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Surfari entrevista: Madeira & Água

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

É sempre bom ser surpreendido. Quando recebemos o primeiro e-mail de contato do Guilherme Pallerosi, pedindo para dar uma olhada em seu blog, achamos legal pela iniciativa. Madeira e Água, diferente, no mínimo. Mandamos o feedback e na sequência o cara já entrou com o pé na porta, querendo ser ativador do Surfari. Atitude, irado, pensamos. Dissemos sim e demos meia dúzia de instruções, quando vimos já tinha uma postagem no ar. Guilherme começou a colaborar com o Surfari tão rápido e tão bem que esquecemos de fazer a entrevista de apresentação. Foi só quando começamos a ver mais e mais conteúdos no ar que nos demos conta da gafe. Reparar o erro soaria estranho para definir essa entrevista tardia, ele já largou como se fosse um de nós então foi até meio natural que dispensássemos apresentações. Mas Guilherme é daqueles caras que tem mais a dizer. Bem, digamos que não são todos os dias que você troca uma ideia com um sociólogo, que nas horas vagas é marceneiro, historiador e curte esculpir suas próprias pranchas (em madeira, claro).

Conheça um pouco mais do que o paulista editor do blog Madeira & Água tem a contar sobre a vida e o que o surf ajudou-o a entender.

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– Como ocorreu seu envolvimento no surf (quem foram as pessoas próximas que te influenciaram a surfar)?

surf sempre teve influência, mas eu nasci na região metropolitana de São Paulo e minha primeira prancha foi o skate. Enquanto os moleques do bairro jogavam bola depois das aulas, eu saía com o pessoal do skate para construir rampas, pular escadas e descer ladeiras, este era o lazer. Ser jogador de futebol que nada, a galera queria ser igual o Tony Alva, Peralta, o Caballero ou o Hosoi. Era final dos anos 80 e o skate ainda era uma mistura do punk-rock da cidade com a cultura do surf.

Nas férias escolares eu me enfiava na praia por quase dois meses e gostava muito, trocava o skate pelo jacaré, pela prancha de sonrisal (skimboard) ou de isopor. Na década de 90, consegui comprar uma prancha de verdade e o surf começou a ser uma referência muito maior.

Nesta época saiu um filme que marcou uma galera que está hoje na faixa dos 30 anos: “Surf no Havaí” (ou originalmente: North Shore), que vi algumas vezes na ‘Sessão da Tarde’, e muitas outras na fita VHS. No filme, o protagonista começava a surfar com um quiver de pranchas de todas as épocas, desde a alaia até as pranchas modernas. Este filme pode ser considerado um cult do surf, tinha alguns aspectos muito toscos, típico dos filmes da ‘Sessão da Tarde’,  mas se a gente pensar bem defendia uns conceitos muito atuais.

Foi aí que começou o meu relacionamento com os esportes de prancha, o gosto pelo mar e pelo surfe, independente do estilo ou época. Mais do que o apelo da imagem, sempre gostei da cultura que envolvia o surf, fosse na cidade ou na praia. Hoje o skate criou personalidade própria, mas quando comecei era tudo a mesma galera.

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– Como foi que você começou a colocar a mão na massa e se envolver com shapes?

Durante a faculdade, além do surf, passei a me interessar por outras coisas, como a marcenaria. Nesta época, conheci o Murilo, que aos poucos virou meu mestre nas artes da madeira, eu sempre fui curioso nos trabalhos dele e arrumava uma desculpa para usar a oficina. Alguns anos mais tarde, comecei a trabalhar como sociólogo em projetos na área social e ambiental, e nesta época o surf e a marcenaria já funcionavam como válvula de escape para as tensões do cotidiano. Foi em 2009, enquanto procurava uma prancha nova, pensei que se ela fosse de madeira duraria muito mais! Foi um estalo que deu na cabeça, unir coisas que me davam mais prazer, o surf, a marcenaria e a construção naval. E porque não construir um quiver histórico, igual no filme que marcou o imaginário da minha geração?

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O primeiro projeto foi uma prancha feita com uma técnica que eu inventei, de compensado naval, oca por dentro (tipo hollow) e com uma quilha central. Em 2010 coloquei a prancha na água e ela flutuou, surfou bem e aguentou por algumas horas ondas com mais de 1 metro, mas depois começou a afundar. Apesar disso, foi uma experiência ótima, aprendi muito pesquisando e colocando a mão na massa, hoje essa prancha pioneira está parada, mas considero o início do projeto Madeira & Água.

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– O que despertou seu interesse em estudar o passado do surf e aplicar tais técnicas ao seu dia a dia?

O blog e a “marca” Madeira & Água foram uma forma de canalizar e viabilizar vários projetos que eu guardava na gaveta ou tocava apenas como hobby. Após a construção da primeira prancha de madeira, minha mulher sugeriu que eu fizesse o blog para dar continuidade aos projetos, para dividir minhas experiências e as coisas que pensava sobre o surf. Foi aí que comecei também a escrever sobre o assunto, unindo: surf, marcenaria, jornalismo, história e, até, sociologia.

O blog Madeira & Água, as pesquisas históricas e experiências com pranchas de madeira fazem parte de várias buscas que deixam a gente inquieto. Uma delas é exercer um trabalho criativo e autônomo que dê sentido ao esporte e ao estilo de vida que eu me identifico, em síntese, o surf. Mas este é um projeto para ser executado com tempo, sem data certa para terminar, enquanto houver pessoas para dialogar e experiências para viver, eu espero continuar produzindo.

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– Qual você acha (ou como você imagina que seja) que é a melhor intersecção entre liberdade criativa e performance?

Colocar juntos, trabalho, criatividade e prazer, é uma coisa relativamente nova no mundo. O trabalho sempre teve relação com obrigações, cobranças, enquanto a criatividade esteve ligada a arte, a liberdade e ao prazer. Eu tenho uma teoria de que o surf se transformou em um mercado de tendências justamente por que muitas das pessoas deste meio sentem prazer em trabalhar com isto. O fenômeno vai além do esporte, está mais para um estilo de vida e, mesmo que se viva longe do mar, o surf representa valores e uma imagem que influenciam o modo de vida das pessoas. O mercado de pranchas de surf é um bom exemplo, os shapers sempre estiveram na vanguarda do design, pois além de shapers são surfistas (ao menos os que eu já conheci). Além de todo trabalho e conhecimentos necessários para se construir uma boa prancha, os caras estão sempre indo além, não por obrigação, mas porque gostam de surfe.

Acho que inovações, liberdade criativa e performance devem ser uma busca que não cessa. No mundo do trabalho nem sempre é fácil, tem pessoas com mais sorte e que conseguem encontrar facilmente condições de trabalho excelentes, outros passam a vida a procura disso. Mas veja bem, eu falo isto por mim, que tenho 34 anos e ainda estou procurando meu ambiente ideal de trabalho, com criatividade, autonomia, prazer, reconhecimento e grana, e espero continuar assim durante a vida toda. Enfim, acho que ideal é algo que se busca e não se alcança; só se aprimora.

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– Você acha que o surf no Brasil está preparado para a experimentação de designs já em voga nos EUA e Austrália?

Os EUA (especialmente a Califórnia) e a Austrália reinventaram o surf durante o século XX, criaram uma cultura e um estilo de vida ligados ao esporte. Devemos respeitar este tempo de maturação do esporte nestes países, não é por menos que eles vêm dominando as competições, o mercado e as inovações no surf. Vivi por um tempo na Austrália e dá para perceber a diferença, o surf faz parte do dia a dia, você encontra três gerações de surfista da mesma família dentro d’água, eles realmente valorizam todos os esportes náuticos ou aquáticos. Além de existir um grande mercado de surf nestes lugares, o esporte não é tão segmentado, abrindo espaço para inovações.

Aqui no Brasil o surf chegou de uma forma mais quadrada, por muito tempo o senso comum dizia que o certo é surfar com pranchinha de três quilhas, longboard era para velho, bodyboard para meninas, duas quilhas era coisa de museu… a concepção do surf costumava ser muito limitada, estereótipos do que víamos no exterior. Recentemente as coisas vêm mudando bastante, parece que o surf está se enraizando no Brasil, a começar pelos atletas que estão cada vez mais profissionais e inovadores, isto mostra outra postura do esporte. Depois, o preconceito dos próprios surfistas está diminuindo, já vemos garotas arrebentando com as pranchinhas, marmanjos felizes com seus bodyboards, a molecada nova com pranchão e todo tipo de pranchas no mar, inclusive algumas vintages ou de madeira. Todo este caldeirão abre as portas da criatividade e um novo mercado para os shapers brasileiros, que vêm inovando no design e experimentando novos materiais e técnicas.

O Brasil possui bons profissionais, nos faltava um contexto certo, semelhante ao encontrado em lugares como Austrália e EUA. Tudo isto é um processo, os profissionais que trabalham com o surf precisam amadurecer seus conceitos, sua imagem, e consequentemente, o mercado consumidor deve abrir-se ao novo. Por exemplo, reza a lenda de que o Bocão foi o pioneiro das pranchas com quatro quilhas nos anos 80, chegou até a competir com uns modelos desta pranchinha. Na época, ele foi ridicularizado e hoje as quad fins são considerada o novo paradigma. É uma pena, mas aquele momento era ruim para brasileiros inovadores, hoje já não é bem assim, o espaço existe mas é preciso persistir nas ideias.

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– Quais são seus planos para os próximos meses ou anos?

As pesquisas continuam e o blog está a todo vapor, produzindo conteúdos, aumentando os amigos, leitores, parceiros, colaboradores e outros contatos. Para o primeiro semestre de 2013 estou me dedicando também a outro projeto bem legal, em associação com a marca Laura Mallozi, que faz o design e a produção de joias muito criativas. Estamos desenvolvendo uma coleção unissex de pingentes e acessórios com significados relacionados ao mar, a praia, o surf e a navegação. O resultado está ficando muito bom e em breve estaremos com a primeira coleção pronta.

Além disso, a ideia é continuar com as reflexões sobre surf e cultura de praia. Está faltando mais massa crítica neste meio, com ideias novas e resgate de alguns valores, o surf não é só mercado, nem é alienado, temos muito para falar e opinar. Fico grato de encontrar pessoas como os idealizadores do Surfari e seus colaboradores, seguindo sempre em frente na eterna busca do ideal!

 

Entrevista por Lucas Zuch.

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