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O terceiro caminho do surfista profissional

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

O termo “surfista profissional” me remetia diretamente a uma pessoa que é provida de uma habilidade fora do comum em cima de uma prancha, mas aos poucos o sentido deste profissionalismo parece estar ganhando novos caminhos.

Até algum tempo atrás, se eu estivesse em um supermercado, e um amigo apontasse para outra pessoa, dizendo “aquele cara é profissional”, no mesmo momento o imaginaria partindo uma onda ao meio com sua triquilha envenenada, lançando um leque de água tão grande no ar que à luz do sol daria para ver um arco-íris. Para muita gente essa percepção continua igual, pode ser que a manobra mais imaginada atualmente seja um aéreo e não uma rasgada, mas enfim.

As movimentações da indústria do surf são o que me levam até essa interpretação. Há cerca de 20 anos estávamos no que pode-se chamar de 1º Caminho: para você ser bem pago por um patrocinador bastava conquistar bons resultados no circuito profissional. A fórmula era simples: a marca queria estar associada a imagem dos campeões. Isso não mudou até hoje, a marca sempre vai querer estar associada aos campeões.

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Se a marca gosta de estar ao lado de um campeão, imagina se isso se repete por 11 vezes. É casamento.

 

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Mas e se não der para ser campeão. Margo mostra o caminho

Lá pelo início dos anos 2000, Brenden “Margo” Margieson deixou sua marca no surf profissional por ser um dos primeiros a largar as competições e ganhar um bom cachê dos patrocinadores para se dedicar exclusivamente ao freesurf (se você nunca ouviu falar dele assista ao documentário “Wanderjahr”). Iniciou-se o que podemos chamar de Caminho 2. Depois da porteira aberta por Margo muitos seguiram nesta direção, o mais notável talvez seja Dave “Rasta” Rastovich. Além de surfar muito, Rasta agrega em sua imagem uma ideologia “Save the planet” que o posiciona como uma personalidade interessante a ser explorada por seu patrocinador. Ok, mesmo sem competir, ambos são surfistas de altíssima performance e conseguem unir isso a um estilo invejável. Vamos nos aprofundar um pouco mais.

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Rasta em harmonia com a natureza. Acredite, essa foto pode vender mais roupas do que você imagina!

Já em 2011, a gigante Billabong chamou para a sua equipe um cara chamado Tyler Warren. Tyler é um artista/surfista que nunca teria surf para estar entre os 300 surfistas de melhor performance do Mundo, mas o que chamou a atenção da marca não é apenas o que ele faz em cima de uma prancha.

“Seja surfando, shapeando ou pintando, o Tyler nos trás a essência de um verdadeiro cara do sul da Califórnia, sendo talentoso e multidisciplinar como só ele pode ser. Tyler será uma grande contribuição a marca da Billabong. Estamos muito felizes de trabalhar com Tyler e esperamos uma longa e próspera relação.” Rob McCarty, Design Director Billabong (via Korduroy.tv)

 

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Life is better on boardshorts. Coleção dos calções modelo Tyler Warren

 

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Life is better on boardshorts. Coleção dos calções modelo Tyler Warren.

Outro exemplo mais recente, é a união da marca Reef com o cineasta/surfista Cyrus Sutton. A marca o chama de embaixador cultural e já apoiava seu site (korduroy.tv) há algum tempo, agora ele assina a colaboração de alguns produtos da Reef. Neste lookbook, dá pra ter uma ideia do conceito da campanha e o quanto ela se distancia do 1º primeiro caminho citado.

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Cyrus Sutton usando os produtos Reef+Cyrus. Sua van servindo de cenário.

Tyler e Cyrus, além dos nomes parecidos estão longe do surf de alta performance, até porque ambos preferem variar os modelos das pranchas que surfam, entre longboards, stubbies e fishes. E mesmo o surf (como esporte) não sendo a única atividade remunerada destes dois artistas, eles mostram uma nova variável do que pode-se chamar de surfistas profissionais. Estamos diante de uma valorização intelectual do surf profissional? Este seria o terceiro caminho.

No Brasil, a carreira de Junior Faria mostra que engatinhamos em direção a essa tendência. Durante seu período competitivo  ele empilhou boas colocações até chegar perto dos top 46 e, como um atleta de resultados,  naturalmente era patrocinado por uma grande marca. Quando a competição deixou de ser prioridade, o patrocínio acabou e Junior passou por uma fase dedicada ao freesurf e a sua alimentação intelectual. Junior voltou a ser procurado por patrocinadores, desta vez Tropical Brasil e Osklen querem estar vinculadas à sua imagem e podem ter certeza que não é só pelo que ele faz em cima de uma prancha. Quem acompanha suas crônicas sabe do que estou falando.

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Junior Faria, Tropical Brasil e Osklen

Ainda assim, Junior Faria é um surfista de alta performance. Será que chegaremos no dia em que a performance seja a característica coadjuvante de um “surfista profissional” brasileiro? Creio que estejamos perto (a 3 ou 4 anos) disso, e quando chegarmos lá será interessante ver um Quarto Caminho emergindo na terra do Tio Sam.

 Novos caminhos são sempre positivos, nos dão alternativas e poder de escolha. Vamos em frente.

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Texto: Duda Linhares

Fotos: Reprodução

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