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A Coexistência Entre o Pampa e o Surf

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Se o “estranhismo” é necessário para prender o leitor em sua curiosidade, já revelo que vou falar das semelhanças entre dois estereótipos antagônicos. O campeiro e o surfista.

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A primeira vista, julgando pelas roupas, ferramentas e jeitos de falar, eles são como água e azeite. Não se misturam.

Campeiro é um termo que se procurado no dicionário se refere a tudo que vem do campo. Mas como a semântica da palavra ganha novos significados com o tempo, “campeiro” tem servido para representar o gaúcho em sua versão tradicionalista, como o homem que vive no campo e do campo, veste suas pilchas e toma seu chimarrão ao amanhecer.  Às vezes pode até ser chamado  de gaudério, mas este termo é compreendido por alguns como o gaúcho em um estado mais festeiro e fanfarrão.

Em suas campereadas, que podem durar uma tarde inteira, o campeiro vai a cavalo recorrer suas terras, verificar a pastagem, o gado, as ovelhas e por aí vai.

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Bioma Pampa em sua essência, uma imensidão plana.

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Pecuária, um dos sustentos do homem campeiro.

 

Já o surfista… bom, se você está nesse site já deve conhecer o estereótipo que acompanha o termo.

 

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A alienação existe dos dois lados. Alguns campeiros pouco viram o mar, e nunca se arriscariam a pegar ondas pois tem medo de se afogar. Alguns surfistas dropam ondas de 10 pés, mas nunca sairiam da praia uma tarde para montar em um cavalo. Os alienados são tão sem graça que chegam a ser engraçados. Eles são os grandes responsáveis pela existência dos estereótipos, então, não vamos nos aprofundar neles.

Acontece que existe uma intersecção entre estes dois grupos. Pessoas que vivem no campo à trabalho e tem no surf a sua principal atividade de lazer. Campeiros surfistas, ou surfistas campeiros, como você preferir. Todos que conheço, são sujeitos simples e interessantes, dotados de muita paz de espírito. Vou inclusive citar alguns exemplos:

Ricardo  é um cara tranquilo. Trabalha com pecuária em Lavras do Sul, produzindo gado da raça Brangus, uma das melhores carnes para se ter em um bom churrasco. Seus filhos o acompanham nos lineups de todos os verões em Santa Catarina, mais precisamente na praia da Barra. É um daqueles caras que se respeita só pelo estilo.

 

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Ricardo, com sua mulher, e a lua nascendo no Pampa.

 

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Ricardo “Pinto” na praia da Barra.

Rafael é outro cara do tipo sereno. Vive em Uruguaiana, a 800km da costa mais próxima do Oceano Atlântico e a 1.900km da Costa Pacífica. Trabalha em uma empresa agropecuária familiar e durante o mês pelo menos dois finais de semana ele vai surfar nas praias de Torres ou Garopaba. É o km/onda mais alto que se tem notícia.

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Rafael campereando.

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Backside gaudério no Rio de Janeiro.

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Luiz Humberto divide sua residência em terços. Parte no Rio de Janeiro, parte em Garopaba e outra em Bagé. Sua estância é referência no aproveitamento do espaço agrícola, enquanto administra por lá ele monitora o swell que vem do sul, para ir encontrá-lo nas direitas que quebram em frente a sua casa na praia da Silveira.

Conhecemos o “buena onda” Julian na sua última passada por Porto Alegre. O hermano co-produtor do premiado “Gauchos del Mar”  também tem família pecuarista em uma estância no Pampa argentino. O seu filme o mostra uma surftrip da costa californiana até chegar em sua casa e ir trabalhar com o pai na lida da mangueira/curral.

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Julian mateando em algum lugar da costa chilena.

 

Como eles, também tem outros caras com costumes e estilos de vida parecidos, como: Felipe Martins,  Rodrigo Fialho, Ignacio Tellechea, entre outros.

Baseado apenas na minha observação empírica e de certa forma romântica, tentei descobrir qual a relação entre estas duas realidades. Como o surf e o campo podem ser antagônicos em seus arquétipos e ao mesmo tempo coexistir de forma tão natural na vida destas pessoas?

O chavão “os opostos se atraem” não cabe nesta explicação. Pois além das primeiras impressões, não consigo identificar mais polaridades e passo somente a reconhecer as semelhanças.

A madrugada: É recompensadora para os dois. Aqueles que veem o sol nascer colhem bons frutos

De olho nas previsões climáticas: Chuvas, sol, tempestades que vem de lá ou de cá. Tudo pode mudar as atividades do dia a dia

Imersão na natureza: Em alguns momentos, você não passa de um ponto perdido no meio da natureza

A espera: Durante uma campereada ou durante a espera da próxima onda, a paciência é contemplativa e um convite para a reflexão.

O cachorro companheiro: Alguns cachorros esperam na beira da praia enquanto o dono surfa, outros andam ao lado do cavalo na campereada.

O cavalo e a prancha: Ambos treinados/desenhados para facilitar o deslocamento do ser humano nas variáveis da natureza

A soma destas semelhanças talvez explique de onde se sustenta a paz de espírito dos surfistas campeiros (ou campeiros surfistas.. ainda não decidi). Mas na busca de algo que sintetize esta relação, percebo que há um elemento especial presente em todas as fotos que ilustram o post.

 

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Entardecer para o campeiro do Pampa. Foto: Ayla Weiler.

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Entardecer dos surfistas no Chile. Foto: Mark Daniel.

 

 

Seja no Pampa, ou seja em qualquer praia, pode-se ter um contato diário com o horizonte.

O horizonte não é apenas uma linha. Mesmo que saibamos o que existe depois dele, o horizonte continua representando um certo mistério, escondendo uma imensidão que não conseguimos ver. Ele une a terra e o céu, circula o nosso campo de visão, anuncia a chegada e a partida de cada dia. Para quem convive com tanta grandeza, seja sentado em uma prancha contemplando o outside ou seja cavalgando em meio ao plano do Pampa gaúcho, resta aceitar nossa ordinária existência na natureza. Uma lição de humildade, uma terapia diária.

Busque suas doses de horizonte. Talvez seja isso.

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Texto: Eduardo Linhares

 

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