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Surfari entrevista: BrainstorMe

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Essência, palavra derivada do latim essentia, que significa a natureza do ser, o início, o que é imutável mesmo perante àquilo que vivemos e experimentamos.

A acepção da palavra para o ser humano nos remete às nossas raízes, época em que talvez apenas nossos mais antigos ancestrais, que viviam em cavernas, poderiam vivenciar em sua plenitude. Ou, para citar exemplos mais recentes, tribos indígenas que descartam o uso de tecnologia e veem na natureza tudo o que necessitam para sobreviver.

Porém, com o passar das décadas, a relação do homem com a sua essência está como dois pólos de imãs negativos.. se repelindo.

Não precisamos mais caçar, pois o alimento está disponível em qualquer supermercado. Construir uma cabana? Procure uma boa imobiliária. Caminhar dias para se locomover? Compre um carro. Fazer fogo então.. nunca foi tão fácil!

Pegue um homem que viveu na cidade grande a vida toda e jogue na floresta, quanto tempo será que sobrevive? A não ser que seja um grande fã do programa ‘Survivorman’ ou ‘À Prova de Tudo’, dois programas de televisão do canal Discovery Channel, provavelmente tal pessoa passaria por grandes dificuldades.

A consciência de que estamos indo rumo ao caminho inverso à nossa autenticidade como seres da natureza está tomando forma, de modo lento e gradual, assim como qualquer mudança em uma sociedade acomodada. Há pessoas que acordam antes, outras que demoram mais, onde talvez apenas seus netos percebam e desfrutem de tal mudança, afinal, cada pessoa tem seu tempo e sabe o que é melhor para si.

Desde os tempos antigos, os pioneiros em mudanças são vistos como loucos, aventureiros, utópicos, assim como foi taxado Cristovão Colombo ao partir em busca do desconhecido no século XIV. Na verdade, os ‘desajustados’ inspiram muitos outros, que ao perceberem a viabilidade de uma vida, de um caminho diferente, invariavelmente os tomam como exemplos a serem seguidos.

Com essa ideia em mente, entrevistamos o idealizador do projeto BrainstorMe, Rodrigo Ponzio, surfista e publicitário, que largou a vida agitada da cidade de São Paulo para viver na praia, trabalhando, produzindo, surfando e se aproximando cada vez mais de sua essência.

Através do projeto, são compartilhadas experiências, projetos artísticos, momentos e reflexões daquele que caminha em direção contrária ao que nos é culturalmente ensinado.
%name %titleUtopia? Bem, quem nos impõe limites é nós mesmos.

– Conte um pouco sobre a sua trajetória, e como a arte e o surf começaram a fazer parte de sua vida.

Nasci em São Paulo e vivi na cidade até fevereiro de 2013, quando me mudei para praia. Desde infância, meus melhores momentos sempre foram na praia, gosto herdado dos pais, que sempre me levavam pras praias do litoral norte de São Paulo. Disso surgiu uma grande conexão com a natureza e com o surf.

O desenho apareceu naturalmente, também desde criança. Percebia que levava jeito pois na escola me destacava dos outros colegas e meus pais elogiavam e incentivavam a prática, me munindo com referências.

Meu pai sempre comprava revistas de surf, o que incentivou o fascínio por ondas, pelo esporte e inspirou, na época, a criação de diversos desenhos de ondas gigantescas com surfistas pequeninos.

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– Como iniciou o projeto BrainstorMe, e em qual momento houve a decisão de deixar a cidade de São Paulo para viver na praia. Foi a partir de um fato, ou foi uma sucessão de fatores que te levaram a tomar tal atitude?

A decisão de mudar de vida e a criação do projeto BrainstorMe, surgiram por uma consequência de fatos, por anos.

Devido a habilidade que tinha no desenho e facilidade em criar, lá pelos 17 anos, ao começar a pensar em ganhar dinheiro, conheci a publicidade, que oferecia uma boa perspectiva de remuneração para quem tinha algum talento. E assim comecei na área, o que na prática acabou de certa forma direcionando minha capacidade criativa de forma muito comercial.

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Me tornei diretor de arte e depois, diretor de criação.

Quando me dei conta, a evolução na carreira começou a me distanciar da ilustração e da criatividade, pois como diretor de criação eu passei mais a gerenciar pessoas e administrar tarefas do que propriamente criar.

Além disso, a corrida por ganhar dinheiro e conquistar uma estabilidade financeira, fez com que direcionasse a vida de forma que não me completava, e mais nada me satisfazia. Quando me dei conta, estava me sentindo robotizado, preso a uma vida regrada, consumista e sem essência.

A insatisfação gerou muito stress, chegando em seu limite, quando nem um mergulho no mar era capaz de recarregar as energias. Eu comecei a ficar doente e temi a ideia de uma vida curta e insignificante.

Nesse momento, há 3 anos atrás, com uma filhinha de apenas 2 anos e um forte instinto de sobrevivência, reavaliei minha vida e decidi recomeçar.

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Parti para a busca de uma vida com mais sentido e que deixasse algum bom exemplo de vida para minha filha. De lá para cá, terminei casamento, me demiti no emprego e me mudei para praia com o objetivo de encontrar uma forma de viver, aproveitando mais o hoje e desafiando padrões e regras, que a meu ver, são questionáveis. Dr. Rules foi um personagem que criei para refletir sobre algumas dessas ideias.

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Quando comecei a nova vida, distante de todos, queria encontrar uma forma de não me isolar. Apesar de achar bom ficar sozinho, queria de alguma forma, estar conectado com as pessoas e compartilhar vivencias  e conhecimentos. Então surgiu o BrainstorMe para registrar minha experiência de vida e mostrar como que isso reflete nos meus valores, no meu trabalho e no meu bem-estar ao longo do tempo.

Independente da exposição, os registros me ajudam muito a organizar e direcionar meu caminho. Além disso, compartilhar tem me permitido uma aproximação muito valiosa com pessoas que de alguma forma se identificam, seja pela arte, pelo surf, pelo lifestyle ou pelas ideias.

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– Sabemos que o surf, por se tratar de um esporte essencialmente baseado em sensações, expressa diversas inspirações artísticas em seus praticantes, entre elas o desenho, a pintura e a fotografia. Como você vê essa relação, e como o surf te ajuda na hora de produzir os materiais para o BrainstorMe?

Para mim, praia tem um significado especial. É onde passei os melhores momentos da infância e, especialmente, na praia que estou morando hoje é onde aprendi a surfar.

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Vejo o surf como um dos esportes que mais nos conectam à natureza. A relação é muito rica. Uma busca por um entrosamento perfeito, onde nenhum momento se repete. A incidência do Sol na água, as marés, a temperatura, o tamanho e direção do swell e do vento, tudo se movimentando o tempo todo. E ainda, é um dos poucos esportes onde o homem consegue tirar o melhor proveito da natureza sem deixar um rastro de sua passagem.

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Esses fatores, que sempre me fascinaram, tiveram uma ligação ainda maior com meu momento atual. Existe uma identificação da filosofia do surf e seus movimentos com minha escolha de vida, que busca tirar o melhor proveito da vida em condições instáveis.

Junto com o surf, o ambiente em que se vive e como se interage com ele, influencia diretamente na capacidade criatividade e produtiva. Antes eu criava campanhas enfurnado em uma sala de reunião cheirando ar condicionado no meio de pessoas estressadas e insatisfeitas. Em consequência disso passei muitos anos da vida sem motivação e distante da arte, fazendo um resgate apenas esse ano, ao me mudar pra praia. Hoje eu crio no meio de pássaros, muito verde e barulho do mar. E quando preciso dar uma pausa, vou surfar.

O mar e as ondas são as principais inspirações atuais para a arte. Através do mar consigo expressar emoções e sentimentos das mulheres que desenho.

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– Ao tomar a atitude de abandonar um estilo de vida agitado na cidade grande, para viver de um modo simples na praia, abdicamos de confortos e bens materiais, para agregar mais qualidade de vida e um modo de viver que seja mais ligado a essência do ser humano. Para você, quais foram e quais estão sendo as principais vantagens e obstáculos nesta mudança de vida?

Acho que o principal desafio é aprimorar o auto-conhecimento. Só assim é possível identificar o que realmente é essencial para se manter em uma vida simples.

Essa opção de vida não pode se transformar em uma prova de resistência e ser torturante. O desprendimento tem que acontecer naturalmente. Para isso, se conhecer e saber o que realmente faz sentido para si, é essencial. Descobrir esse sentido, para mim, é um estimulante desafio, que acredito que cada um tem que descobrir sozinho, pois o que é essencial para um, pode não ser para o outro.

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Saber ficar sozinho e gostar disso é uma boa forma que encontro para identificar o que eu realmente preciso. Não quero me distanciar das pessoas e valorizo demais a troca, mas hoje dedico boa parte do meu tempo para ficar só, e isso me faz muito bem, especialmente no meio da natureza. (Se fosse na cidade eu não suportaria.)

O contato intenso com a natureza colabora muito para o processo de vida simples. Quanto mais se entrosa no meio dela, mais gritante é o quanto o homem vive errado. Esse é outro desafio, encontrar uma forma de viver o mais próximo do essencial, interagindo em um mundo que caminha freneticamente para o lado oposto.

Já existem muitas pessoas com consciência que o caminho deve ser revisto, mas na prática, me sinto no contra fluxo. As vezes penso se minha opção é muito utópica, mas sinceramente, não me importo.

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A única desvantagem gritante no meu caso, é minha filha, que mora em São Paulo, e por mais que visito e trago ela constantemente, sinto muito falta dela. Isso não me faz desistir, pois inclusive, o fato dela existir serviu como estímulo para que eu tornasse minha vida mais significante e consequentemente dar um bom exemplo para ela seguir. Não para ela fazer necessariamente o mesmo, mas para ter como referência, viver com essência.

– Como é o seu dia-a-dia sendo um artista independente? É difícil manter a disciplina já que não é mais necessário bater o ponto ao chegar no trabalho?

A flexibilidade de horário também permite que o trabalho seja feito no momento do dia que eu esteja mais produtivo, otimizando o tempo e a qualidade do trabalho. Hoje eu não tenho distinção entre dia de semana e final de semana, todo dia é útil, sendo possível conciliar o trabalho com o lazer. No mesmo dia que eu trabalho eu também surfo, e assim, o stress e o cansaço não acumulam. Ou seja, ao invés de ter 5 dias se matando de trabalhar, para descansar só 2, posso intercalar o trabalho e o lazer o tempo todo.

O conceito de dividir 5 dias de trabalho e 2 de descanso, horários comerciais rígidos, ao meu ver é obsoleto, já não funciona para a maioria das profissões e não satisfaz a maioria das pessoas. Além disso as grandes cidades não tem mais estrutura física para suportar o movimento de uma população inteira saindo e voltando para trabalhar ao mesmo tempo. Isso sem contar que até sair para trabalhar diariamente já é algo para se avaliar. Foram regras impostas há muito tempo que seguimos até hoje sem questionar se ainda fazem algum sentido.

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Claro que em uma rotina flexível é preciso muita disciplina e responsabilidade para não perder o foco. Não é  fácil!

Acredito que para esse formato ser difundido, é  necessário uma adaptação cultural gradual, mas ao meu ver, é inevitável. Acho que um dia as empresas vão perceber na prática que o bem-estar está diretamente relacionado com a produtividade.

Se estabilizar na instabilidade e interligar o lado pessoal e profissional harmonicamente é um grande desafio, mas muito valioso e compensador.

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– Quais são seus planos para o futuro e para o projeto BrainstorMe?

Meu plano é poder viver somente da arte e sair da publicidade. Como meu resgate artístico é recente (desde fev/13, início da nova vida), ainda preciso me firmar como artista e por isso as minhas contas ainda são pagas por freelances de publicidade.

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Meu sonho é viver da arte com essência e inspirar pessoas naturalmente.

Ou seja, não precisar me moldar comercialmente. Gostaria que minha arte fosse desejada pela sua essência natural e espontânea. Acho que a partir do momento que se molda ou atende uma solicitação de mercado, seja de uma galeria de arte, de uma agência de publicidade ou de uma marca famosa, a essência se perde, e o artista também.

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Sei que é difícil, por isso é um sonho. E por necessidade de sobrevivência, talvez precise fazer isso em alguns momentos, mas meu objetivo será sempre lutar pela essência.

Para saber mais, acesse a Fanpage e o site do projeto.

Fotos: Rodrigo Ponzio

Introdução e entrevista: Cássio Cappellari

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