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Sandy e a teoria do caos

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Caos.

Há uma grande diferença entre a teoria e a realidade.

Quando o que diz a teoria se revela na prática, ocorre a transformação. A célebre frase, “o bater de asas de uma borboleta pode causar uma tormenta do outro lado do mundo”, é só uma sequência de palavras. Até que o vento seja sentido.

É provável que uma ou milhões de borboletas bateram asas no oriente há alguns dias, mas, se foi isso que formou a Supertempestade Sandy, pouco importa. Afinal, provavelmente nunca conseguiremos visualizar como o acaso transforma nossas vidas até que o mar invada sua casa ou que você esbarre na futura amada atravessando a rua.

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Nova York prestes a sentir a chegada do Furacão Sandy. Foto: Eduardo Munoz/Reuters.

O pandemônio causado por uma tempestade já havia sido mundialmente alardeado na ocorrência do Furacão Katrina, em 2005, que sitiou a cidade de New Orleans, na Louisiana, Estados Unidos. A costa leste americana – à exceção de New Orleans, que fica abaixo do nível do mar e rodeada por lagos, e algumas poucas cidades costeiras com infraestrutura menos desenvolvida – é, em geral, preparada para a temporada de furacões. Essa é sempre a impressão, até que a natureza nos prova enganados.

O que aconteceu entre os dias 29 e 30 de outubro ficará para sempre marcado na existência das pessoas que estavam presentes nas áreas atingidas, e até para quem não estava. Assim como ocorrera no tsunami do Japão. O caos havia sido instaurado.

Casas, carros, barcos, ruas e pessoas varridas pela água e pelo vento. Falta de energia e aquecimento, falta de comida, falta de dinheiro, falta de roupas, falta de abrigo. Pessoas isoladas em suas casas ou cidades sem a ajuda da Guarda Nacional, Cruz Vermelha ou da FEMA (agência americana que controla situações de emergência). Acontecimentos dessa magnitude em países desenvolvidos nos deixam questionando o que aconteceria com uma nação sem infraestrutura adequada.

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Outer Banks, Carolina do Norte, sentido o Furacão Sandy. Foto: Kurt Kessler.

Simultaneamente, em outras partes da costa leste americana, tubos, rasgadas, aéreos e mais tubos. Sol, ondas, sorrisos, gargalhadas, gente alegre, bonita e bronzeada. Ondas tem sua formação iniciada por tempestades de vento em alto mar, e Sandy proporcionou essas condições como nenhuma outra tempestade. As fotos e os depoimentos que inundam a rede digital não mentem, algumas praias receberam as melhores condições da história.

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O Furacão Sandy se mostrou muito mais amigável na Flórida. Foto: Gnargasm.

Como diversos assuntos polêmicos que sempre estiveram ligados ao surf, essa questão levanta uma certa discussão moral para algumas pessoas.

Percepções. Formadas considerando valores éticos, pessoais e culturais, as percepções são como uma impressão digital.

Únicas. O ditado ‘cada cabeça uma sentença’ vem à mente. Não faltaram julgamentos aos surfistas que, literalmente, dançavam durante o funeral de compatriotas.

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Cory Lopez, Pumphouse, Flórida. Condições de surf como esta foram vistas pela primeira vez em alguns locais. Foto: Tony Arruza.

Surfistas sempre foram mestres em fazer de um limão uma limonada, é inegável. Antes deles, o oceano servia apenas para viabilizar deslocamentos e comércio e prover alimento. Surfistas foram as primeiras pessoas (à exceção de velejadores) a entrar no mar para se divertir, aproveitar as condições que a natureza oferecia sem cobrar nada.

Ainda assim, vendo as fotos da destruição e sabendo que mais de 100 pessoas (provavelmente muito mais, pois a contagem segue subindo) morreram em decorrência da tormenta, é difícil não pensar na paradoxal morbidez da situação. Sorrisos e lágrimas dividindo alguns dias em locais muito próximos.

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Um exemplo visual que o Furacão Sandy provocou para surfistas e moradores. Foto: Jason Hudson.

Bem, quem está certo e quem está errado? Todos e ninguém. Depende do modo como se encara a vida. Todos os dias acontecem coisas horríveis no mundo e muitas lágrimas de dor são derramadas. Ao mesmo tempo, novos amores estão aflorando, filhos estão nascendo e lágrimas de alegria também caem aos litros. O luto e a tristeza fazem parte de nossos sentimentos e nunca devem ser ignorados, mas ao perder alguém próximo (ou distante, como nesse caso) a ocasião lhe mostra que por mais brutal que a ideia possa parecer, a vida segue. O sol nasce no dia seguinte, as horas passam, pessoas continuam rindo e outras chorando, indiferentes e ignorantes à nossa dor.

O site americano Surfline fez um editorial exibindo a perspectiva de 5 surfistas de diferentes partes da costa leste, que receberam a chegada de Sandy de maneiras bastante distintas. Acredito que o local de Outer Banks, na Carolina do Norte, Brett Barley tenha tido a visão mais distante e contemplativa sobre a situação. “Ninguém deveria sentir raiva de quem pegou boas ondas na Flórida. Em algum momento, todos nós já nos demos bem enquanto outro lugar estava sendo destruído, por isso não é justo ficar chateado com aqueles que não estão passando dificuldade nesse momento porque outras pessoas estão”, disse Barley.

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O surfista local Brett Barley conferindo os estragos causados por Sandy. Outer Banks, Carolina do Norte. Foto: Daniel Pullen.

No fim das contas, às vezes ficamos muito preocupados com a maneira que deveríamos encarar o mundo e como nos comportar frente a diferentes situações. Esquecemos que apenas nós mesmos sabemos o peso carregado em nossos ombros. Não se trata de egoísmo, se trata de percepção. E acaso. Não esqueça do acaso.

Algumas formas de ajudar:

wavesforwater.org
redcross.org
nybloodcenter.org
foodbankmoc.org


Texto: Lucas Zuch.

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