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“O dia em que sua prancha virou Cartaz”

– “Um, dois, três… Prepara!”

– “Segura aí irmão! Não estou sabendo por onde começar esse post!”

Este pequeno diálogo expressa o meu sentimento ao tentar escrever as próximas linhas. Está presente em mim um turbilhão de ideias difíceis de serem colocadas… Enfim, vamos lá! Acho que todos concordamos estar vivendo e escrevendo a história nesse país chamado Brasil. Não sabemos exatamente onde isso irá e nem as suas consequências, mas não podemos desconsiderar cem cidades brasileiras eclodindo em manifestações simultâneas. Há sentimentos de orgulho, espanto, surpresa e, também, de desconfiança.

Ontem, em Salvador, tivemos a nossa segunda manifestação. Como sempre os números não são precisos, mas algumas fontes indicam que haviam 60.000 pessoas nas ruas da capital baiana. Números impressionantes que Salvador, a capital dos blocos de carnaval, só coloca nas ruas no período da referida “festa popular”. Pois é, como diz um dos gritos de guerra: ” Não é Carnaval! É Salvador caindo na real!”. Acredito que esse “grito de guerra” é uma verdade, pois há muito tempo não víamos tantas pessoas nas ruas em busca de valores e conquistas para um coletivo. Aliás, no auge dos meus 25 anos, eu nunca presenciei isso na minha vida! Realmente é uma nova geração que se mistura com a antiga e está criando um momento histórico no nosso país.

Não quero aqui me deter à violência descabida da polícia baiana. Não preciso relatar isso. Porém, só para constar, houve momentos de guerra civil na cidade de Salvador. Os manifestantes não demonstravam agressividade, mas a opressão policial veio mesmo assim. Aconteceram momentos de pânico, pessoas feridas. Idosos, crianças e jovens sofreram com uma atitude opressora das forças estatais.

Fotografia de Felipe Blanco, mostra o skatista sofrendo com o efeito dos gases.

Fotografia de Felipe Blanco, mostra o skatista sofrendo com o efeito dos gases.

Sim, qual o motivo de eu estar escrevendo sobre a manifestação na capital baiana? A verdade é que algo me chamou atenção entre inúmeros cartazes: uma prancha! Em meio a muitas cartolinas, papéis e faixas estava lá uma prancha: rabeta swallow, tamanho 6’2″. Não sei o motivo, mas eu fiquei um pouco emocionado. No momento em que o camarada passava com a sua “prancha-cartaz” o meu cartão de memória ficou cheio e tive um rompannte de loucura, eu não podia perder aquele momento! Apaguei diversas fotos e saí clicando o MANIFESTANTE SURFISTA!

A 6’2″ ou 6’3″ amarela estava com parafina. Isso me mostrava que o ‘surfista manifestante’ pegou sua prancha, passou parafina e foi surfar na onda baiana da manifestação. Um drop difícil, “barril dobrado”, como dizemos aqui na Bahia, no estilo do Jardim de Alah quando quebra um metro e meio e só ficam bodyboarders. Eu fiquei feliz ao ver uma prancha transformada em cartaz. Quantos simbolismos há nisso? O que isso representa para o surf? Eu não sei, mas com certeza podemos achar algumas respostas.

O surf sempre ficou marcado como um esporte de contracultura. No período da Segunda Guerra Mundial, a rapaziada ia às praias e encontrava no surf uma maneira de se desvincular daquela sociedade que trazia tantos sofrimentos. Na verdade, hoje em dia, muitos cidadãos ainda encontram no surf a sua válvula de escape. O contato com o mar lava a alma de muitos e nos tira os problemas cotidianos por algumas horas. O surf é isso! O surf é liberdade!

Somos a contracultura e sofremos com os estereótipos. Somos estereotipados de vagabundos, desocupados, malandros e, ainda, acusados de sermos alienados e estar à margem do conhecimento político e social. Creio que somente aqueles que são fortes culturalmente são estereotipados. Estas colocações tentam somente enfraquecer um modo de pensar e de se posicionar perante ao mundo. A verdade é que os surfistas são muito mais que isso.

Essa prancha amarela, transformada em cartaz, retrata exatamente isso. Acena que o surf está vivo e presente. Nos mostra que os surfistas estão extrapolando uma cultura de praia, mar, gatinhas e boas ondas. Nossa força cultural é muito maior do que os “tags” impostos a nós. Este esporte e toda sua gama cultural é capaz de criar mentes abertas, passíveis de lutar por uma sociedade menos desigual. Sabemos discernir, sabemos nos posicionar – não somente em frente às ondas – mas também em frente às injustiças sociais que “lascam” a nossa sociedade brasileira durante anos.

Sabe qual é o simbolismo dessa prancha para mim no meio dessa manifestação? Estamos trazendo a força das nossas remadas para rua!!!

– “Rema maluco, Rema!”

(Descendo a face)

Segundos depois…

– “Porra broder! Que onda!”

(Continua na próxima manifestação)

Fotos e texto Myron Paterson Neto.

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