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Rafaski: o fotógrafo que substituiu o Drop.

Aos onze anos, Rafael Calsinski Assis, ganhou a sua primeira prancha. Aos trinta e um anos de idade, o Rafaski, passou a enxergar as ondulações pela ótica de um fotógrafo. Talvez, essa não seja uma história singular, mas ser um fotógrafo de surf parece ser tão bom quanto um surfista profissional. Pelo menos, é o que o Rafaski pensa.

Formado em desenho industrial com especialização em design gráfico, o paulista, oriundo de Santos, precisou de uma mão fraturada para mesclar trabalho e emprego. Como assim? Mesclar Trabalho e emprego? Bem, aparentemente essas duas palavras são sinônimos, mas para aqueles inundados por questões filosóficas, esses substantivos podem se tornar antagônicos.

Calsinski Assis, o  Rafaski, uniu a fonte de vida com a fonte de renda e conseguiu conceber a sua profissão: fotógrafo de surf. Sendo, que para ele, o seu exercício profissional se tornou tão intenso que a cada registro momentâneo de uma uma onda ou surfista é comparável com a sensação de ficar em pé em uma ladeira de movimentos rápidos.

RAFASKI profile from RAFASKI videos on Vimeo.

A fotografia entrou na sua vida de que forma? Onde surgiu o seu interesse em trabalhar como fotógrafo?

Meu interesse em fotografia surgiu durante alguns cursos de tratamento de imagem que realizei durante a faculdade. Logo vi que gostava de trabalhar com fotos. Morei na Capital durante oito anos, trabalhando e estudando. No fim do ano de 2008 fraturei a mão (surfando), e tive que ficar afastado do trabalho durante três meses. Foi o tempo que eu precisava para tentar unir minhas duas paixões, o surf e fotografia.

Eu não conseguia ficar mais de uma semana fora do mar, mesmo quando não havia onda, eu ia surfar com meus amigos. A única coisa que me afastou de surfar foi a fotografia, um dia eu percebi que não surfava há mais de um mês e não sentia falta. Alguns amigos me perguntam como eu consigo ver as ondas perfeitas nas viagens e não sentir vontade de surfar. Relato que capturar o momento certo, principalmente dentro d’água, é como acertar aquela manobra que você tem dificuldade. Um dia eu percebi que eu acertava muito mais com a câmera na mão do quê com a prancha no pé (risos).

Em um, dois, três… Revele os segredos das fotografias que fizerem as capas da TSJB E HARDCORE!

Primeiro vou contar sobre a capa da revista Hardcore, revista que sempre terei um carinho especial por me projetar no mercado.

Estive em Maresias com dois grandes amigos, o Alexandre Wolthers e o surfista da capa Junior Faria. No primeiro dia realizei algumas fotos com flash, mas sabíamos que o melhor estava por chegar. Na manhã seguinte, acordamos cedo, e o vento já se apresentava terral. Contudo, as ondas ainda não estavam tão encaixadas na bancada, por causa a maré.

Passamos a manhã toda dentro d’água, mas foi na segunda sessão que o mar começou a melhorar. Estávamos bem próximos ao Canto do Moreira (canto direito da praia), e as ondas estavam muito pesadas. Fotografei dias de ondas maiores nesse pico, mas não me lembro de ter visto tão raso e tubular como naquele momento.

O surfista Junior Farias, estava na água há um bom tempo e não estava muito contente com o crowd do local onde estávamos. Fomos um pouco mais para o canto direito da praia, tentando fugir da galera e no momento do deslocamento, a onda apareceu! Farias estava bem posicionado e não houve erro, deslizando em pé por dentro do tubo. Outro detalhe que também torna essa foto especial é o sol descendo por trás do morro. Quem fotografa fim de tarde em Maresias sabe a dificuldade de ficar contra luz, e depois que o sol se esconde a nossa brincadeira só continua se utilizar um flash.

A capa da revista The Surfer’s Journal Brasil também é uma foto que gosto muito. Era um dia de ondas pequenas para os padrões havaianos e eu estava fotografando em Off the Wall. Quando vi os surfistas Alex Knost e Ellis Ericson chegando à praia com um quiver de monoquilas já ajustei minha câmera para fazer fotos em baixa velocidade.

Na maioria do meu tempo, registro surfistas de alto desempenho com o objetivo de congelar o momento, mantendo tudo em foco. Aquele dia foi a oportunidade de tentar algo diferente, sabendo que esses surfistas correm as ondas de uma maneira diferente. Ellis Ericson tornou uma onda aparentemente comum em um momento único. Além disso, o que acrescenta um tom especial a fotografia, é o fato de não ser visível nenhuma logotipo ou logomarca na bermuda e prancha do atleta, tornando a foto atemporal.

Em sua visão, quais são as dificuldades de ser um fotógrafo de surf? Sendo um fotógrafo brasileiro.

Eu procuro ver as dificuldades sempre de forma otimista. Acredito que todas as profissões têm seus problemas. Porém, as dificuldades de ser autônomo vão além de ser brasileiro ou fotógrafo de surf. É muito difícil fazer um planejamento sem saber quantos trabalhos você vai fechar no mês.

A solução pra esse problema é cuidar da sua empresa dia após dia, sempre trabalhando e buscando novas oportunidades e parcerias. Isto é uma tarefa complicada, se você não gosta do que faz, mas eu não vejo problema em acordar cinco horas da manhã, entrar na água fria, e ficar tomando onda na cabeça. É muito mais difícil acordar às nove da manhã pra fazer uma tarefa que você não gosta e sempre tentar buscar entender porque está fazendo aquilo.

Uma vez, ouvi em uma palestra de um filósofo brasileiro, chamado Mario Sérgio Cortella, que o emprego é fonte de renda e o trabalho é fonte de vida. O meu objetivo foi buscar uma profissão no qual eu tivesse emprego e trabalho. Encontrei isso fotografando surf.

Você acredita que a fotografia voltada para o surf é valorizada no Brasil?

Eu gostaria que fosse mais valorizada, mas para que essa valorização aconteça é importante que os próprios fotógrafos se valorizem. Contudo, isso não é nenhuma novidade.

Muitas pessoas que estão no mercado não possuem a ideia de quanto gastamos com equipamento, seguro e manutenção. Sem contar os cursos e horas no computador editando o material. Os que fotografam dentro d’água ainda correm risco de se machucar ou até mesmo afogar câmeras e lentes. Fica difícil definir um valor padrão, pois nem todos investem o mesmo valor em equipamentos, estudos e etc. Como consequências também não produzem material com a mesma qualidade.

Para mim, o que se torna estranho, é o fato de todo ano haver reajustes de salários, na maioria das profissões, nos preços dos equipamentos fotográficos, produtos de surfwear e até mesmo nos preços das revistas, mas as tabelas de preços dos fotógrafos são as mesmas desde quando comecei a fotografar.

Você viajou para lugares nada ruins como: Hawaii, Fiji, Australia, Mexico, Chile, Fernando de Noronha, California, El Salvador, Peru, Panama, Costa Rica. Por que Fiji é considerado por você como a melhor surftrip?

Ir para Fiji foi a realização de um sonho. Sempre assistia as ondas de Cloudbrake e Restaurants nos filmes quando era criança e foi maravilhoso conhecer pessoalmente. Principalmente chegar à ilha de Tavarua com um swell de mais de oito pés.

Outra viagem inesquecível foi ir para o Chile. Viajamos muitas horas de carro para procurar uma onda que não sabíamos se iríamos encontrar. Nem o frio e a água congelante, próximo a Patagônia, atrapalharam nossa viagem. Mantivemos o “pé quente” e chegamos no local com um swell perfeito.

Hoje, com a projeção que o seu trabalho está tendo e suas aparições no Canal Off e Woohoo. O que o Rafaski deseja alcançar daqui em diante?

Estou muito feliz com o reconhecimento. Também tenho realizado muitos trabalhos de vídeo ultimamente. Espero que essa projeção traga-me cada vez mais trabalhos para que eu possa ficar mais tempo dentro do mar aprimorando novos ângulos e sempre aprendendo.

O que você diria para um brasileiro que deseja seguir o caminho de fotógrafo profissional?

Primeiro eu diria que você precisa fazer tudo com amor, todo o resto, se torna consequência. Se mantenha curioso, humilde e sempre aprendendo. Também desenvolva as habilidades complementares, pois o fotógrafo acaba sendo seu próprio contador e trabalha com todo lado comercial da empresa e sem essas competências o seu negócio não irá pra frente.

Não escute as pessoas que não te incentivam a buscar seus sonhos. Muitos abrem mão do que amam por medo, mas o pior risco que você pode correr na vida é o de não ser feliz.

Para conhecer melhor o trabalho do fotógrafo acesse: funpageSite.

Entrevista e texto de abertura por Myron Paterson.

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