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Surfari e The Good Samaritans visitam Akadimia – Redescobrindo a “MPG”

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

A playlist desta semana, mesmo estando com nervos à flor da pele devido ao início da Copa do Mundo, é dedicada a um segmento da música nacional que tivemos o prazer de conhecer mais à fundo no último final de semana. A história abaixo resume melhor do que esta chamada o que se passou durante estes dias, mas para ir direto ao cerne da questão, conhecemos e aprendemos a admirar um estilo de música regional do Rio Grande do Sul que nada tem a ver com o vanerão ou os chamamés, que por terem uma roupagem mais caricata acabaram descolando as referências musicais do campo e da cidade. Não apenas como gaúchos que somos, gostaríamos que essas canções e esse gênero não se perdesse no longo caminho entre a fronteira e a capital, seja aqui no RS ou no Brasil inteiro, pois tamanha riqueza artística tem de ser compartilhada. 

Link para a playlist completa: clique e ouça-me!

 

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Final de semana. Dias que, para infortunados mortais que residem longe da praia, são reservados ao mar. Momento de colocar preocupações e ambições de lado e apenas desfrutar do que a natureza nos oferece de mais abundante.

Eis que uma surpresa vinda em forma de convite resolveu interferir nos planos salgados dos primeiros dois dias de folga que os integrantes do Surfari teriam em algum tempo. Rafael, o irmão do Duda, surfista campeiro dos mais ‘bagual’ e residente de Uruguaiana (RS) convidou os amigos próximos para um final de semana de imersão no campo e na música. Relacionado com alguns dos principais expoentes de uma geração mais recente da música e poesia campeira, crioula, tradicionalista ou como-quiser-chamar, Rafa convidou o pessoal da fronteira e nos encarregou de completar a integração artística levando amigos músicos de Porto Alegre (RS).

 

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Confesso que minhas sinapses surfísticas azedaram quando perceberam que não iam ligar-se aos respectivos receptores de prazer. Mas abracei a causa e me juntei ao time da capital. Conseguimos juntar 50% da banda de reggae e som brasil The Good Samaritans (TGS) e botamos o pé na estrada rumo a fronteira oeste, na certeza de que a junção de referências seria, no mínimo, interessante. No entanto, nenhum dos 4 integrantes da barca da capital sabia exatamente onde estava se metendo.

 

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Lá chegando, na fria noite de sexta-feira, fomos recebidos com o calor e hospitalidade dos artistas fronteiriços, como fôssemos irmãos que apenas não se encontravam há alguns anos. Rapidamente percebemos que o evento em que estávamos agora inseridos se tratava de um encontro de compositores e cantantes, e que a partir do tema proposto, ‘Doçura’, todos estavam desafiados a compor e apresentar uma canção na noite de sábado. Pensei comigo mesmo, seriam menos de 24 hs para compor, ensaiar e apresentar uma música. Já viemos trabalhando há 3 anos com produção criativa e aprendemos um pouco sobre a transpiração ser mais importante do que a inspiração no processo criativo, mas que prazo enxugado este!

 

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Ninguém parecia realmente preocupado com isso. À exceção do pessoal da capital, que a esta altura já havia sido devidamente apelidado de ‘Barca da Ambrosia’, em uma brincadeira com o tema do festival, todos os artistas detinham o controle desse formato de interação e criação e o que se sucedeu nos momentos seguintes foi algo que eu nunca imaginei existir. A partir de um verso escrito, alguém já trazia um violão e começava a musicar, o autor do verso saía para buscar outra cerveja e acabava, por acidente, ajudando numa estrofe alheia, enquanto percussão, chocalhos e pandeiros entravam na roda de um poema declamado em volta da fogueira. Penso bastante enquanto escrevo e acho difícil cunhar outro termo para definir o que vimos, senão algo da estirpe de ‘hecatombe criativa’.

 

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Assim como eu, haviam outros presentes que também não tocavam ou tinham dificuldade em compor, mas a magia da coisa toda era que o estopim para uma nova criação podia vir de um causo, de uma roda de mate ou, como no caso de uma das canções, do ronco ensurdecedor de um cachorro. Ou seja, a grande questão é que as obras se tornam muito orgânicas, pois se não houvesse aquele ambiente e as pessoas inseridas nele, tudo seria completamente diferente, os temas, as melodias, a dinâmica das apresentações.

 

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O Duda e o Thomaz [guitarra e voz da TGS] aguentaram mais tempo a maratona de sexta-feira, e quando a ‘Barca da Ambrosia’ se juntou no sábado pela “manhã”, eles apresentaram uma letra. Eu e o Ber [baixo e voz da TGS] demos uma força e pelas 15:00h começamos a ensaiar. Neste momento, via-se uma outra etapa do processo criativo, em que os autores se reuniam em pequenos grupos e afinavam os versos e melodias de suas canções. Não fosse o clima criado pelo aniversário do Rafa e a reunião daquele bando de gente diferente, certamente haveria uma aura competitiva no ar. Depois de algumas horas ensaiando, novamente percebi o quão árduo é o trabalho criativo. Estava cansado, com fome, com horas de informações novas na cabeça e nenhum tempo para processá-las, mas ficamos ali, repetindo verso após verso.

 

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Nossa música foi composta em inglês, uma língua que de certa forma dominamos, e tinha uma levada groove que misturava referências como Al Green, Michael Jackson e outros tantos. Se parássemos pra pensar, não estaríamos nos adequando a proposta de um festival gauchesco. E eis que foi exatamente isso que nos surpreendeu. Não tínhamos que estar, e os outros artistas ficaram felizes que não nos prendemos a um ‘estilo’ pois, ao contrário do que quem vive mais afastado da cultura do campo pensa, eles também não se deixam limitar por convenções. E essa foi a principal troca que pudemos perceber. O olhar e ser olhado, o falar e ouvir, o cantar e ser encantado.

 

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Ao final, 10 músicas foram apresentadas, temas de caras cuja dimensão do talento só descobri lá, como Pirisca Grecco, Zelito, Rafael Ovídio, Fernando Saldanha etc. O sistema de votos era aberto e nossa música ficou entre as 3 mais votadas, que repetiam a apresentação. Na segunda vez, já menos tensos, soltamos um pouco mais a expressão e conseguimos transformar o galpão num baile. Nunca estivera em um palco e posso dizer que é algo muito intimidante, seja para 20 pessoas na plateia ou 10 mil [essa última informação quem confirmou foram os TGS, não eu, claro]. No fim, de lambuja saímos como o tema mais votado, certamente muito mais pela gentileza de nossos anfitriões do que qualquer outra coisa. Mas, à essa altura, os anos de experiência que tinha ganho em apenas 2 dias já valem muito mais para a minha vida do que o prêmio do Festival Akadimia Offline.

 

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Gracias amigos, que baita troço!

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Playlist da Semana Surfari:

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Texto por Lucas Zuch.

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