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Surfari entrevista: Pedro Felizardo

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Quem conhece Pedro Felizardo sabe do que ele é capaz com uma câmera na mão e uma obsessão na mente. Quem conhece apenas o sobrenome de Pedro, pode pensar que seu dom é apenas uma extensão do talento passado pelo pai, o renomado fotógrafo Luiz Carlos Felizardo.

Então, para os que não o conhecem, Pedro é um determinado fotógrafo gaúcho que simplesmente correu atrás de seu sonho. Essas poucas palavras bastariam para definir a complexa busca dele pela qualidade de vida, a felicidade e o amor. Quando resolveu que era com a câmera na mão que colocaria um teto sobre a cabeça e a comida na mesa, Pedro não brincou em serviço. Vendo que conseguiria mais alegria e prosperidade, tanto pessoal quanto financeiramente, não hesitou em deixar o Brasil e ganhar o mundo. Depois de anos morando na Gold Coast australiana, Pedro e a família agora vivem na Indonésia, onde ele alterna seu tempo entre a residência em Bali e as trips à trabalho nas Mentawaii.

Confira agora um pouco sobre a trajetória de Felizardo.

 

O que veio antes, o surf ou a fotografia? Como foi o surf e a fotografia se encontraram?

O que veio antes foi a fotografia, através do meu pai, o fotógrafo Luiz Carlos Felizardo. Minhas primeiras lembranças são dele me levando para seu estúdio e laboratório na Rua Garibaldi, em Porto Alegre, no início da década de 80. Era no andar térreo de uma casa de dois andares com uma porta de ferro de abrir para cima e um cheiro muito particular de químicos utilizados no processo fotográfico dos filmes. Me lembro da sensação incrível que eu tinha de estar num quarto escuro acompanhando meu pai revelando seus filmes e “copiando” suas fotografias do negativo para o papel. Ver uma imagem surgindo num papel branco que era colocado em uma bacia com um líquido transparente era algo que sempre me despertava um sentimento único de curiosidade e vontade de poder ver aquilo de novo e de novo.

 

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Little India, Singapura

 

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Singapura

 

O surf surgiu na minha vida através de revistas e filmes que eu lia e assistia ainda criança. Quando fiz 13 anos, ganhei de presente da minha mãe a minha primeira prancha, uma Hotstick 5’10” quadriquilha. Desde a primeira vez que fiquei de pé naquela prancha, me apaixonei pelo esporte e nunca mais parei. Não existe um dia na minha vida que eu não pense no mar, nas ondas e no surf.

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Desert Point.

 

A fotografia e o surf só foram se encontrar mais tarde, quando eu tinha 17 anos. Eu estava com uma viagem de surf marcada para o México, Puerto Escondido. Meu pai me ofereceu uma câmera Pentax K1000, duas lentes emprestadas e uns rolos de filme preto e branco e colorido para a viagem. Decidi levar e acabei tendo que comprar mais rolos no meio da viagem de tão animado que fiquei com toda a função de sair sozinho para fotografar as ondas, o lugar e as pessoas. O resultado dessa primeira experiência unindo fotografia e surf foi uma exposição na loja Trópico (Casa de Praia), organizada pelo Fabio Schifino que era o gerente de marketing na época. Depois disso nunca mais parei e apesar de não ter começado a trabalhar com fotografia nesse momento, foi um excelente impulso que me aproximou demais do que se tornaria minha profissão anos depois.

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Mentawaii.

 

Quando foi que você pensou em trabalhar com o surf? Em relacionar a vida profissional ao surf?

Desde que comecei a surfar eu me apaixonei e fiquei fissurado no esporte. Sonhava em morar na praia e poder surfar todos os dias, porém, morava em Porto Alegre e somente ia para a praia no verão e, às vezes, em feriados. Quando fiz 18 anos, passei a ir a praia todos os finais de semana do ano. Em 1997, conheci no México um pessoal de São Paulo que me convidou a representar e vender os produtos de surf que eles importavam dos Estados Unidos. Passei, então, a trabalhar como representante comercial desses produtos, o que foi meu primeiro trabalho ligado a indústria do surf. A fotografia ainda era um hobbie que eu tinha e que, aos poucos, foi se tornando uma prática mais frequente e cada vez mais ligada às minhas viagens de surf e idas ao litoral. Até que comecei a levar a fotografia mais a sério e quando me dei conta, um dia estava fotografando surf e realmente decidido a me tornar um profissional.

 

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Foto de capa (Gabriel Medina): Pedro Felizardo

 

O que pesou na decisão de ir morar na Austrália?

Bem, pelo ano de 2001 eu comecei a fazer parte de um grupo que editava uma revista especializada no esporte chamada X-Pression. Eu estava terminando a faculdade de jornalismo e apenas precisava de mais um semestre para me formar. Tinha um carro e pensei que se eu vendesse o carro eu podia comprar uma passagem para um lugar com boas ondas e me manter por um tempo. Um grande amigo, o Rafael Rostirola, que morava em Sydney e vivia me colocando pilha para ir morar lá, me ofereceu um quarto no apartamento dele e da namorada enquanto eu não arrumasse alguma coisa e eu não pensei duas vezes. Propus para a revista que eu faria a viagem e produziria quatro edições em um ano. O plano era trabalhar e juntar grana em Sydney e quando tivesse a quantia necessária eu compraria as passagens. Austrália, Indonésia, Hawaii e México foram os locais escolhidos e, assim, comecei a traçar o início da minha carreira como fotógrafo de surf.

Morando um bom tempo fora do Brasil, como você vê o desenvolvimento do esporte no Brasil em relação aos outros países?

O surf ainda é um esporte relativamente novo no Brasil e evoluiu de forma incrível nos últimos 20 anos. Além da indústria brasileira que cresceu muito desde os anos 80, o número de praticantes e simpatizantes do esporte se multiplicou. O surf está entre os 5 esportes mais praticados no país e com o alcance da internet e as transmissões ao vivo das principais etapas do circuito mundial de surf isso só tende a crescer ainda mais. O problema que eu vejo no Brasil é a dificuldade de se tornar um surfista profissional pela escassez de investimento nos atletas, principalmente a longo prazo.

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Western Australia.

 

Quem ou qual são as tuas inspirações e referências?  

Quando comecei a ver revistas de surf, as principais no Brasil eram a Fluir, a Hardcore e a Inside. Sempre gostei de comprar as revistas para recortar as fotos mais alucinantes e fazer uma colagem/mosaico numa moldura e pendurar na minha parede. Nessa época me lembro de pirar com as fotos do Sebastian Rojas, Tony Fleury, Clemente Coutinho, Agobar Junior, Levy Paiva, Flavio Vidigal, Nelson Veiga, Afonso Paiva, Motaury Porto e vários outros fotógrafos brasileiros. Porém, teve um fotógrafo sul-africano chamado Chris Van Lennep que foi uma influência enorme na minha decisão de fotografar surf de dentro d’água. As imagens de Van Lennep eram sempre de tubos lindos, aqueles sem nada fora do lugar, nem uma gotinha sequer. Eu olhava aquelas fotos por horas e literalmente viajava pra longe dali.

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Jeremy Flores em Padang Padang (com o barco encalhado durante a etapa The Search).

 

Como o avanço da internet influenciou o seu trabalho?

Posso dizer que, hoje em dia, quase 100% dos trabalhos que eu faço para clientes do mercado de surf são fechados pela internet. Essa realidade se repete nos projetos de viagens que eu armo com surfistas profissionais. Email, Facebook e Skype ocupam um bom espaço do dia no meu trabalho. Você precisa estar em contato com pessoas nesse mercado a todo momento para continuar sendo lembrado. Demorei muito para me dar conta de como era importante estar sempre atualizando meus clientes, colegas de mercado e profissão com informações: onde você está, o que tem feito no dia a dia etc.

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Supertubos em Portugal.

 

Em que momentos sentiu-se mais feliz em relação ao teu trabalho? Quais consideram ser os pontos altos até hoje?

Um momento muito feliz e marcante na minha carreira  foi a viagem que fiz pela Austrália e Indonésia com o Fernando “Fanta” Moura, o James Santos e o Cassio Sanchez (equipe de surf da MCD no Brasil) e o filmmaker Bruno Bez. Foi quando eu realmente me dei conta de que eu estava começando a abrir um espaço no mercado que eu sempre sonhei em trabalhar. Aquela viagem rendeu uma material de 30 páginas na revista Fluir e também o troféu de melhor fotografia do ano no Prêmio Fluir de 2007, com uma imagem aquática de um tubo do “Fanta” em Lakey Peak, na ilha de Sumbawa na Indonésia. Porém, muito mais do que isso, me rendeu a amizade de pessoas incríveis, que por quase 50 dias foram como minha família.

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Fanta em Lakey Peak. Eleita a melhor foto do ano pela Fluir em 2007.

 

Agora morando na Indonésia, quais são as expectativas? Quais são os futuros projetos?

Bom, depois de longos anos morando na Austrália, em abril deste ano nos mudamos para Bali. A Camila, minha esposa, trabalha com joias e já esta produzindo suas peças por aqui. Minha filha, a Marina, está amando a vida na Indonésia. Estuda em uma escola internacional que fica a 15 minutos da nossa casa na Península do Bukit e já fez vários amiguinhos. Eu estou trabalhando com viagens para a Mentawaii em dois barcos: o Aileoita 2 e o Alyssa, além de continuar contribuindo com revistas do mundo todo, principalmente as brasileiras Fluir e a Surfar. Sinceramente, acredito que por enquanto essa será a realidade e os projetos se desenvolverão mais voltados para a Indonésia.

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Zicatela, México, em 35mm.

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North Shore, Oahu, em 35mm.

 

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Bali em 35mm.

 

Que equipamentos levas contigo em uma surftrip?

Isso depende muito do tipo de trabalho que vou fazer. Porém, ultimamente, nas trips aqui na Mentawaii, os equipamentos que eu geralmente tenho levado são: duas câmeras Nikon, uma lente Nikon fisheye, uma lente 14-24mm f/2.8, uma lente Nikon 24-70mm f/2.8, uma lente Nikon 70-200mm f/2.8 e uma lente Nikon 80-400mm f/5.6

 

 

Entrevista: Olavo Kuhn.

Fotos: Pedro Felizardo (Todos direitos reservados).

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