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Órfãos do The Surfer’s Journal Brasil

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

As revistas tem um papel importante na comunicação social devido a sua capacidade de agregar informação relevante aos mais diferentes gostos, gêneros e tribos, elas foram o primeiro meio de comunicação desenhado para atender nichos comportamentais específicos. Para se ter uma ideia do nível de segmentação atingido por este meio de comunicação, de acordo com dados de 2011, circularam no Brasil 4.705 títulos, atingindo um público de 30 milhões de leitores. O impacto das revistas é claro e direto na formação, definição e inspiração das mais diversas subculturas. Esclarecendo um pouco esse conceito, por cultura entende-se todos os símbolos, imagens, comportamentos, atitudes e opiniões que definem um grupo de pessoas, uma comunidade ou uma nação. É o conjunto de elementos que dá unidade a esse aglomerado de gente.

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Embora tenham essa relevante função na formação de público leitor, esse segmento editorial recebe apenas 7,5% do total de dinheiro investido em publicidade. Para efeito de comparação, a Televisão recebeu, em 2012, 54% da verba publicitária nacional; seguida por Jornais, 18%; TV por assinatura 8%; e depois a Internet, com 7%. Embora se observe que as revistas tem um grande poder de penetração, essa mídia sofreu um duro golpe com a ascensão da internet, que tem o mesmo ou maior poder de segmentação e onde os conteúdos são editáveis e produzidos a um custo infinitamente menor. Ainda assim, nota-se que ambos disputam diretamente uma fatia desse bolo, e como o tempo médio de conexão do brasileiro só aumenta, esta batalha está com um viés bastante favorável ao meio online. Mesmo nesse cenário incerto, em 2011, surgiu um player no mercado editorial que fez nossos olhos brilharem e nosso coração bater mais forte. Era criada no Brasil, a versão nacional do The Surfer’s Journal, uma publicação premium que tinha como objetivo estimular o lado artístico, comportamental e histórico do surf.

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Mesmo que você, que se propôs a ler esse texto, não seja lá um grande entendedor de surf, vou tentar explicar a importância de um veículo como esse para o engrandecimento e expansão da cultura surf seja no país ou no planeta todo. Existem duas mídias que mudaram completamente o surf como cultura no mundo, uma delas é a revista e a outra os filmes. Geralmente, os filmes vinham encartados em revistas**, logo é bem fácil saber quem é pai e quem é filho. O ponto que quero deixar claro é que sem as revistas, não haveria algo que hoje conhecemos como cultura surf. Se não fosse por meio delas um surfista não saberia quem são seus ídolos, por quem eles são patrocinados, que em algum lugar do mundo alguém já completou um aéreo reverse e que um floater se chama floater. Uma citação que li numa revista, não por acaso uma The Surfer’s Journal, exemplifica exatamente o que eu estou tentando explicar. Disse Carl Ekstrom, shaper e pioneiro do surf na Califórnia: “surfar era uma experiência muito diferente nos anos 50. Surfistas eram segregados em pequenas tribos por toda costa (Califórnia). Você podia ir pro norte, como, Laguna Beach e eles estariam escutando um certo tipo de música, se vestindo diferente e falando à sua própria maneira. […] Não haviam revistas de surf dizendo às pessoas como elas deveriam ser, então qualquer lugar que você fosse havia uma outra atitude, como estar em um país estrangeiro”.

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Mas, num país como o Brasil, que constitui o terceiro maior mercado de surf do mundo e onde, em 2008, circulavam nada menos que oito publicações específicas sobre o esporte, porque nos sentimos órfãos de uma revista? Até dezembro passado, o surf brasileiro sempre foi extremamente carente de um campeão mundial e, com isso, havia uma concentração muito forte de conteúdos acerca de atletas profissionais, marcas e moda. Porém, o papel principal de uma revista deveria ser o de dar subsídios para que os membros de uma comunidade ou subcultura entenderem de onde eles vem, onde estão, porque se comportam de tal maneira e pra onde eles vão após absorver esse background. E esse era um papel que a TSJ exercia com maestria. Citando um exemplo bem próximo, começamos o Surfari com a missão de enriquecer a cultura surf (e seguimos com ela), e pra isso tínhamos dois benchmarks bem definidos, o Korduroy.tv em termos audiovisuais e o The Surfer’s Journal em relação ao editorial. Quando começamos a colaborar com a revista, em 2012, por meio da tradução de artigos, foi como ser convidado para entrar na casa de um ídolo. Depois de dois anos, no final de 2014, veio o convite para escrever uma pauta sobre a viagem de alguns legends de Porto Alegre à Califórnia de Kombi. Ver essa reportagem impressa, no veículo que mais admirávamos, foi como estrear marcando gol no Maracanã.

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No fim das contas, mesmo que a internet seja um veículo mais assertivo e barato de se oferecer o conteúdo certo para as pessoas certas, sentimos falta do toque. A ansiedade em rasgar o envelope do correio e colocar as mãos no brilhoso e grosso papel da TSJ nunca será substituído pelo botão de ‘Atualizar’ do nosso site favorito. Se os leitores não estavam preparados ou se o mercado não soube absorver o denso conteúdo que a revista oferecia provavelmente nunca vamos saber ao certo. Sabemos, apenas, que perdemos um dos maiores formadores de surfistas mais educados, informados e completos.

RIP The Surfer’s Journal Brasil.

**Errata: Como muito bem apontado por nosso atento leitor, Cícero Vassão, não são os filmes que foram originados das revistas, mas o contrário. O cineasta, artista e inovador de plantão John Severson, na intenção de divulgar seu recém finalizado filme Surf Fever, revelou os melhores frames do vídeo em papel fotográfico e usou o encarte como argumento de venda para o filme em cinemas da época. Esse encarte, eventualmente, viria a se chamar The Surfer, a primeira revista de surf do mundo. Depois, tal qual a fala do filme ‘A Rede Social’, Severson “drop(ed) the ‘The'”.

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Texto por Lucas Zuch.

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