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Pierce Kavanagh

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Bruce Brown vai fazer um daqueles incríveis filmes de surf e está, ele próprio, na arrebentação filmando Phil Edwards descendo uma onda de 20 pés no Hawaii, Phil está vestindo uma bermuda de nylon que ele mandou fazer no Hawaii, porque ela seca rápido – e é como “telefone sem fio”. Todo mundo tem que ter uma bermuda de nylon, e então os fabricantes seguem, e todo mundo está fazendo bermudas de nylon, estilo boxer mesmo, e em breve todas as crianças em Utica, N.Y., estão comprando uma dessas, com a listra de competição e tudo mais, e eles nunca ouviram falar de Phil Edwards.” – Tom Wolfe, The Pumphouse Gang, 1968.

A frase acima resumiu, há mais de quatro décadas, o que era e viria a ser um fenômeno classificado como indústria do surf. Enquanto você lê esse post dezenas, centenas, ou talvez, milhares de artigos estão indo para as mãos de pessoas que compraram o pedaço de um sonho. Afinal, é isso que o surf é. Um sonho. Ao menos essa é imagem passada através dos filmes, fotos, revistas e anúncios. Um mundo onde todos são felizes em harmonia com a natureza. No entanto, você já se perguntou o quanto há de verdade no discurso eco/socio-amigável que a indústria do surf mantêm desde que ela se tornou uma indústria de verdade? Apesar de pensar que a maioria das pessoas sabe, ou deveria saber, que para continuarmos a avistar boas ondas e praias bonitas devemos manter um ciclo de bom comportamento social e ambiental, o quanto se sabe sobre como é manejada essa indústria? E mesmo sobre as pessoas, o quanto elas próprias não compraram o discurso verde dessas empresas?

Pensando nessas questões, o surfista/cineasta californiano Pierce Kavanagh iniciou com sua equipe de trabalho um projeto audacioso. Surgiu, daí, a ideia de um documentário que abordasse pessoas e empresas significativas no mercado de surf sobre o que é dito e o que é – realmente – feito em razão de tópicos que vêm, até mesmo, se tornando repetitivos em outros meios, tal é a preocupação ou extensão do debate sustentável. ‘Manufacturing Stoke’ nascia de modo a não apenas criticar e virar o rosto para não escutar a resposta, Pierce, com a equipe de produção misfit pictures, bateu à porta de todas as grandes, e muitas pequenas, empresas para ouvir o que tinham a dizer sobre os produtos que colocam no mercado. Ainda assim, o filme não deixa de indicar que os consumidores ainda são, em última instância, responsáveis pelo que é comprado e desejado entre eles. Essa é uma ideia que todos deveriam saber, o poder de decisão está nas nossas mãos. Se não sair da prateleira ou da gôndola será repensado. A seguir você confere o trailer do filme e a entrevista com o diretor Pierce Kavanagh.

MANUFACTURING STOKE from misfit pictures on Vimeo.

Primeiramente, conte um pouco sobre a Misfit Pictures e as experiências artísticas dos envolvidos…

Minha mulher Petra e eu conduzimos a Misfit Pictures como uma colaboração aberta entre cineastas, fotógrafos, músicos e pessoas criativas em geral. O pessoal que trabalhou no ‘Manufacturing Stoke’ é composto por 8 ou 9 colegas do Departamento de Cinema da Universidade da Califórnia, Santa Barbara (UCSB). É uma turma incrível. Mesmo após constantes motins, demissões, re-contratações, explosões e perplexidade total, a maioria deles, surpreendentemente, ainda está conosco. Eu tive a sorte de crescer rodeado por músicos e artistas talentosos e as suas contribuições foram além da generosidade. As pessoas realmente saíram da toca quando perceberam a importância do filme.

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Pierce Kavanagh.

Como surgiu a ideia do ‘Manufacturing Stoke’?

A ideia do filme foi concebida durante o Cardiff Surf Classic.  Em conjunto com o campeonato de surf, foi colocada uma exposição de surf destacando membros da comunidade local que desenvolvem seus negócios da forma mais sustentável possível. Foi então que eu conheci o Ed e o Kipp da *Enjoy Handplanes e a semente foi plantada. Lá estavam pessoas realmente tentando mudar a indústria [do surf] para melhor. Sete meses e mais de trinta entrevistas depois o ‘Manufacturing Stoke’ estreiou para amigos e familiares em San Diego, em seguida excursionando ao redor do mundo. O filme ganhou uma vida própria.

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Premiere de Manufacturing Stoke na Bird’s Surf Shed em San Diego.

Você acha que a comunidade do surf realmente entende o quão profundo é o nosso impacto ambiental? Não somente em termos de materiais de produção, mas as viagens, os choques culturais e tudo isso..

Aqueles que pensam sabem. É impossível não notar quanto lixo desnecessário a indústria do surf produz. Viagens e interação cultural é uma história completamente diferente. Acho que as pessoas não aprenderam muito com o colonialismo.

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Acervo preservado da Bird’s Surf Shed.

Quem ou o que é a coisa mais difícil de mudar em relação as questões ambientais que envolvem o surf? Surfistas, fabricantes, simpatizantes..

Em geral, a indústria do surf segue o modelo If it ain’t broke, don’t fix it [ditado inglês equivalente ao brasileiro “Em time que está ganhando não se mexe”]. Se os fluxos de receitas ainda estão produzindo lucros exorbitantes, então não há problema, certo? A indústria do surf fatura U$ 7 bilhões por ano [nos Estados Unidos; no Brasil em 2008 faturou R$ 5 bilhões], então, é muito arriscado mudar o seu plano de negócios, mesmo se for a coisa certa a ser feita.

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Casa cheia para a estréia em San Diego.

Vocês tiveram acesso aos responsáveis das grandes empresas para falar sobre esse assunto?

Sim, nós entrevistamos os senhores que lideram as divisões sustentáveis da Volcom, Sole Technologies [responsável pelas marcas Etnies, Emerica e éS, entre outras] e Quiksilver.

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Pierce em La Jolla, Califórnia.

Qual foi o maior obstáculo para a realização desse projeto?

Tal como acontece com todos os esforços independentes, o financiamento. Minha esposa e eu drenamos nossas economias porque isso é algo em que acreditamos. Eu faria de novo, amanhã se fosse o caso, e sei que Petra estaria comigo. Ela é a melhor coisa que já me aconteceu.

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Pierce e Petra.

Do it yourself [Faça você mesmo] é o próximo passo na indústria do surf?

DIY é um passo para a indústria e esperamos que seja um grande passo. O único jeito dos grandões prestarem atenção é se você parar de comprar as porcarias deles.

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Handplanes.

Como podemos ter acesso ao ‘Manufacturing Stoke’? O que vem a seguir para você e a Misfit Pictures?

‘Manufacturing Stoke’ pode ser assistido ou comprado na The Surf Network. Quanto ao que vem a seguir, eu estou trabalhando em diversos projetos de filmes… estamos compilando as entrevistas completas realizadas para o ‘Manufacturing Stoke’, estou fazendo a fotografia aquática para ‘Soldier Surfer’ e, logo, lançaremos um filme chamado ‘WOMP’. Estou de dedos cruzados para talvez dirigir uma campanha de seis comercias da Nike sobre Wimbledon. Recentemente, também lançamos o San Diego Surf Film Festival para celebrar a arte do cinema de surf independente. O SDSFF acontecerá de 11 a 13 de maio na Bird’s Surf Shed em San Diego. Estamos muito empolgados para este evento. Obrigado pela entrevista e tomara que isso traga mais consciência sobre o tema.

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Pôster do filme.

Fotos por Kevin Roche e restantes extraídas da revista eletrônica Liquid Salt.

Maiores informações no website.

Texto, entrevista e tradução por Lucas Zuch.

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