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O problema da lama em Rio Grande

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

É impossível (re)conhecer a costa brasileira e não se deparar com diversos problemas ambientais. Mesmo já tendo encontrado muitos oásis e paraísos naturais praticamente intocados (e sabendo que ainda tem muitos pela frente), o contraste com a poluição de outros de nossos destinos é intenso.

Curiosamente, estamos colocando esta matéria no ar enquanto a barca do Reconhecendo o Surf está no Rio de Janeiro, onde se encontram algumas das praias mais poluídas (e ao mesmo tempo as maiores atrações turísticas) do Brasil. Mas hoje o assunto é outro: um pequeno desastre que encontramos no início do trajeto, pertinho do nosso ponto de partida.

No meio do caminho entre Chui e Porto Alegre encontra-se o Porto de Rio Grande, com um cais de aproximadamente 2km de extensão. E, se a fundação de grandes civilizações à beira-mar costuma trazer junto uma série de prejuízos ao meio ambiente, imagine a construção, manutenção e operação de um dos maiores portos do Brasil. Por outro lado, o Porto é responsável pelo crescimento da região e grande parte da importação e exportação do país, o que gera constantemente discussões sobre desenvolvimento X sustentabilidade.

Acontece que perto dali, 7km de praia estão afundados em lama há muito tempo. No início de 2014, toneladas do material invadiram a praia do Cassino, impossibilitando o proveito, a circulação de pessoas e a prática do surf. Mesmo não existindo nenhum estudo conclusivo que confirme a origem desse fenômeno, vários pesquisadores, moradores e estudiosos apontam as dragagens do canal do Porto como provável responsável.

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A dragagem do canal é feita para aumentar o calado e possibilitar o trânsito de grandes embarcações. A lama é retirada do fundo por dragas e despejada em outro local de maior profundidade, aproximadamente 16km da costa. A teoria mais abordada é que as correntes e marés levam essa material para a praia.

Uma das pessoas que vem lutando para chamar atenção sobre estes impactos é Carlos Araquem, do movimento SOS CASSINO. Na nossa passagem por Rio Grande, conversamos com ele para entender um pouco como isso afeta a vida e o surf da região. Dá pra ter uma boa ideia com as imagens que encontramos por lá.

Na última ocasião que o lodo invadiu a praia uma operação de dragagem havia sido feita poucos meses antes, movimentando 1,6 milhão de metros cúbicos de lama. Uma nova operação estava prevista para este ano, mas foi recentemente barrada por parecer técnico do IBAMA. Desta vez seriam movimentados 18 milhões de m³, 11 vezes mais que em 2014.

Ainda não existe um laudo técnico oficial que explique o fenômeno, mas alguns pesquisadores, como o professor e doutor em Oceanografia da Universidade Federal de Rio Grande Lauro Calliari, corroboram a denúncia do SOS CASSINO. Segundo o portal G1, estudos do professor Lauro indicam o mesmo fenômeno em outros anos em que a dragagem foi feita.

Buscando mais esclarecimentos, entramos em contato com a Superintendência do Porto de Rio Grande (SUPRG) e com professores da FURG. Até o momento de publicação da matéria, recebemos apenas uma nota da SUPRG:

“A dragagem do canal de acesso ao Porto do Rio Grande somente ocorrerá com liberação dos órgãos ambientais competentes. A obra é uma ação do Governo Federal através da Secretaria de Portos do Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil. Todas as dragagens realizadas tiveram expressa autorização dos órgãos ambientais e foram devidamente fiscalizadas pelos órgãos competentes.

 

Leia a entrevista completa com Carlos Araquem abaixo:

Surfari: Quando a dragagem começou a se tornar um problema?
Carlos Araquem: A dragagem passou a ser considerada um verdadeiro problema quando integrantes do SOS Cassino descobriram que durante esses anos todos (cerca de 20 anos) a instituição renomada e contratada FURG, nunca concluiu seus estudos a respeito da origem ou aparecimento da lama na orla da praia. Ainda nesse sentido, descobriu-se que havia um entendimento antagônico dentro da mesma instituição, fazendo com que as dúvidas suscitadas não fossem levadas em consideração devido aos contratos milionários da instituição com o Porto.

Surfari: Qual o histórico de danos ambientais e à vida humana?
CA: Em análise a história ou planilha de dragagens em nosso porto, descobriu-se que após cada evento de retirada de sedimentos sempre havia aparecimento de barro na orla da praia poucos meses depois. Os eventos de 1997 e 2014 foram os mais graves até hoje, eis que impactaram vários quilômetros de nossa praia com uma quantidade de barro fora do normal. Veículos atolados, pessoas e animais presos ao lodo fluido localizado na beira da praia passaram a contrastar com o dia a dia dos rio-grandinos. Sabe-se que o risco de vida é uma possibilidade evidente, porém, qualquer alarde pode comprometer o bom nome da instituição e aqueles que veem na praia uma atração turística.

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Surfari: O surf está comprometido? Qual o efeito da lama nas ondas? A bancada fica horrível?

CA: Certamente a prática de esportes tal como surf e outros foram comprometidos uma vez que a quantidade desse sedimento formou um bolsão de lama gigantesco em frente a praia, ocasionando a perda da pressão hidrodinâmica das ondas, tornando o mar calmo, sem vida, mórbido e sem ondas.

Surfari: O IBAMA acabou de impedir mais uma dragagem do canal, que seria 11x maior que a última realizada. Como foi os bastidores desta decisão e como o SOS CASSINO ajudou no processo?
CA: Existe um processo junto ao Ministério Público, onde o SOS está acompanhando, sendo este transcorrendo nos trâmites legais, mas foi o parecer dos técnicos do IBAMA que está impedindo a dragagem. O SOS CASSINO, através de questionamentos e reivindicações, conseguiu atenção do MP quando esclareceu e levantou pontos importantes, como a não observância das condicionantes, a divergência na opinião dos professores da FURG, o fato de que não foi observado a variável onda na modelagem, que não temos estudo conclusivo do fenômeno lodo na praia, bem como estabilidade do sítio de descarte, e que a SUPRG utiliza uma licença de dragagem de manutenção para fazer uma operação neste volume (18 milhões de metros cúbicos).

Surfari: Na tua opinião, qual o possível impacto se tivesse acontecido esta dragagem?
CA: Temos mais de 7km de área atingida pelo lodo, que sem dúvida está correlacionado com o descarte dos sedimentos no mar, caracterizando para nos crime ambiental. Não conseguimos imaginar o impacto que poderia provocar uma operação onze vezes maior…

Surfari: É importante pensarmos em uma solução que não comprometa o meio ambiente, mas que também não impeça o desenvolvimento econômico da região. Qual seria essa solução?
CA: Sabemos que o Porto de Rio grande é uma importante fonte de riqueza para nossa região, englobando nesse entendimento empregos e uma balança comercial que implica em arrecadações recordes. Porém, a preocupação e a cautela com o meio ambiente deveriam andar juntas do desenvolvimento, sob pena de nos depararmos com cenários tais como o nosso ou a tragédia de Mariana, em Minas Gerais. Estudos conclusivos e um constante monitoramento seriam uma opção, desde que levados a sério e sem comprometimentos. Utilização de traçadores e descarte em terra também demonstrariam um avanço de primeiro mundo nas operações.

Surfari: Dá para ter esperança que as coisas vão melhorar depois deste parecer que suspendeu temporariamente a última dragagem?
CA: Com certeza a cobrança aos órgãos públicos , como fiscalização e transparência será fundamental para evitarmos , que situações parecidas como Mariana , possam atingir nossa praia.

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Texto: Bruno Nerva
Entrevista: Lucas Zuch e Bruno Nerva

Fonte:
http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2014/09/pesquisadores-tentam-descobrir-causas-de-lama-na-praia-do-cassino-rs.html
http://www.portoriogrande.com.br/site/noticias_detalhes.php?idNoticia=1891
http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=3&n=87772

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