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Sexismo no Marketing de Surf Feminino

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Assuntos polêmicos. Acho que nunca chegará o dia em que estaremos prontos, como sociedade, para tratar temas polêmicos sem medo, dúvida ou com a sensação de estar pisando em ovos. Triste constatação, mas o ‘despir-se de pré-conceitos’ é algo atingido apenas por seres elevadíssimos, resultado de muito esforço, desprendimento e autoconhecimento. É algo que dá trabalho.

E por que dar mais trabalho ao nosso cérebro que já vive estressado e sobrecarregado? Por que não só aceitar que o mundo é assim mesmo e relaxar? Por que? Mesmo aprendendo na escola que “Porque não, não é resposta”, uso a frase para colocar resposta-pergunta: Por que não?!

Por mais trabalho que isso me dê, considero-me um eterno otimista. Otimista, não ingênuo. Sei que, se queremos sair da inércia e pensar em como resolver os problemas que temos como sociedade é preciso afastar-se ao máximo da nossa zona de conforto. Não fui eu quem disse isso, acredito que tenha sido Willian, o Shakespeare: ‘A segurança é o maior inimigo do homem’.

Tudo que o cérebro quer é segurança.

Pois bem, não dê isso a ele.

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Fonte: www.zazzle.com.br

Foi tentando me esquivar da segurança que sugeri que fizéssemos um debate sobre o marketing sexista que a indústria do surf utiliza ao promover as atletas e os produtos femininos. Antes de trazer as minhas impressões, meus pré-conceitos e minha história para esse texto, quis ouvir o que as próprias surfistas tinham a dizer. Mas eu tinha que expor a minha visão também, senão não estaria ampliando a minha zona de conforto.

Vamos começar esse desafio com um flashback. Você já ouviu falar em Margo Oberg e Freida Zamba?

Não é muito provável que, mesmo elas tendo pavimentado o caminho para que hoje as surfistas desfrutem de um circuito expressivo e de patrocínios relevantes, você tenha ouvido falar muito sobre Margo e Freida. Não, não culpe a ausência de internet na época delas, foi a falta de uma indústria focando no surf feminino que as fez permanecer à margem da parte glamourosa da história do surf. Podia-se contar nos dedos o número de surfistas mulheres nas décadas de 50, 60, 70, até 80. Embora tenham conquistado juntas 7 títulos mundiais, a influência que Oberg e Zamba exerceram no surf feminino da época não extrapolou muito a esfera de suas praias locais. Exemplificando em termos claros, o circuito masculino de surf em 1980 contava com 11 etapas que distribuíam um total de U$ 239.000 em premiação. No mesmo ano, o circuito feminino consistia em 2 eventos e uma premiação total de U$ 10.000. A primeira mulher a estampar a capa da revista Surfer, Linda Merrill em 1964, conseguiu o feito sob a seguinte justificativa do editor John Severson: “Nós finalmente desistimos”.

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Primeira capa da revista Surfer a estampar uma mulher, 1964. Fonte: SurfResearch

Então, eis que em 1993 surgem um produto e uma pessoa que iriam alterar para sempre o curso da história do surf feminino. A Roxy, braço da gigante Quiksilver voltado para as mulheres, lança um produto que viria a se tornar lendário, o “boardshort” feminino. Com o sucesso avassalador da peça, resultante de uma operação que havia começado timidamente poucos anos antes, a Roxy se torna a principal embaixadora das surfistas mulheres. A personagem escolhida para carregar essa bandeira é a graciosa Lisa Andersen. Numa excepcional combinação de sensualidade, agressividade, estilo e personalidade, Andersen se torna a principal surfista do mundo, colecionando títulos mundiais, editoriais em revistas, fama, sucesso e dinheiro. A ligação entre a Roxy e Lisa demonstra perfeitamente a simbiose que criaria o conceito e o modo como seria feito o marketing de surf feminino daquele momento até o presente. Longilíneas, loiras e graciosas modelos-surfistas se tornariam as representantes das marcas, construindo um estrondoso case de sucesso.

É importante esclarecer o quão bem sucedida foi (e ainda é) essa estratégia a partir de algumas informações. Sabe-se que apenas 10% dos consumidores de produtos ligados à indústria do surf realmente pegam onda, esse é um dado geral, não faz distinção entre homens e mulheres. Porém, há um outro dado indicando que as linhas femininas representam 50% das vendas globais de surfwear (o carro chefe no faturamento de todas as marcas de surf). Olhe para os lados no line up da próxima vez que for pegar onda e conte quantas garotas você vê na água. Com essa simples conferência de números notamos que a indústria do surf feminino funciona (muito mais do que a masculina) na esfera aspiracional.

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Lisa Andersen desfilando estilo. Fonte: Pinterest.

Assim chegamos ao ponto nevrálgico da questão. É positivo (ou negativo) o uso da sexualidade na promoção do surf feminino? Receio que a minha divisão interna de pensamentos seja partilhada pela maioria dos leitores.

Por um lado, observamos que o movimento encabeçado pela Roxy, trouxe junto a Billabong, Rip Curl, Nike e outras, o que, por consequência, elevou o investimento em atletas e campeonatos. Isso faz com que sejam criadas ídolos (gostaria de usar a palavra ídolas, mas fui prontamente lembrado pelo corretor ortográfico que ela não existe em nosso léxico), que por sua vez influenciam milhares de garotas a quererem realmente viver o surf, entrar na água e pegar ondas.

Por outro lado, isso cria um estereótipo muito estreito e difícil de ser alcançado, replicado e superado. Pense em atletas como Pauline Menczer, Tita Tavares, Melanie Barthels e Silvana Lima. A ilustre “desconhecida” Pauline Menczer é a campeã mundial de 1993, feito que ela atingiu sem um patrocinador expressivo e que no ano seguinte ao título ouviu de diversas empresas: “Nós não vamos te patrocinar porque você não tem a aparência que procuramos.”

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Tita Tavares, uma das surfistas mais progressivas dos anos 90. A falta de apoios expressivos durante a carreira a fez ter de pedir ajuda financeira para um tratamento médico. Fonte: CearaSurf

Talvez você esteja se perguntando como eu cheguei até aqui sem falar sobre Layne Beachley. Pois é, ao construir essa narrativa pensando na ligação entre surf e marketing, a 7x campeã mundial não foi citada uma vez sequer. Mesmo colocando a californiana Lisa Andersen na bolsa, em termos de performance, Layne não chega nem perto da loira em relação ao apelo comercial e aspiracional. Pode ser por isso que, em 2007, ao atingir o ápice de sua carreira, Layne comentou: “Em uma próxima vida eu gostaria de ser sete vezes campeã mundial e ter um pênis, pois a vida seria bem mais fácil”.

Como observador, acho que o surf feminino está, com muito esforço, chegando a um patamar bem promissor, tanto em termos de mercado, quanto de performance. Um bom exemplo disso é ver uma atleta como Carissa Moore, que tem um ‘apelo visual’ infinitamente inferior às Alanas e Lauras, ser coroada campeã mundial contando apenas com a qualidade de seu surf. Eu, pessoalmente, acho a Alana Blanchard, a Stephanie Gilmore, a Maya Gabeira muito sexys e competentes; elas agradam o olhar por vários motivos. O problema é que não vejo a abordagem sexual dando o devido retorno para o esporte. Em 2013, o circuito feminino conta com 8 etapas e U$ 900.000 em premiação. Se você pensar na diferença desde 1980, o crescimento foi enorme, porém, se comparar com o circuito masculino de 2013 que conta com 10 eventos e premiação total de U$ 4.550.000 terá noção do abismo que separam os gêneros.

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Maya Gabeira, com muita atitude, em Teahupoo. Fonte: Red Bull.

Como um bom otimista, prefiro pensar que o surf feminino já evoluiu muito em relação ao seu passado e que o futuro reserva coisas ainda melhores. É ingenuidade achar que a maioria das atletas não gosta dessa abordagem, acredito que elas adoram, isso infla egos (e também bolsos). Seria o mesmo que concluir que atletas da elite odeiam a etapa do Rio de Janeiro por causa dos inconstantes beachbreaks. Ledo engano, eles e elas preferem a possibilidade de dar aéreos, pegar uns tubos (mesmo que fechando) e, de quebra, conhecer o Cristo e cair na noitada.

Então, é preciso cuidado para que a indústria do surf feminino (e nós como consumidores) estimulemos a performance e o estilo de vida saudável, não apenas uma linha de biquínis cada vez menor.

 

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Instagram de Alana Blanchard, a surfista-modelo tem mais seguidores do que o unodecacampeão mundial Kelly Slater, apenas para fazer uma comparação.

Texto e pesquisa por Lucas Zuch.

Referências:

The Encyclopedia of Surfing, de Matt Warshaw.

http://www.aspworldtour.com

http://www.surfline.com/surfing-a-to-z/

http://www.coastalwatch.com/news/article.aspx?articleId=275&cateId=3&leftnav=0

Visão feminina sobre o tema:

Roxy Pro Biarritz, Polêmica no Surf Feminino

Carla Borella

Lauren Ferreira

 

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