no canto sul da baía, estacionamos o carro e, afobados fomos pegar umas ondas no fim de tarde. Ainda não sabíamos o que estava por vir, mas aquele surf rápido já nos deu sinal de todo o potencial. O set up parecia mesmo a impensável junção de picos descritos, com uma esquerda que enroscava desde trás de um morro de placas tectônicas e se dividia em longas sessões manobráveis e cavadas sobre um fundo compacto de areia.

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O desfiladeiro.

Ao sair da água começamos a sentir a falta do planejamento. Montar a barraca no escuro só com uma lanterna já parecia ruim, até descobrirmos que o liquinho trazido estava mais vazio que nossas barrigas. Nem preciso dizer que uma porção de sucrilhos do café da manhã foi consumida fora de ordem. O dia seguinte amanheceu nublado, ventoso e desalinhado, ao que pensamos ser uma boa oportunidade para ir atrás do botijão de gás. As coisas não melhoraram quando descobrimos que teríamos que ir até a cidade mais próxima, sendo que ficaram ainda piores quando descobrimos que o conector do fogão não era compatível com o botijão chileno. Resumindo, almoçamos salgadinho e tivemos de arrumar um fogão campeiro. No fim das contas, o fogão foi “construído” e nossa dieta teve uma sensível melhora. Esperamos mais alguns dias pelo swell prometido na base de muita leitura, fotografia e discussões homéricas em volta da fogueira sobre os direitos, deveres e caminhos da humanidade (sim, são coisas que se fazem quando não há luz elétrica). As discussões às vezes eram tão inflamadas, que o álcool teve de ser banido em prol da segurança de todos.

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A culinária é algo sempre presente nas surftrips, independente do nível de sofisticação.

Eis que numa bela manhã, acordamos para o que seria o primeiro dia de uma sequência inimaginável de boas marés, ventos e ondas. Duvido, até hoje, que eu consiga outra série de épicos como a que vivemos naqueles dias. Entre idas e vindas foram quase 10 dias de perfeição indonesiana, logo ali, em frente à nossa barraca. Nunca havia tido a oportunidade de literalmente, acordar, colocar a cabeça pra fora e voltar para dormir mais um pouco, na certeza de que em pouco tempo o mar estaria ainda melhor. Nos revezávamos para registrar a ação e para descansar um pouco. A água gelada, longas horas de remada, caminhada e noites na barraca fatigavam o corpo, mas a mente estava mais excitada do que nunca. Parecíamos nunca querer pegar a última onda, tentar o último tubo, a última manobra. Impossível não sentir saudades desses dias tão dourados. A água azul escura era amaciada levemente pela brisa de terral que esculpia em tempo real aqueles desenhos clichês em cadernos de criança e oferecia possibilidades para tudo que se possa imaginar. Clínica de backside para mim, deleite de frontside para o resto da galera, com destaque para uma onda de 3 tubos do Renan. Os dias insistiam em querer passar, mas tivemos a sensação de que havíamos chegado ao ápice do pico quando o zelador do camping disse num dos dias – “Show de tubos hein?! Lo Mejor que hay visto” – confirmamos depois ao comprar um cartão postal da praia, e ver que pegamos melhor que a foto.

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Bernardo buscando a recompensa.

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Renan saindo da terceira sessão de tubo na mesma onda.

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Pedro na linha certa.

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O autor, em sintonia com os elementos.

Após o mar baixar e o tempo do cronograma ir se esgotando, deixamos para trás o camping e a baía dos sonhos rumo à um derradeiro pit-stop em Punta Lobos para encerrar a viagem. Ainda tivemos a sorte de sincronizar a passagem com o último dia da ondulação e, assim, pudemos colocar as 6’6″ para correr as longas paredes de El Diamante. À noite, sem conseguir vaga na “melhor cabana do mundo” acabamos num camping descrito entre os amigos como uma panela de pressão social. Brincadeiras (nem tanto) à parte, o que interessava mesmo era a onda, e nos despedimos bem dela, apesar de não conseguir parar de pensar na onda do cartão postal. No dia seguinte colocamos a carcaça na estrada e só paramos de dirigir quando já estávamos quase tomando a forma dos assentos. Ao chegar novamente em Porto Alegre, parecia ter acordado (à força) de um sonho. Viajar é preciso, senão eu fico louco.


Por Lucas Zuch.

Junho de 2011.

Abaixo seguem alguns endereço que citei durante a história, se puderem, não hesitem em conhecer nosso quase vizinho Chile, um país acolhedor e encantador que está logo ali.

Guillermo e Javiera– info@playaelcable.cl / playaelcable@gmail.com

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