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Surfari Na Semana Passada #13

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

O Surfari Na Semana Passada (#ssp) é um desdobramento em vídeo do nosso Week in Review, a ideia é apresentar notícias relevantes do mundo dos esportes de pranchas de uma forma pouco convencional. E, se possível, um esquete ao final do episódio.

Esta é uma edição especial do Surfari Na Semana Passada.

No sábado, dia 16/01, havíamos gravado o episódio 13 do SSP, uma retrospectiva dos fatos mais marcantes do mundo do surf no ano de 2014. Mesmo longe de sermos comediantes, o SSP sempre tenta passar uma veia mais cômica no jeito de falar sobre o que acontece no particular universo em que orbitam os esportes de pranchas. A edição está do nosso lado, então não é tão complicado ligar a câmera, dar REC no microfone e começar a expor algumas notícias e opiniões estapafúrdias sobre o tema. O Duda estava começando a editar o SSP #13 – Bate Volta Para O Futuro, quando chega a notícia do ataque que Ricardo Dos Santos havia sofrido. No dia seguinte, a confirmação de uma tragédia.

Saímos de Porto Alegre (RS) em direção à Guarda do Embaú (SC) para o velório com um misto de choque e incredulidade, aquele sentimento de suspensão no ar que notícias desse porte causam. Ficamos em dúvida sobre gravar ou não uma edição especial em homenagem ao Ricardinho. Usar uma ferramenta de humor para falar de uma fatalidade? Engolir o luto expressar de outra maneira nosso respeito e admiração por esse ser iluminado? Buscamos encontrar um caminho do meio, tentamos exaltar o que a vida e obra de Ricardo proporcionaram ao mundo. É importante deixar claro, que de forma alguma conseguiríamos fazer a retrospectiva completa de uma vida tão bem vivida. Por isso, trazemos à tona os principais feitos de Ricardo à partir de nossa ótica, pois talvez, mais do que tudo, procurávamos uma maneira de entender o que se passava com o Brasil naquele momento e porque sentíamos um vazio sem tamanho ao perder um ‘amídolo’.

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Especial é uma palavra que denota algo excepcional, fora da curva, notável. Assim é melhor descrita a figura central deste episódio. Ricardo Dos Santos foi, e segue sendo, alguém com o dom do encanto. Cada um tem a própria interpretação sobre a forma e a extensão da influência que este encanto se aplicava. Amigos do surf se sentiam encorajados a perseguir objetivos profissionais dentro do esporte, os vizinhos da Guarda se uniam em torno dos interesses comuns e de preservação, os conhecidos de todos os lados queriam surfar mais e melhor.

Pessoalmente, fui influenciado a viver mais ‘no talo’.

Ricardinho, apresentado pelos amigos e sócios na produtora Red House Studio (Mark Daniel, Nelson Pinto e Pedro Carvalho), era o cara que mais ousava viver que já conheci. Mesmo depois que o status de ídolo gradualmente mudou para amigo, o ímpeto em viver com o pé na tábua seguia tão claro quanto as cristalinas águas do Taiti. Intenso e acalorado, a ponto de às vezes se tornar teimoso, ele nunca passava despercebido. Ainda que do lado oposto de um salão cheio, a sua presença se fazia sentir, era daqueles seres que podem aparecer na sua vida por um aperto de mão ou por uma década e causar uma comoção estrondosa.

Fora a morte de familiares, que mesmo não menos doloridas são linearmente esperadas, já havia perdido dois amigos contemporâneos. E com cada um aprendi lições análogas, porém singulares.

O primeiro, Renato, me ensinou a apreciar as pessoas queridas que estão à nossa volta. Seja os pais, os tios, os conhecidos, os amigos de infância, demonstrar às pessoas boas o quanto elas são importantes é bem mais difícil do que parece.

Com o segundo, também chamado Ricardo, aprendi a correr atrás do que eu realmente queria. Fazer mais do que planejar, acreditar, errar, fazer de novo, acertar, errar, fazer… Às vezes, nos pegamos em uma engrenagem que ao invés de girar, para; e enquanto não recebermos uma descarga de força ou dar um jeito de azeitar o próprio eixo ficamos cada vez mais paralisados.

Por último – e como último, espero que este seja o caso por muito tempo – aprendi com Ricardo Dos Santos a não se apequenar diante da vida, a procurar a maior da série, na água ou em terra. Aprendi que a vida é boa demais para se deixar passar, que arrependimento vem das coisas que a gente queria fazer e não fez. Talvez uma das características mais marcantes que pude interpretar de Ricardinho era a ausência de culpa com que ele convivia com qualquer situação. Isso é, na minha infante e imperfeita opinião, a maior das qualidades e, provavelmente, a mais difícil de se obter. O simples ato de VIVER (em caixa alta mesmo) e querer viver ainda mais, faz de Ricardo Dos Santos alguém especial.

Texto: Lucas Zuch

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