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Poder Retornar Doce Deleite

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No dicionário…DELEITE: “Em que há ou demonstra excesso de satisfação; que sente contentamento ou deleitação; prazer, gozo ou delícia.”

Foto: Caio Guedes

Foto: Caio Guedes

Desde a primeira vez que visitei a República Oriental do Uruguai, tive certeza que aquela faixa de terra espremida entre o Brasil e a Argentina tinha algo muito especial. Aquele meu primeiro contato com a “banda oriental” foi em 1995 e o foco da viagem era um show dos Rolling Stones na Argentina, mas a trip de carro cruzando as estradas retas do Uruguai ficou marcada na minha memória. Foi impressionante ver uma cidade como Montevidéu, com seus prédios antigos e ruas cheias de carros clássicos saídos dos filmes dos anos 60 a 70. Era verão e foi difícil entender onde era mar e onde era rio da Prata, pois não havia ondas em nenhum lugar e a água tinha aquela mesma cor marrom do litoral do RS.

No ano de 2003, descobri que haviam surfistas também no nosso país vizinho. Eu já tentava levar a vida como fotógrafo de surf em Floripa e estava na extinta feira Surf & Beach Show, em São Paulo, quando conheci um grupo de uruguaios que tinham uma revista de surf chamada Mareas. A revista era recheada de lineups com altas ondas em praias com visuais alucinantes, totalmente diferentes daqueles que eu conhecia até então (litoral de Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Eles viram as minhas fotos e me convidaram a fazer uma surftrip, que acabou rolando em outubro daquele mesmo ano e foi a primeira de várias.

Foto: Caio Guedes

Foto: Caio Guedes

Entre 2003 e 2010, estive no Uruguai pelo menos uma vez por ano, levando meus amigos surfistas brasileiros com a promessa de altas ondas sem crowd. Nas primeiras viagens a sorte foi fator primordial. Pegamos alguns clássicos memoráveis…fiquei mal-acostumado. A realidade é que para ser surfista no Uruguai o cara tem que ser guerreiro. A costa não tem grandes morros ou florestas para bloquearem o vento e as ondulações costumam encostar nas praias com frequência bem menor do que mostram os gráficos de swell. Hoje, pensando mais racionalmente em cada trip realizada, percebo bem que foram poucos os momentos em que o mar esteve clássico. Em cada viagem rolou um dia realmente clássico e, talvez, uma ou outra manhã boa, mas os momentos bons é que ficaram marcados.

Não se deve marcar uma surftrip de 10 dias contando que rolem altas ondas, como se faz ao comprar passagem para a Indonésia, por exemplo. Uma surftrip para o nosso país vizinho exige uma boa dose de paciência e mente aberta, além de um pouco de conhecimento para analisar as previsões. Hoje, a tecnologia levou banda larga de internet a quase todos os lugares, mas minhas primeiras trips, o tempo que não estávamos na praia tinha que ser gasto a moda antiga… conversa, música, carteado, lareira, trago e churrasco. As Companhias devem ser bem escolhidas, pois um cara chato que fica reclamando da infraestrutura, do frio, do vento e da falta de festas pode estragar a vibe da barca.

Foto: Caio Guedes

Foto: Caio Guedes

No meu caso, ainda tenho que variar a galera em cada investida, para poder sempre fazer matérias exclusivas na Solto com surfistas que rendam as imagens que espero. Acho que a única exceção é Yuri Castro, um camarada de Floripa que já tinha feitos duas barcas como (uma delas publicadas na Solto em 2007, na matéria “Haciendo La Mano”) e voltou agora em 2014 para pegar um swell. Yuri sempre rende, em qualquer condição de mar. Se tiver tubos, sempre encontram um, se o vento for maral, manda aéreos bizarros e se for um point, faz a linha certeira. Quando recebi a ligação do Yuri convidando para fazer um tiro até o Uruguai para pegar um swell de sul que se aproximava, não precisei pensar muito para aceitar. O swell nem seria tão grande, mas de período alto e vento favorável para alguns picos na região de Rocha. Em poucas horas, organizei o material de trabalho, roupas de inverno e logo estávamos na estrada. De 2003 para cá, foi ficando mais fácil a viagem de Floripa para o Uruguai. A parte da estrada até Porto Alegre que costumava ser a mais desgastante passou em um piscar de olhos. No começo da tarde seguinte já estávamos em terras “hermanas”.

Castro me disse que na sua primeira trip uruguaia se surpreendeu com a qualidade das ondas: “fui a Punta Del Este no verão para fazer turismo mesmo. Tinha levado uma fish somente por descargo de consciência. Nunca tinha ouvido falar de surf no Uruguai, mas no fim das contas, a fish foi muito bem utilizada. Surfamos vários picos com altas ondinhas. Nada de especial, mas muito divertido.”

Foto: Caio Guedes

Foto: Caio Guedes

Também estava com a gente Davi Behnke, o “Davo”, freesurfer de Floripa. Um cara que não quer mais saber de viver na capital e sonha poder curtir a vida no meio do mato, seja em Nova Trento ou no Uruguai. Ele é um cara sereno que gosta do estilo de vida uruguaio… e que manda manobras iradas também.

Nos 5 dias que passamos no país vizinho, curtimos uma rotina tranquila, que consistia em tomar um café da manhã reforçando antes de checar os principais picos da região para a session matinal e, na tarde fazer churrasco quando o mar não estava bom… monótono, não? Até pode ser, mas é tudo o que buscamos ao escolher o Uruguai como destino. “Quando chego em La Paloma, tudo o que eu quero é relaxar e focar no surf, tudo o que não consigo com a vida que levo em Floripa, onde tudo gira em torno da night e da ostentação.” Diz Yuri, que comanda um café na boêmia Lagoa da Conceição.

Para Davo, o principal é estar feliz de estar em um lugar com pessoas simples, natureza selvagem e baixa densidade demográfica (diga-se: pouco crowd). “Mesmo que não seja fácil encontrar boas condições de surf. Afinal, esta última barca foi a que menos deu onda… O pensamento tem que ser positivo: é sempre bom estar no Uruguai!”, diz Davi.”

Foto: Caio Guedes

Foto: Caio Guedes

Realmente acho que não demos muita sorte, pois rolou somente uma manhã realmente boa, com altos tubos em um secret de difícil acesso. Na tarde desse mesmo dia, a sessão rolou em Los Botes, que tem uma onda mais gorda… bonita, mas difícil, que acabou rendendo aaaaltas fotos pela beleza do visual. Nos outros 4 dias, o azar foi termos perdido a chance de surfar um dos picos menos divulgados da costa por termos escolhido rumar para a região de Punta e não para o norte ao sair de casa… e, no caminho, o único pico com ondas razoáveis tinha um campeonato rolando. A session rolou em Los Chorros, com vento maral, ondas mexidas, horrível. Na volta para casa, nos encontramos com o meu amigo Rodrigo Caballero, o mesmo cara que me convidou para aquela primeira trip em 2003, quando era editor da Mareas. Rodrigo havia nos convidado para ir para um secret no norte e deu aquela declaração que termíamos: “tava épico, cara. Altos tubos baforando!”. Tudo bem, agora sabemos que com vento leste não adianta ir para Punta.

O que mais aprecio ao fotografar no Uruguai é que em todos os picos é possível incluir elementos em primeiro plano ou no background da imagem. Em Los Botes, ficam aparentes a pedras pontiagudas que formam a bancada, deixando um visual muito louco nas fotos. Em outros lugares, a onda roda tão perto da beira que a faixa de areia dá um toque diferente no enquadramento. Em La Aguada tem aquelas bromélias (ou algo similar) que remetem a J-Bay… Sem falar na própria qualidade das ondas… e mesmo que o mar não esteja clássico, a crowd ínfima proporciona quase a certeza de que as melhores ondas sejam surfadas pelos camaradas. Um deleite fotográfico e surfístico!

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Foto: Caio Guedes

Com o recente destaque que o Uruguai teve na mídia mundial por conta da legalização das canábis e pelo investimento do governo uruguaio em propaganda no Brasil, é crescente o interesse no país vizinho. Este ano, foi criado até um concurso de fotos e vídeos só para surftrips em território uruguaio, o Desafio Surfari Uruguay, com repercussão até entre os surfistas uruguaios. Um post que incentivava os participantes a viajarem para pegar um swell em maio gerou diversos comentários de uruguaios ofendidos.

A imagem mais comum dos surfistas brasileiros é que gostam de viajar em grupo. Muitas vezes chegam com atitude extrovertida ou não tão respeitosa, ou simplesmente mal-interpretada. Já percebo um começo de clima hostil em alguns locais, algo totalmente natural quando analisamos pela ótica deles. Ainda assim a crowd costuma ser muito diferente da que encontramos no Brasil. Enquanto por aqui muitas vezes rola uma “bateria” informal em cada sessão, os uruguaios costumam vibrar muito com as ondas bem surfadas, tanto por locais como por “haoles”. Quando vêem alguém se destacando surfando altas, logo querem saber quem é aquele cara, de onde ele vem. Não raramente rolam churrascos de integração, regados a cervejas Patrícia ou vinhos locais. Cenas praticamente inimagináveis quando viajamos pelo sul do Brasil.

 

Texto e fotos: Caio Guedes 

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