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Pranchas que nos definem

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

‘Pranchas que nos definem’ é uma crônica do carioca Julio Adler, gentilmente cedida a partir do blog Goiabada. Julio já foi competidor, comentarista de campeonatos, produtor de filmes de surf, escritor, crítico, observador da vida e outros fenômenos raros. Em 2013, tivemos o prazer de conhecer pessoalmente o Julio no MIMPI Film Fest, onde conversamos com ele sobre a importância de festivais desse tipo, se quiser, clica aqui e dá uma olhada.

Uma cavada maiúscula

Uma cavada maiúscula

A Cusparada

A cena mais representativa do cinema de surf a tratar da relação homem x prancha é do clássico que fecha a década de 60, Evolution do australiano Paul Witzig. Descrevo brevemente para conseguir melhor efeito, Wayne Lynch, então um adolescente e o mais revolucionário surf de back side que já aparecera numa tela de cinema, pega sua prancha com desdém e a arremessa n’água. Em seguida, cospe, certeiro, no fundo da prancha.

O jeito que Lynch tratava sua prancha, a mesma que é magistralmente conduzida à lugares e ângulos nunca antes vistos numas direitas, que podem ser em qualquer um dos 150 picos no estado de Victoria. Eu queria dizer que o jeito que Lynch tratava a prancha é semelhante as paixões arrebatadoras das peças do Nelson Rodrigues, quase irracional, absolutamente instintivo.

Vendo a cena do garoto de 16 anos, possivelmente o melhor surfista do mundo em 68/69, esculhambando com a prancha, sua companheira, no mais violento desempenho jamais visto, chocava porque mostrava que Lynch queria mais daquele toco. Certa vez, Lynch foi entrevistado por um desses camaradas que vive o passado intensamente em busca de respostas sobre a evolução das pranchas e perguntou a Lynch se ele era capaz de reproduzir a magia daquela revolucionária prancha. A resposta de Lynch foi curta e rasteira, aquela prancha era uma merda na época e continuava uma merda hoje em dia e seu interesse era, e ainda é, em pranchas para evoluir seu surf, mesmo aos 50 anos – na época.

Single fin x Twin Fin

1976, North Shore de Oahu, Shaun Thomsom e Mark Richards comparam suas pranchas. Shaun mostra sua monoquilha Spider Murphy, 7’6” cheia de curva pra encarar Pipeline e Richards exibe sua biquilha, shapeada por ele mesmo, inspirada nas pranchas que Reno Abelira surfou na Australia alguns anos antes. Os dois são os líderes da revolução que convencionou chamar de Bustin’ Down the Door, em outras palavras, Shaun e MR são os dois maiores surfistas do planeta naquele exato momento, ninguém duvidava disso.

O jeito que cada um atacava as ondas no Havaí aplicou o primeiro grande rompimento da década. A partir daquela cena do filme Free Ride, do Bill Delaney, o surfista escolhia se era Shaun ou MR, não tinha volta. Ou melhor, tinha sim, você podia escolher entre Larry Bertleman, que surfava com as stingers do Ben Aipa, ou as Pin Tails do Gerry Lopez, mas nem Lopez, nem o Rubber Man ganhavam títulos mundiais.

Mal comparando, seria como se Medina e John John aparecessem no principal filme de surf do ano conversando sobre suas pranchas – e supostamente essas mesmas pranchas tivessem características completamente diferentes. Logo em seguida, Shaun e MR aparecem surfando dum jeito que definiu o que era surf de qualidade por quase 10 anos. O grande momento do filme é quando MR dropa uma bomba em Off The Wall e Shaun vai atrás, super profundo, e os dois entubam juntos, triunfantes.

Bola de fogo, 1994

Ninguém acreditava ou concebia em 1994 que ondas maiores de 6 pés pudessem ser surfadas com uma 5’7”. Eis que Sonny Miller, diretor americano da série The Search idealizada pelo gênio louco Derek Hynd e bancada pela Rip Curl, exibe evidências de vida extra terrestre sobre as ondas. Foi em Bawa, uma direita também conhecida como Fishbowls, num ponto (então) remoto da Indonésia que Tom Curren aparece surfando com uma prancha emprestada, 5’7″ x 19 1/4″ x 2 1/8″, fazendo o que então nenhum outro homem tinha tentado. Curren deslizava ao som duma Jam session que ele mesmo distorcia a guitarra com toques psicodélicos a lá Hendrix.

Suas curvas eram tão suaves e precisas que a partir dali as fishes, antes pranchas relegadas a condições de menor impacto, subitamente se elevaram ao patamar de design válido para toda e qualquer onda. Ainda em 94, Log Cabins quebrou enorme e lá estava Curren testando os limites da sua Fireball. A Fireball era criação do Tom Paterson, irmão do lendário Michael Peterson, e dizem as boas línguas que a 5’7” do Curren tinha seis canaletas e um degrau no meio delas que chamava-se step bottom. Se hoje qualquer loja de surf bacana que se preze tem uma fishezinha pra expor, isso deve-se ao Curren, 1994, em Bawa e ao Sonny Miller. É um trabalho duro, mas alguém teve que faze-lo – antes.

 

Texto por Julio Adler, do blog Goiabada.

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