Surfari | Surfari no The Surfer’s Journal – De Kombi Surfari no The Surfer’s Journal – De Kombi | Surfari

Surfari no The Surfer’s Journal – De Kombi

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Teaser da matéria ‘De Kombi’, publicada na edição 03.4 do The Surfer’s Journal.

Abaixo você pode conferir na íntegra (e com exclusividade, bixo!) a matéria ‘De Kombi’.

Entrevista: Surfari

Texto: Lucas Zuch

Fotos: Arquivo pessoal João Wallig

“1969. No Brasil, o Ato Institucional Nº5 do Regime Militar, recrudesce ainda mais a repressão sobre a sociedade civil. Nos Estados Unidos, a efervescência de Woodstock fertiliza os embalos hippies na contestação da Guerra do Vietnam, transmitindo uma liberdade que o mundo externo assistia fascinado, e desejoso.

Na cultura pop nacional, a novela da vez era ‘Verão Vermelho’, Pelé se preparava para liderar a seleção do tri e na rádio estourava o single de Roberto e Erasmo ‘As Curvas da Estrada de Santos’.

No surfe, as pranchas tinham uma quilha, as cordinhas eram feitas de soro hospitalar e as roupas de borracha deixavam mais assaduras na pele do que as fraldas de pano que envolviam os bebês da época.

Surfe. Que diabos, afinal, aquela dança aquática tinha que começava a cativar cada vez mais jovens? Em um mundo de comunicação vertical, pais, tios e avós, não faziam a mínima ideia do que se passava no âmago daquelas cabeças subversivas. Chinelos de dedo surrado nos pés, camiseta de gola esgaçada, bermuda cocótinha e cabelos que nunca sentiam o pentear de uma escova. Do figurino à atitude aos objetivos de vida, ninguém estava entendendo o que acontecia nas areias do litoral brasileiro. O que eles haviam de entender? Ninguém pedira suas turvas opiniões.

Quando o jovem João Wallig, um astuto e compacto descendente de alemães, calejado pela vida e detentor de um físico de militar americano, avistou pela primeira vez um certo Jorge Gerdau Johanpetter ficar de pé e correr uma onda na Praia Grande de Torres (RS), soube na hora o que iria fazer para o resto de sua vida. Foi logo acompanhado pelo colega de escola Ricardo ‘Neco’ Corbetta, um tipo esguio e de fala suave, que antes mesmo de se tornar um, já tinha aquele ‘surfer look’. Neco teve sua estreia no surf ao assediar, com sucesso, um casal de argentinos a emprestar-lhe a prancha. Naturalmente acolhidos pelas famílias de pioneiros do surf no estado, os Johanpetters, Bins e Seftons, os groomets João e Neco chegavam para formar a segunda geração de surfistas da região. Junto a eles, foram unindo-se mais amigos que viam na praia um santuário para anseios e angustias provocados pela vida na cidade. Rapidamente, Antônio ‘Toninho’ Chula, garoto arguto e pragmático, porém, com um charme e remelexo capaz de arrasar pistas de dança, trocou as areias de Imbé (RS) por Torres e juntou-se a eles. Na cola veio Paulo Tupinambá, um jovem com pinta de professor e uma lábia capaz explicar o movimento das estrelas a um broto, que também entrou para a turma dos surfistas que viviam no asfalto. E, assim, das ondas surgiu a improvável fagulha catalisadora de uma amizade que duraria a vida inteira e transformaria o destino dos quatro amigos.

Habitantes de uma outra época do tempo e espaço, os surfistas dos anos 70 sofriam de um mal que atualmente pouquíssimos amantes das ondas tem, a necessidade de companhia. Se o surf permanece sendo um esporte radical nos dias de hoje, naqueles tempos era algo que beirava a insanidade. “Um dia eu tava indo surfar, tava frio, chovendo, mas tinha altas ondas, meu tio olhou pra mim e disse: ‘tu é louco, o que que tu vai fazer lá?’”, relembra Chula. Pegar onda realmente não fazia parte das atividades previstas no status quo daquele tempo.

Tal era a dificuldade de acesso a referências e equipamentos na época, que a única saída encontrada por Tupi e João foi abrir uma surf shop, a primeira de Porto Alegre (RS). Tupi iniciou o negócio nos fundos de uma galeria em um bairro central da cidade. Começando com a representação das pranchas Rati [do shaper Jorge Baiano], Rico [de Souza] e Miçairi, algumas parafinas e umas raras peças de roupa, Tupi logo teve a companhia de João para expandir um pouco mais o sonho e ampliar o leque. Em 1972, começava a operar a South Shore. Nesse ponto, em contato com shapers e surfistas de outros estados e tendo acesso a revista Surfer, João e Tupi começaram a maquinar a ideia de uma viagem de surfe, algo que estivesse além da, ainda selvagem, Santa Catarina, destino tradicional para os exploradores da época. Certo dia, os dois conversavam com Jorge Baiano, que os contou de ondas maravilhosas no Peru, tubos escaldantes na América Central e a simetria dos swells californianos. Era o gatilho que faltava.

1975. Numa noite em que caíam do céu as águas de março, João e Tupi convocaram Toninho e Neco para uma conversa. Papo sério. Baiano falecera no ano anterior, passando como legado a semente da viagem, e ninguém estava disposto a deixar aquela ideia morrer com ele. “A gente vai ir pra Califórnia, tem mais dois lugares e estamos convidando vocês. Vamos?”, disse João em um leve esforço para não transparecer uma risada entredentes. Com o ‘sim’ como resposta, os quatro acordaram que precisavam de um ano para juntar dinheiro e botar o pé na estrada. Em um período que as relações entre pais e filhos eram mais independentes e incompreendidas do que as atividades do DOI-CODI, os garotos, agora com idades entre 23 e 24 anos, já guiavam suas próprias vidas, ganhavam o próprio dinheiro e decidiam o que fariam com seu tempo livre. “Naquela época não tinha a dependência que existe hoje. Nossos pais viviam num mundo e a gente vivia em outro, eles não entendiam nada do que a gente fazia; o cabelo, as roupas, as viagens”, explica Tupi.

Com a confiança digna da juventude, o primeiro passo para a execução da viagem foi tentar conseguir um patrocínio de marcas de automóveis, afinal, isso facilitaria, e muito, os planos do grupo. Com a reputação do surfe ancorada no causo do delegado que relatou que ‘nem todo maconheiro é surfista, mas todo surfista é maconheiro’, o máximo que eles conseguiram foram risadas de deboche. Sem problemas, foram adiante e investiram numa Kombi, a epítome dos surfaris e, também, uma casa sobre rodas. Juntaram mais mil dólares cada um, o máximo de informação disponível com alguns viajantes que haviam feito trechos da jornada e fixaram um ponto de destino – sem data para a chegada – San Diego, Califórnia.

26 de abril de 1976. Sabendo que teriam mais de 40 mil quilômetros de estrada e fronteiras que pipocavam em instabilidade política, os quatro deram um trato no visual e deixaram a capital gaúcha em direção ao norte da América. Logo após cruzar a ponte de ligação da cidade, a Kombi carregada de pranchas no teto já chamara atenção o suficiente para a primeira batida. “Onde os senhores estão indo?”, perguntou o policial. “Estamos indo para a Califórnia, senhor”, rebateu Neco. “Ah, sim… Ô Santos, libera aí os guris que eles tão indo pra Califórnia da Canção em Uruguaiana!”, disparou o seu polícia enquanto os tripulantes tentavam segurar as gargalhadas.

Atravessaram a Argentina e aportaram no Chile, exploraram um pouco o litoral, mas o frio e a falta de referências os colocou rapidamente na rota do Peru. Lá, tinham alguns conhecidos que poderiam lhes dar um teto e um prato de comida. Chegando nas ondas andinas, tiveram a primeira visão de um país onde o surfe já estava estabelecido havia mais tempo. Rapidamente, se entrosaram com a galera do surf club de Lima e, depois, se tornaram quase locais de Punta Rocas. Já de cara, ficaram três meses internados nas esquerdas peruanas, até que a explosão de uma revolta sitiou Lima e separou João dos demais, que surfavam em Punta Rocas enquanto ele resolvia um caso de amor latino-americano. Como conversas à fio de bigode valiam mais do que declarações inflamadas e cartas de recomendação naqueles dias, João conseguiu convencer os militares a lhe darem uma carona até o pico. Encontrou os amigos, que nada sabiam do levante, e seguiram viagem. Conheceram uma Montañita, no Equador, perfeita e deserta, mas não demoraram muito a seguir, pois haviam sido informados que a cruzada do Canal do Panamá costumava ser um perrengue. Após uma semana de intensa negociação, baixaram de 1.800 para 700 dólares a taxa, quase enlouquecendo o comissário do Canal, e cruzaram o istmo para continuar ganhando o Pacífico.

Encontraram Santa Catalina e Playa Venao e descobriram os tesouros da Costa Rica, conhecendo uns parcos viajantes ferais e absorvendo o máximo possível de conhecimentos e culturas locais. Naquela época, uma Kombi recheada de pranchas, cabelos e rapazes bronzeados despertava muito mais curiosidade do que inveja, e a despreocupação já fortalecida por milhares de quilômetros de estrada os aproximava cada vez mais de uma epifania viajante. E ela foi atingida passando a Nicarágua, quando adentraram El Salvador. Não há discordância entre os quatro de que El Sal foi o ponto alto da odisseia. Alternando-se entre os pointbreaks de Las Flores, Sunzal, Punta Mango e KM 59, de dia dividiam o line up com tenentes e soldados do aparelho revolucionário e à noite bailavam com as turistas europeias que se aventuravam pelo caminho menos trilhado. A esta altura, viajando juntos já a mais de 6 meses, o grupo estava tão unido que funcionava como um organismo vivo, cada qual com sua função e habilidades. “A gente tinha uma unidade tão grande, tanta sincronia, que meio que afastava os perrengues”, relembra João.

Não que as roubadas não se apresentassem, mas não havia muita comoção quando apareciam. Como quando voltavam de quatro dias de flat em Scorpion Bay, na Baja Califórnia, e o alternador da Kombi quebrou. “Pra começar, tu olha aquelas fotos de Scorpion na Surfer e acha que vai tá sempre daquele jeito, mas claro que não é bem assim. Pra completar, no caminho de volta a Kombi quebra e ficamos quase dois dias esperando alguém passar por aquele deserto”, conta Tupi. O primeiro meio de transporte a aparecer era um caminhão de boias-frias a caminho de uma cidade vizinha para a celebração da Virgem puríssima, uma espécie de festival cujo objetivo era, além de exaltar a santa, a cada ano fazer a maior pirâmide de latas de Tecate. Quando Tupi chegou lá para buscar ajuda, não apenas o único mecânico do vilarejo estava de porre, como toda a cidade se envolvera na borracheira. Tal qual nem o padre escapara, a única pessoa sóbria na cidade era o coroinha, que ajudou Tupi a resgatar os companheiros. O grupo ficou amigo de toda a cidade, ajudando o pessoal a empilhar mais latas e, em três dias, a peça de reposição chegou via despacho diplomático.

Se aproximando do destino final, o grupo foi percebendo cada vez mais que o ponto de chegada tinha pouca, ou nenhuma, importância perto do que haviam adquirido no caminho. Em um pensamento mais apressado, seria fácil concluir que uma jornada tão visceral quanto passar nove meses percorrendo os recantos mais rústicos da América, junto a três outras pessoas, que mesmo parecidas, eram indivíduos únicos, riscaria uma linha de ‘antes’ e ‘depois’ na vida de cada um deles. Eis que apenas a sabedoria de quem já esteve nessa situação pode explicar. “Não vejo a viagem como um divisor, ela faz parte de um processo. A viagem fez parte do aprendizado da vida”, filosofa João. E o que se faz quando o movimento para e voltar pra casa é o próximo passo da jornada? Como transformar essa experiência em algo a mais do que apenas uma egotrip de luxo? Transferir os aprendizados da estrada para a vida e as pessoas próximas foi uma das opções. “O surfe era parte da contracultura, mas a gente tinha uma visão meio romântica disso, e nós vimos que o surfe já era mais desenvolvido em outros países, era mais um esporte mesmo. Um dos reflexos foi voltar e criar a Federação Gaúcha de Surfe. Porque lá fora já tinha campeonato amador, estudantil, coisas que a gente nem imaginava”, recorda Tupi.

Os ensinamentos da estrada extrapolaram as fronteiras do esporte e foram para dentro da casa e das famílias dos aventureiros. Ver o mundo como ele é, e não como pessoas e jornais dizem que ele é. Ver que todos somos seres humanos iguais, apesar de ter backgrounds diferentes. Entender que o surfe, nada mais é do que uma metáfora da vida. “Mesmo que nem todos nossos filhos tenham se tornado surfistas, nossos aprendizados foram passados nessa ótica: que na hora do perrengue tu tem que baixar a cabeça e remar, que vai pegar onda e vai cair, que tem dia bom e tem dia ruim, coisas que o surfe te ensina. E uma viagem mais ainda, tem que ter paciência, saber conviver”, reflete João. As histórias da Kombi fizeram com que os exploradores ganhassem o apelido de ‘Professors’ pelos filhos e amigos, pois toda vez que eles se reúnem as histórias ganham vida e semeiam os sonhos dos que estão próximos com aquele tempero, aquele algo a mais que apenas a bagagem de uma vida plena pode oferecer.

Tão influenciada pela viagem quanto os próprios Professors, Antônia, a filha de João, uniu-se às amigas Christie e Clarissa (junto com a filha, Gabriela) para uma reinterpretação da jornada. Instigada pelos quatro a achar o real propósito de sua viagem, as meninas, que juntas formam um coletivo que promove ações sociais, esportivas e culturais, o Jiwa, vão interagir com escolas primárias da América Central disseminando valores, ensinamentos e experiências através da ótica da cultura surfe. “Quando ouvia as histórias da Kombi, pra mim aquilo tinha a magnitude das grandes histórias de piratas, só que esses piratas eram o meu pai e os amigos dele”, conta Antônia. “Mas quando fui crescendo, me dei conta que a grandeza da viagem ia muito além da aventura e das ondas. O verdadeiro ato de coragem foi estes quatro amigos se escolherem como irmãos, compartilharem seus sonhos, sua vida, seus valores e o profundo respeito um pelo outro e pelo mar”, conclui ela.

Sobre o que sentiu ao receber a notícia de que sua filha e as amigas tomariam de assalto a América, tal qual ele e os companheiros fizeram a quase 40 anos atrás, João observa com um tom leve e seguro: “Eu senti a mesma coisa de quando era a minha vez, que é um processo. Muitas pessoas perguntam como elas vão fazer, porque é perigoso, coisa e tal. Cara, elas vão dar um jeito. Elas vão achar o jeito delas de fazer. É um processo”, analisa ele.

Provavelmente, esse é um dos motivos pelo qual o surfe era tão incompreendido pelas gerações anteriores, e permanece até hoje. O surfe, assim como a vida, é um processo, uma constante transformação. O que o separa dos demais esportes e atividades recreativas, é que ele se confunde demais com a própria vida, até chegar um ponto em que o surfe e a vida são indissociáveis; e fazer as coisas mais diferentes como comprar um terreno em uma praia deserta ou atravessar a América de Kombi não são consideradas loucuras, mas sim, necessidades.”

img056 img057 img098 img105 img113 img114 img126 img127 img141 img158 img182 img219 img367 img579 img590 img593 img881 Kombi South Shore que foi aos EUA teasimg210

Instagram