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Significados do Surf (pt. 2): a identidade visual.

Qual é a identidade visual do surf?

A imagem do surf é complexa demais para definições simples, mas um exercício de entender os seus apelos é muito bom para conhecer um pouco do que o esporte representa hoje. Alguém já disse antes que uma imagem vale por mil palavras, pois um esporte tão antigo possui uma infinidade de significados. Uma imagem pode expressar muita coisa, mas os significados do surf somos nós quem damos. Pensar em tudo isto ajuda a gente entender a época em que estamos e os valores em voga.

Photo by Leroy Grannis. Finalistas do Duke Classic, 1969.

 Para onde a imagem do surf te remete?

Imagine uma descrição do paraíso na Terra, um cenário da vida no Éden. Eu diria uma ilha tropical, com natureza intocada, muito sol, pouca roupa e tempo livre para relaxar e surfar. Talvez a sua imagem destoe um pouco da minha, mas a descrição convencional do paraíso terrestre é a mesma de Colombo sobre a América caribenha, ou dos primeiros europeus que chegaram às ilhas polinésias, na expedição do capitão James Cook no século 18. Especialmente no Havaí, os relatos falam de belíssimas paisagens, lindas mulheres, povo amistoso, sexualidade inocente e sem repressão, além de muito surf e outras emoções vindas do mar.

As cenas que os europeus encontraram nos trópicos, ficaram no imaginário da civilização moderna, ultrapassaram séculos e moldam-se aos nossos dias. O surfe ainda contém muitos apelos daqueles lugares e da vida nativa.

Tahiti

Tanto na vida dos antigos polinésios, como dos surfistas modernos, existe uma grande dose de contemplação da natureza, um estilo costeiro de vida comandado pelas marés e pelo swell. Mas por outro lado, estas origens também representam outro extremo, a aventura, o desafio à natureza selvagem; adrenalina, endorfina e juventude. Na verdade tudo coexiste no universo do surfe, mas as imagens muitas vezes podem parecer ambíguas: contemplação, simplicidade X aventura, emoção.

Photograph by © LeRoy Grannis. All rights reserved.

E não para por aí, o estilo de vida dos surfistas inaugurou uma estética ao longo do século XX que também tem forte relação com o passado polinésio. A relação com o corpo é marcante na construção da imagem do surf, uma liberdade contestadora e inocente.

Surfe, Moda e Imagem: sensualidade, beleza, inocência e pouco pano.
Foto: Nicole Buzzell

O short sem camisa dos caras e o pouco pano do biquíni das meninas chocavam muitas gerações, mas depois viravam tendência da moda. Depois dos anos 60 e 70, a indústria da moda viu um grande potencial e se apropriou deste estilo sensual e arrojado. Hoje é um mercado consolidado e com muitos adeptos, dos quais grande parte nunca surfou na vida.

Campanha Chanel com apelo surf para não surfistas.

Em paralelo à moda, as pranchas de surf foram se transformando, sem uma intenção estética, mas com intuito de descer ondas maiores e permitir manobras mais ousadas. Esta evolução preconizada por shapers profissionais entraram para vanguarda no design. Inspiradas em peixes, navios, veleiros, aviões de guerra e outras formas do desenho industrial, as pranchas de surf possuem o apelo moderno e sexy dos carros esportivos. O design estético e funcional das pranchas passa uma ideia de beleza e sofisticação.

Campanha Osklen verão 2012.
Imagens do surf relacionadas ao design arrojado

A busca do surfe por um estilo de vida alternativo também rendeu imagens com diferentes conotações. A tribo da praia que contesta o mainstream deu origem a outras tribos urbanas e o surf com um apelo muito semelhante ao do Rock: a rebeldia. Mas no caso do surf a rebeldia é mais pacífica e menos ideológica, se manifesta como insolência, isto é, ignora certas regras e valores que não concorda. Esta posição apolítica dos surfistas também rendeu o estereótipo de alienado e bon vivant, para não dizer vagabundo.

Photo by Pete Bounds, 1971.
Rebeldes, alienados ou insolentes?

A imagem negativa vem mudando depois que emergiram outros valores no final do século XX, como o ambientalismo, a sustentabilidade, a harmonia com a natureza, a prática de esportes radicais, etc. O surfista é visto como um sujeito convencional que trabalha, estuda e consome, mas cultiva um estilo de vida alternativo, mas com hábitos saudáveis.

O mundo gira, os apelos mudam e o mercado se apropria das imagens de acordo com a conveniência. Mas muitos dos significados dados ao surf estão enraizados em valores antigos, visões de mundo que em um momento são tendência e em outros perdem o apelo. O surf, muito além da imagem e do mercado, permanece como uma cultura beira-mar, independente e autêntica.

MADEIRA & ÁGUA

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