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Significados do Surf: surf trip e rebeldia

Vamos falar daquilo que está enraizado no imaginário dos surfistas, uma prática que ainda hoje traz ares míticos ao esporte, além da imagem de rebeldia e do espírito de aventura que definem o surf.

Photograph by © LeRoy Grannis.

O verbo “buscar” ou o slogan “live the search” sintetizam bem um aspecto próprio do estilo de vida (ou life style) surf; a procura por novos lugares, ondas e experiências. A surf trip ou o surf safári fazem parte do espírito nômade e desapegado dos primeiros surfistas. Nos tempos modernos, passaram a se confundir com um tipo de consumo desprovido de sentidos ou significados, mas isto vamos falar mais adiante.

Os primeiros surfistas foram os inventores, não só da prática do surf, mas da ideia de se locomover; a busca por paraísos para viver calmamente. A principal teoria sobre a disseminação do povo polinésio por milhares de ilhas do Pacífico é de que eles se fixavam em um local e, tempos depois, quando a população crescia, organizavam expedições para novos horizontes. Eram os “Argonautas do Pacífico”. Muitas vezes saíam dezenas ou centenas de pessoas embarcadas em canoas seguindo as correntes e desembarcando em novas ilhas inóspitas, ou acabando em trágicos naufrágios. Este impulso incansável de gerações garantiu, não apenas a ocupação de lugares incrivelmente distantes, mas evitou o superpovoamento e outras mazelas, como falta de comida ou guerras entre povos irmãos.

Imagem retirada do site Wanna Surf.

Quando o surf chegou aos EUA, o esporte se desenvolveu lentamente nas primeiras décadas e seu significado se fundiu a cultura emergente. Imaginem só, um país em franco crescimento econômico e uma cultura que vinha influenciando o mundo todo com o famoso american way of life. Em contraste ao orgulho norte americano, um bando de moleques da Califórnia cultuavam um esporte e costumes de um povo dado como primitivo, preguiçoso e insolente. A filosofia e o estilo de vida dos nativos havaianos eram diferentes daquela vendida no rádio, nas revistas e, posteriormente, na televisão. Nascia a imagem de rebeldia do surfista, uma mistura entre o ideal de vida dos povos tradicionais com ingredientes ocidentais.

Durante a década de 30, quando o surf ainda era um esporte exótico praticado por poucos,  iniciou-se uma busca por ondas na costa norte americana, imortalizada décadas depois com a música dos Beach Boys, Surfin’ Safari. Nesta época houve a grande crise mundial e vida se tornou dura por toda a parte, exceto nas praias da Califórnia, onde qualquer um podia construir uma prancha com as próprias mãos e se divertir surfando ou em festas na praia, sem precisar de muito dinheiro para isto.

As viagens dos surfistas, ou a busca por lugares isolados e com boas ondas, não deixam de ser uma fuga da civilização, uma volta à natureza selvagem, fora das convenções modernas, consumismo, massificação, conservadorismo e senso comum. A rebeldia do surfista era contra uma cultura padronizada; a insolência, era  uma lógica inversa ao consumismo, por uma vida simples, em comunidade, junto ao mar. Estaríamos procurando o paraíso perdido ou locais para surfar e viver de modo próprio? O que mudou?

Nos anos 50, com a construção da Pacifc Coast Highway, surfistas passaram a viver de forma semelhante aos contemporâneos da geração Beat, viajando sem destino certo, vivendo de trabalhos temporários, em busca de novos spots de surf e uma vida livre das regras rígidas da época. Moravam em choupanas ou casas abandonadas, muitas vezes viajavam para praias isoladas e viviam dentro de carros velhos durante meses, sempre entre amigos ou com suas garotas, contrariando os ideais de fixar residência, casar, arrumar trabalho e constituir família. Finalmente, nos anos 60 o esporte se profissionalizou, muita coisa melhorou, mas o surf também se enquadrou em muitos padrões, passou a vender seu apelo visual, seus conceitos e se tornou um mercado de consumo. Eu te pergunto: em meio aos ganhos, algo ficou para traz?

Uma coisa é certa, nossa imagem de aventureiro e estilo de vida easy going vendem bem, de carro a chinelos de dedo. Para isto acontecer, a rebeldia do surfista deixou de ser contestação e as surf trips estão mais para uma visita à parques de diversão. Temos muito à refletir.

Por Guilherme Pallerosi.
Para ler outras matérias do autor acesse MADEIRA & ÁGUA

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