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Significados do Surf (pt.3): Lifestyle.

Foto: Jeff Divine

Você já se perguntou qual é o seu lifestyle? O que define o estilo de vida? Em grande parte, é o resultado de como lidamos com as situações, por mais difícil que possa ser a vida de alguém, sempre existem escolhas.

Vou contar um causo. Um dia, um iguana de Galápagos se viu em uma situação difícil, numa ilhota abarrotada de outros iguanas. Além da gramínea cada vez mais escassa, este indivíduo tomou gosto pelas algas trazidas pelas ondas e passou a se alimentar de forma alternativa. Tempos depois, arriscou-se entre as pedras para comer algas frescas e enfim aprendeu a nadar. Hoje, continua iguana, mas vive de forma completamente diferente dos irmãos terrestres. Estilo de vida é a forma como você vê o mundo, se comporta e vive nele.

O estilo de vida, ou lifestyle do surf tem uma história que envolve valores e preferências de certas pessoas. Muitos sujeitos contribuíram com o desenvolvimento do esporte, mas destilando suas histórias, vemos uma essência que podemos definir como o Lifestyle Surf. E porque não tentar definir o estilo de vida do surfe por suas figuras mitológicas?

Respeito ao mar – Os primeiros surfistas havaianos e polinésios viviam em ilhas com fauna e flora ricas, mas a maior abundancia vinha do oceano, e por isto este povo se tornou mestre em tudo o que se refere ao mar. Um dos primeiros surfistas ocidentais era filho de um norte-americano com uma nativa havaiana e se tornou um dos fundadores do corpo de salva-vidas dos EUA. George Frenth nasceu em 1880 no Havaí, e era um esportista náutico e aquático completo, envolvido em competições de natação, navegação em canoas, além do surfe. As habilidades e disposição para enfrentar o mar em várias atividades marcaram as origens do esporte, com o espírito do povo polinésio, um misto de bravura e respeito ao mar.

Tom Blake e Duke

Busca por novas ondas e experiências – O legendário Duke Kahanamoku seguiu esta tradição e a expandiu. Depois de ganhar medalha de ouro em natação nas Olimpíadas de 1920, passou a viajar demonstrando o surfe pelos EUA, Austrália, Africa do Sul entre outros lugares do globo. Duke pode ser considerado o primeiro surfista profissional, ou free surfer, patrocinado para divulgar a cultura e o destino de férias havaiano. Além do surf, Duke “tirou onda” como ator em todo tipo de filmes de Hollywood que tivesse algum nativo no enredo, atuando como índio apache, samurai ou esquimó. Estereótipos a parte, é importande dizer que Duke semeou o surf mundo afora, com sua tábua havaiana, descendo ondas desconhecidas, estabeleceu uma meta que se mantém entre todos os surfistas: a surf trip.

Tom Blake

Desprendimento e criatividade – Tom Blake foi a ponte entre o surf ancestral havaiano e o surf moderno ocidental, tanto por seus feitos como pela personalidade. Blake ficou conhecido principalmente por seu empreendedorismo e inventividade, revolucionando as pranchas de surf, tornando-as mais leves e manobráveis, com as hollow boards (prancha de madeira com estrutura oca) e as primeiras quilhas. Sem medo de mudanças, este surfista dos primórdios inaugurou um estilo de vida, buscando ganhar a vida com o surf em um tempo que o esporte era considerado uma brincadeira excêntrica. Para isto, começou sua carreira como atleta, depois salva-vidas, dublê em filmes de ação e finalmente, mudou-se para o Havaí e lançou modas no arquipélago com o vegetarianismo e um estilo de vestir bastante despojado, sempre cultuando uma vida simples.

LeRoy Grannis

Vida apaixonada – LeRoy Grannis foi um surfista e o grande fotografo do esporte. Nascido em 1917 em Hermosa Beach, pertenceu a uma geração que surfava em pranchas de madeira construídas manualmente. Grannis viveu um período de muitas mudanças e transições, entre guerras mundiais e crises econômicas, trabalhou como carpinteiro, militar, instrutor de lutas, até se transformar em fotografo por volta dos anos 60, quando já era um cara maduro. No surf viveu outra transição, das pranchas de madeira para o poliuretano, captou uma revolução na cultura, no design e no esporte, com lindas imagens das décadas de 1960 e 1970. O mito da fotografia e do esporte viveu intensamente até os 94 anos, alguns dizem que graças a água salgada que corria nas veias.

Bob Simmons. Década de 1940 (aproximado).

Perseverança e ousadia – Parece piegas, mas é assim que eu vejo o pai das pranchas de surf modernas, Bob Simmons. Ele ficou famoso por construir pranchas usando madeira, isopor e resina epoxy, a ancestral mais próxima das pranchinhas modernas. Porém, muito mais do que disto, Simmons ficou conhecido durante os anos 40 por ser grande surfista, que desbravou muitas ondas nos EUA, viajando em um Ford velho e morando em praias desertas. Neste sentido expressou a busca incessante dos surfistas em melhorar a performance e encontrar as melhores condições de ondas. Morreu afogado em um grande swell, na época que não existiam cordinhas que prendiam as pranchas ao pé. Muito style.

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George Greenough. Década de 1960.

Simplicidade e vanguarda – Outro sujeito responsável pelas manobras radicais do surf moderno é o surfista, cinegrafista e designer, George Greenough. Durante a década de 60, Greenough surfava com pranchões, kneeboardsbodyboards e boias infláveis, isto mesmo, o sujeito gostava de descer ondas e inventar suas próprias pranchas e acessórios. Uma de suas maiores metas era entrar e sair de dentro de um tubo com facilidade, coisa rara de se fazer na época. Inspirado na barbatana do atum desenvolveu uma quilha que radicalizou o esporte. Apesar de ser um símbolo da inovação e da vanguarda, o cara é um exemplo de simplicidade, mora ainda hoje em Byron Bay (AUS) e diz a lenda que o cara pode passar anos sem calçar um sapato. É um dos maiores representantes do estilo de vida surf-hippie. Afinal, para surfar e inventar coisas novas não é necessário nenhuma formalidade.

Gerry Lopes. Década de 1970.

Adrenalina e equilíbrio – Poderíamos ficar longamente falando de muitos sujeitos, surfistas profissionais, shapers, fotógrafos e outros amantes do esporte que representam o estilo de vida do surf, mas Gerry Lopes é uma síntese do assunto. O havaiano nascido em 1948 ficou conhecido por desbravar todos os secret points do Havaí, e tantos outros mundo a fora. Nos anos 60, Pipeline Banzai, no Havaí, era uma onda praticamente impossível de surfar em dias clássicos, quando Gerry e uma turma de peso se mudaram para North Shore e fizeram história. Além de desenvolver pranchas adequadas àquelas condições (as Guns), Lopes ficou conhecido por ter um estilo calmo, mas extremamente radical. O sujeito parece um mestre shaolin do surf, ou um monge budista, equilibrado e sorridente, mas é um dos melhores e mais ousados surfistas da história.

 O estilo de vida do surf não parece tão evidente quanto a identidade visual do surfista. Este é um esporte que se reconstrói constantemente, mas mantém valores antigos. Somos os iguanas do mar, mesmo que vivendo em terra.

 

Texto de Guilherme Pallerosi.

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