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O Básico do Surf Sob Pressão

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Surfar é uma tarefa complicada. Exige uma série de habilidades que dificilmente se desenvolve depois de uma certa idade, ou sem muitas horas de dedicação. Isso porque fazer o básico do surf, remar numa onda, ficar em pé na prancha e fazer uma curva em sua base, requer, além de treino e força de vontade, uma alta dose de consciência corporal. Só para se chegar ao lugar onde as ondas quebram, o outside, você tem que aprender a ficar deitado na prancha com um mínimo de estabilidade, remar em linha reta, furar a espuma e escolher a onda certa. E, amigo, posso lhe garantir que tudo isso não se aprende do dia pra noite, muito menos em um final de semana. Com sorte, ao final de um verão de treinamento intenso.

Depois disso, você pode desenvolver muitas outras habilidades que vão desde uma simples rasgada aos aéreos, que possuem tantos detalhes e combinações que às vezes mal se percebe a diferença entre um lien e um slob air. Complexos só pelo próprio nome, como é possível notar.

Nessa evolução dentro das manobras e da leitura das ondas, há algo muito interessante que é o fato inegável de que em condições extremas tudo volta ao básico.

Na última temporada havaiana tive a alegria de surfar mais uma vez em Pipeline. Num certo momento, remava pelo canal e uma série entrou, talvez a maior do dia. A primeira onda pegou todos desprevenidos e muita gente apenas olhou para a onda, deixando-a passar. Alguns remaram fingindo a intenção de descê-la. Quando já era quase impossível agarra-la, um bodyboarder se atirou tão colado na parede que a onda quase o sugou junto do lip. Ele soube controlar a situação e fazê-la até o final, saindo do tubo junto com o spray, quase no canal. Foi uma dessas coisas que fisicamente apenas os bodyboarders são capazes de fazer e pelas quais tem todo meu respeito e admiração.

A segunda onda entrou mais volumosa e sob uma bancada com ainda menos água ainda. Ela estava numa parte bem profunda da bancada, muito distante do canal. Pareceu-me uma onda impossível de ser completada. Naquele momento, as coisas passaram a se mover em câmera lenta. Nesta percepção diferente da passagem do tempo como rotineiramente o sentimos, quando ele sempre corre em direção ao fim do dia (ou ao fim da vida?), vejo Takayuki Wakita, com uma calma diametralmente oposta à complexidade de tudo que acontece à sua volta. Ele faz as coisas mais básicas do surf, com uma simplicidade tocante. Vejo-o dando três ou quatro braçadas, ficando em pé, fazendo uma curva antes de chegar na base da onda para, no instante seguinte, passear por toda sua extensão por dentro do tubo.

 

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(Imagem Wakita | Foto: Henrique Pinguim)

 

Imagem: Takayuki Wakita | Foto: Kelly Cestari/WSL

Imagem: Takayuki Wakita | Foto: Kelly Cestari/WSL

 

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Imagem: Takayuki Wakita – Pipeline | Foto: Mitsuteru Kamio

O que me saltou aos olhos é que por trás dessa aparente facilidade, existia um número de horas dedicadas à essa onda que muitos surfistas no local não tinham. A posição em que ele se coloca em Pipeline não se conquista do dia para noite, não é à toa que existe um ponto da bancada chamado Wakita’s Place. Eu ouço o nome deste japonês há quase tanto tempo quanto sonhava em surfar esta onda. Quando ele fez as coisas básicas do surf naquela onda, ele o fez sob as situações mais críticas em que o surfista pode se colocar. Era como se toda água daquele espaço da praia estivesse se deslocando para a costa.

Ao ficar em pé na parede da onda toneladas de água estavam sendo despejadas por cima de sua cabeça e explodindo sob a rasa bancada de coral. E lá estava ele, com seu capacete de Kamikaze e sua atitude zen, colocando na linha de mais um tubo, pelo puro e simples fato de que é aquilo que ele ama e escolheu para viver. Antes que a onda acabasse eu passei por ela e não sei dizer até hoje se ele completou ou não o tubo. Isso não interessa, o mais importante ele já havia feito: o básico.

Texto: Lucas De Nardi

 

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