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Surfari apresenta: Lauren Ferreira

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Desde 1964, quando Linda Merrill consegue ser a primeira mulher a fazer a capa da revista Surfer, passando por Lisa Andersen no início dos anos 90 e, chegando em Alana Blanchard e Stephanie Gilmore nos dias de hoje, o surf feminino mudou significativamente.

A premiação dos campeonatos se multiplicou (apesar de muito menor em relação ao tour masculino), a parte comercial evoluiu (com marketing e produtos voltados exclusivamente ao público feminino), e principalmente, a performance hoje em dia é digna de deixar muitos marmanjos no line up de queixo caído.

O milenar paradigma do ‘sexo frágil’ já foi quebrado. As mulheres estão cada vez mais ganhando força em um universo que costumava ser masculino. Mas, cadê a novidade?

Agora, o que se discute é a motivação para tal fato. Deixando a questão mais clara: os artigos femininos já fazem parte de 50% do faturamento na indústria do surf atualmente, mas, deste público apenas 10% praticam o esporte.

Que conclusões podemos tirar a partir destes números? Bem, talvez apenas mais perguntas nos venham à cabeça. Se o surf feminino faz parte da metade do faturamento da indústria, por que isso não se reflete dentro da água (ou você já esteve em um line up em que os dois gêneros estavam em igualdade numérica)? Será que o estilo de vida e o estereótipo do surfista são mais atraentes do que o próprio esporte em si?

Ninguém é dono das repostas, mas discussões a respeito de tais perguntas são necessárias. Por isso, é importante considerar, de forma democrática, opiniões de todos os lados.

Partindo deste pressuposto, e com o intuito de reforçar cada vez mais nosso heterogêneo time de ativadores, é com grande prazer que apresentamos Lauren Ferreira, a surfista que irá representar a voz feminina dentro do Surfari, e assim, enriquecer cada vez mais a nossa plataforma.

Seja muito bem-vinda ao time!

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Foto: Carol Rosa.

Como iniciou seu contato com o surf, e quem foram seus influenciadores e referências neste esporte?

Sempre fui muito curiosa pelo surf. Desde pequena (por volta dos 4/5 anos) minha mãe conta que quando se  distraía eu corria até uma roda de surfistas e ficava enchendo a galera de questionamentos sobre o esporte e todos aqueles equipamentos. Eu lembro de achar eles o máximo!

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Tirando onda de morey e leash no pé. Foto: Arquivo pessoal.

Comecei, lógico, imitando eles com meu morey booggie, mas aos 8 anos meus primos mais velhos começaram a me empurrar em umas marolas. Peguei gosto pelo esporte e o Papai Noel foi o responsável pela primeira prancha da minha vida no verão de 97.

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Foto: Arquivo pessoal.

Desde pequena, sempre passei os verões na Praia do Rosa, então minhas referências normalmente eram quem estava por perto. Com certeza meus primos e a galera que arrebentava no outside.

Particularmente, uma pessoa sempre será a referência número 1, cuja alcunha já diz tudo – o capitão David. Professor na escola de surf do Rosa que leva seu nome, esse  cara me fez entender o surf – que não é apenas botar uma prancha debaixo do braço e sair remando atrás de ondas. Filósofo do mar e da vida, tenho o maior orgulho de ser próxima a essa figura ímpar.

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Capitão David. Foto: José Luiz Berasaluce.

Conte o que o surf significa para você, e, com tantas opções, porque foi logo este o esporte escolhido.

Minha mãe era professora de natação quando estava me esperando, então eu nem tinha vindo ao mundo e já estava dentro  d’água. Ainda bebê já estava em um piscina aprendendo a nadar.

Mas o grande fator de eu ter interesse pelo surf foi a proximidade que eu tinha com o esporte. Desde pequena fui acostumada a estar na praia, mesmo no inverno. Então, convivia muito com os surfistas – apesar dos meus pais não surfarem nessa época, eles sempre tiveram uma forte ligação com a praia.

Hoje em dia, o surf significa desligar a rotina de atividades e de pensamentos. Além disso, é incrível ter a oportunidade de ser levada por uma força da natureza, e através dela fazer movimentos tão plásticos que tu acaba se incorporando a aquela paisagem.

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Foto: Carol Rosa.

Acho um grande exercício, uma atividade física puxada que tu nem te dá conta por causa da diversão que é proporcionada. Fora o entendimento que tu tem do teu corpo e da tua capacidade. Isso gera uma noção do teu limite, que é essencial na vida de qualquer pessoa, sendo atleta ou não.

O surf pode ser considerado, pela questão numérica, um esporte masculino. O feminismo dentro do esporte foi ganhando força a partir do início dos anos 90. Mais de duas décadas depois, como você percebe a evolução no surf feminino, e como você a enxerga para os próximos 20 anos?

Quando comecei a surfar eu era muito pequena, então não tinha muito essa consciência de que o surf era um esporte masculino.  Até porque, praticamente todos os esportes tendem a ser masculinos, em função da fisionomia e da capacidade masculina ser muito mais eficaz do que a feminina.  Uma grande frase da mega blaster ícone feminina – Lisa Andersen – foi bem esclarecedora quando eu ouvi: “Surf like a woman“.

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Foto: Rosali Ferreira.

Acho muito legal quando há meninas na água, e a cada verão tem aumentado o número. Hoje em dia tem normalmente umas 5/6 meninas na água (em um mar com 60 cabeças), mas acho que já é uma virada que está acontecendo.

Acredito que daqui a 20 anos entenderemos que a essência do surf não leva nenhum gênero, e se preparem porque o mar vai ficar mais crowdiado ainda.

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Foto: Rosali Ferreira.

Quando você vai surfar, como você vê a presença (ou a falta) de meninas dentro da água. Já esteve na situação de ser a única representante feminina entre dezenas de homens no line up? E, através deste fato, já sentiu algum tipo de desrespeito ou discriminação?

Muito já surfei no meio dos meninos sem nenhuma menina se aventurando no mar. Há uns 12 anos atrás, mais ou menos, comecei a ver umas meninas na água – principalmente a meninas que moravam no Rosa mesmo.

Nunca me senti discriminada, ao contrário, os meninos sempre me trataram muito bem, e até cuidaram de mim em perrengues como estourar a cordinha, dando dicas, e até incentivando mesmo.

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Foto: Bruno Lopes.

Para você, qual seria a surf trip dos sonhos?

Boat trip é sempre a mais pedida! Pré requisitos para a viagem perfeita:

– no crowd

– água quente, ou no máximo um boardshort.

– direitas e esquerdas (com um preferência para as esquerdas)

– de meio metro a 1,5m longa e forte

Mas ok, o crowd é inevitável, então tiro fora do pré requisito, mas se rolar vai ser excelente!

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Foto: Carol Rosa.

O Surfari, sendo uma plataforma democrática e heterogênea, terá o enorme prazer de contar com você no nosso time de ativadores. Na sua opinião, como uma voz feminina pode contribuir e agregar para o enriquecimento da cultura surf?

A relevância do surf feminino começa a tomar forma, tendo em vista o crescente número de meninas na água e também o grau de competitividade que está tendo o WCT e o WQS. Hoje temos atletas renomadas no tour, e pelo simples fato de serem renomadas – no plural – isso torna o assunto bem mais interessante.

Introdução e entrevista: Cássio Cappellari

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