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Surf de Competição: Um Jogo de Comadres

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Na semana passada se encerrou a sexta etapa do circuito mundial de surf, realizada em Lower Trestles, na Califórnia, e popularmente conhecida como a onda mais high performance do planeta. Mesmo com Kelly Slater não sendo o cavalo na dianteira da corrida neste ano, o resultado da etapa não foi nenhuma surpresa, com Slater vencendo o australiano Joel Parkinson em final disputada. A falta de surpresa se refere ao fato de que, além de aparentemente ter vindo de outro planeta e ser detentor de 11 títulos mundiais, Slater – que este ano completou 40 anos – venceu Trestles seis vezes. E a primeira dessas vitórias foi há 22 anos. Caso você não seja surfista ou não esteja acostumado a recordes esportivos, isso seria mais ou menos a mesma coisa que se a primeira vitória (de oito) do ciclista Lance Armstrong no Tour de France, atingida no ano de 2000, tivesse ocorrido em 1978*.

* O sistema de premiação do ciclismo é diferente do surf, portanto serve apenas de ilustração.

Mas vá lá, Slater é provavelmente um daqueles Super Humanos de Stan Lee e quase todo mundo já sabe disso. O assunto que eu realmente queria tratar não é sua longevidade e progressividade no surf, mas sobre o surf de competição em si. Apesar de não ser um foco do meu maior interesse, enquanto assistia uma bateria em que Slater trucidava um adversário, um amigo ao meu lado disse: “esse careca deve tá louco por estar surfando com um número 4 nas costas”; e também pensei que ele deveria estar mesmo. Essa cena me fez pensar no real motivo da competição.

Surf competitivo: jogo de comadres

Kelly Slater, que não é comadre de ninguém, foi coroado campeão do Lower Trestles Pro, 2012. Foto: Checkwood

Bem, sei que estamos prestes a entrar em terreno instável. O surf, afinal, é tão peculiar que dele sempre emergem questões subjetivas: “surf é um esporte?”, “surf pode ser julgado?”, “quem é o melhor surfista e o que define isso?”. Esses são apenas alguns dos intermináveis tópicos que podem transformar uma roda de amigos em uma trincheira de guerra. Na verdade, esse tema é novo quando comparado à história do surf como um todo. Se de um lado os polinésios surfavam há (ao menos) cinco séculos,  as competições começaram no início da década de 1960. E desde então sempre trouxeram muita polêmica e divisão de opiniões com elas.

Os californianos, e alguns australianos desgarrados, sempre foram os principais críticos em relação à profissionalização do esporte. Boicotes às competições eram frequentes e por veze a ira descambava para vandalismo e depredação de estruturas. O pessoal do norte da Califórnia, uma galera de caráter sério e mais avessa ao flower power e extravagância do surf colorido e competitivo do sul, era especialmente protecionista e em uma tentativa de organização de um campeonato em Steamer Lane, os locais de Santa Cruz acabaram jogando o palanque morro abaixo. Bem, fato é que durante muito tempo houve esse embate de ‘puristas’, que viam no surf uma expressão hedonista de arte, movimento e interação com a natureza, e os free riders, que eram (também) grandes surfistas e queriam ser pagos para fazer o que mais sabiam.

Assim, apesar das divergências, o profissionalismo foi avançando. Nada, nem ninguém a quem culpar. É a tendência natural de todos esportes, iniciar com os amadores, pessoas que fazem porque veem naquilo apenas prazer, depois alguém domina tanto a prática que outras pessoas o desafiam e, em seguida, um circuito se forma, carreiras são forjadas, patrocínio, fama e dinheiro naturalmente seguem o curso.

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Nat Young em estado mais alheio à competição. Austrália, 1972. Foto: John Witzig.

Acontece que o surf é peculiar. A grande maioria dos surfistas nunca quer deixar de ser cool, ninguém quer ser o cara que defende uma bandeira duvidosa. Então, durante esse desenvolvimento caras conhecidos – como Nat Young, Miki Dora, Mike Hynson, entre outros – criticavam os campeonatos em entrevistas e artigos de revistas, mas no final de semana estavam lá competindo e disputando ondas e pontos com fervor. E, assim, a cena competitiva foi crescendo, sempre evoluindo e lutando para obter uniformidade e imparcialidade ao julgar uma atividade em que o meio nunca oferece repetições, mas também tentando não perder o fator cool, para não forçar muito a barra com a galera.

Ok, e o que toda essa historinha tem a ver com o campeonato de Trestles vencido pelo Slater?

Bem, partindo do princípio de que ninguém é capaz de agradar todo mundo, minha sugestão é que se é pra fazer um circuito mundial, pagar os melhores caras e coloca-los para duelar… então faz o circo pegar fogo! No momento em que iniciou uma disputa, ninguém quer ver jogo de comadres. Coloca o rankeamento nas costas dos caras e faz eles desfilarem o orgulho de ser o primeiro ou o descontentamento em ser o vigésimo terceiro. Dá uma premiação mais gorda para o primeiro e desconta do segundo. Faz o cara que perdeu por combinação passar por baixo do palanque.

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O high five de Rob Machado e Kelly Slater custou a Machado um título mundial.

Há duas frases que acredito esclarecerem muito bem o resumo dessa história toda. O falecido campeão e ultra competitivo Andy Irons disse uma delas num filme sobre a história do Pipe Masters: (se referindo à saudação de Rob Machado e Kelly Slater na final que decidiria o título mundial de 1995) “você não cumprimenta o outro cara na bateria quando tem um título mundial em jogo, isso é estupidez!”. A outra é do jornalista americano Andrew Lewis e diz o seguinte: “se você não fica chateado quando perde, ou você não ligava o bastante ou você não vai melhorar da próxima vez. Ou ambos”.

Texto por Lucas Zuch.

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