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Surfari apresenta: Hippies Modernos II

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Ano de 1966, Estados Unidos.

Jovens se encontravam insatisfeitos com os rumos de um governo e de uma política que subsidiava a Guerra do Vietnã. Ao mesmo tempo, não havia um sentimento de inclusão em uma sociedade conservadora, percebendo nela uma personificação de tudo o que era errado em seu país: cultura, valores e princípios voltados a status social, violência, discriminação e bens materiais.

A palavra ‘liberdade’, tão enfatizada no hino nacional americano, parecia uma verdade distante, afinal, o que era pregado aos jovens basicamente era: faça faculdade, estude, trabalhe, trabalhe, trabalhe, se case, tenha filhos, trabalhe, trabalhe mais um pouco, se aposente, morra.

Contestações a respeito deste estilo de vida ganhava, aos poucos, cada vez mais força, como um grande despertar.

Uma contracultura estava se formando.

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Ano de 2013, Brasil.

Vivemos em uma era de transformações. Apesar dos esforços contrários de nosso governo e de grandes entidades coorporativas, jovens da nossa geração, aos poucos, começam a contestar os rumos de uma política voltada para interesses de uma minoria. Parafraseando o músico B-Negão: “ordem para o povo, progresso para a burguesia”.

Altos impostos, baixos salários, fazem com que a qualidade de vida da maioria dos brasileiros seja, basicamente: trabalhar muito, dormir pouco, e aproveitar a vida então, apenas se der tempo.

O resultado é uma grande insatisfação, e, a partir deste sentimento, nossa geração está despertando e percebendo que: sim, temos que trabalhar, mas também temos dar um jeito que viver, afinal, quem quase vive já morreu.

Com a era da informação e do compartilhamento instantâneo de notícias, propagar uma contracultura baseada em um estilo de vida mais sustentável se tornou uma tarefa muito mais fácil.

Internet sendo o principal veículo desta disseminação.

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Ao comparar as palavras chaves em diferentes gerações, percebemos o paralelo de uma linha de pensamento, em que o propósito único está em expor um modo de vida diferente do que nos é culturalmente apresentado. De 1966 à 2013, se tirarmos nossa evolução tecnológica, será que esta ideologia mudou tanto assim?

Ao pensar em máximas como “nasci na época errada”, não nos damos conta que tal ideia surge de um descontentamento com o presente em que vivemos, seja ela no âmbito pessoal, profissional ou espiritual. Soa como falta de atitude, uma desculpa para si mesmo para não colocar em prática outra boa e velha máxima, “sonhe menos e realize mais”, afinal, é muito mais fácil culpar a época em que vivemos do que de fato aproveitá-la.

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Foto: Chris Burkard.

Quais são as principais frases saudosistas que escutamos?

“Woodstock devia ser irado, aquilo sim era festival de verdade.”

Quinhentas mil pessoas abaixo de chuva, muita lama, pouca comida e infraestrutura praticamente nula. Veja bem, não é uma crítica ao festival, e sim uma reflexão se você estaria disposto a passar um final de semana em péssimas condições por amor à música. Pense a respeito.

Experimente ir pelo menos uma vez na vida em festivais como Lollapalooza, SWU, Rock in Rio, eles estão acontecendo.

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“Naquela época as pessoas tinham mais liberdade.”

Nos anos 60 e 70, os únicos veículos de propagação de informações, além do teti a teti e dos livros (aliás, quantos livros você já leu este ano?), era a televisão e o rádio, entidades nem sempre imparciais, e de certa forma unidirecionais, ou seja, o espectador não tinha voz. Imagine ter que depender somente da rede Globo para disseminar ideias e notícias.

Sem contar o fato da ditadura militar assolar o país, que proibia o surf em diversas praias do Rio de Janeiro.

Com a internet e as redes sociais, espalhar novas ideias, novas soluções, é exponencialmente mais fácil. Além de mais liberdade, temos mais independência.

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Foto: Chris Burkard.

“Hoje em dia é tudo muito comercial, não se fazem mais bandas como antigamente.”

Depender apenas das rádios e televisão, de fato, vai fazer você vai ficar a mercê de muita porcaria. Experimente pesquisar bandas independentes, há muita coisa boa na internet sendo divulgada.

Se tratando de algumas lendárias bandas dos anos 60 e 70, como The Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, AC/DC, naturalmente nunca mais veremos nada igual ser lançado. Porém, todo eles (ao menos um dos integrantes), nos últimos 3 anos, já fizeram shows no Brasil.

Sem contar outras dezenas de artistas desta época que se apresentam anualmente no Brasil, basta ficar atento.

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Paul McCartney, Brasil, 2013. Fonte: uol.com.br

“Naquela época as pessoas surfavam com essência.”

Entre o final da década de 60, e o início da década de 70, realizar uma surf trip poderia ser uma grande aventura, vinculada à base de incógnitas e muitas dificuldades. Para realizar as previsões, ou você ligava para os pescadores perguntando a direção do vento e lincava esta informação a alguma tempestade para prever grandes ondulações, ou contava mesmo com a fé e a sorte para surfar um mar clássico.

Muitas praias ainda não tinham estradas asfaltadas ou sinalizações. No ponto de vista de um gaúcho, passar o final de semana na Praia do Rosa poderia ser inimaginável devida às longas horas de viagem. Hoje, com a duplicação da BR-101, em 4 horas já estamos em Garopaba e durante o caminho checamos a previsão das ondas em nossos smartphones.

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Foto: Chris Burkard.

“Naquela época, as pessoas aproveitavam mais a vida.”

Como aproveitar a vida?

Questão que resume toda esta série, um grande clichê que nos faz saudosistas e ao mesmo tempo comprova nossa similaridade com a juventude dos anos 60 e 70, pois, com toda certeza, eles se perguntavam o mesmo. Porém, o grande diferencial talvez seja esse: eles agiam.

Para a maioria, tal indagação é relativa, para o Surfari, não necessariamente nesta mesma ordem: viajar, surfar, crescer, explorar, fazer, conhecer, desbravar, evoluir.

Com a certeza de que muitos se identificam com esta série de verbos, podemos afirmar, apenas desta vez, que ‘naquela época’ tais atitudes aconteciam mais vezes, mas por que?

Justamente por causa daquelas ferramentas que tanto nos ajudam nos ‘dias de hoje’: Internet e redes sociais.

Uma faca de dois gumes.

Vivenciamos uma era de virtuais estilos de vida editáveis. Quer ser visto como um jogador de futebol? Coloque uma foto com a bola. Quer ser visto como um músico? Coloque uma foto com o violão. Quer ser visto como um surfista? Coloque uma foto com a prancha. É muito mais fácil postar uma foto no instagram e “parecer”, do que de fato, acordar às 6:30 da manhã em um dia de inverno e “ser”.

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Foto: Chris Burkard.

Liberdade de informação de um lado, alienação ao comodismo de outro. Na época em que estas fontes não existiam, muito menos celular, só havia uma forma de viver: botar a cara no mundo.

Não sabe por onde começar? Não se preocupe, estamos aqui para isso.

Moramos em um carro, vivemos em uma van, exploramos, saímos da internet e avançamos para o lado offline da vida, que é onde as coisas realmente acontecem, afinal, a época certa é agora, aceite o fato ou viva no passado.

Afinal de contas, a culpa é da época em que vivemos, ou das pessoas que nela vivem? Estamos com a faca e o queijo na mão.

Somos os hippies modernos.

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Foto: Chris Burkard.

Continua…

Leia Hippies Modernos I.

Texto: Cássio Cappellari 

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