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O arqueiro zen ou John J. Rambo?

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Ampliar percepções, treinar o olhar para enxergar a simplicidade e a harmonia do que está ao redor, criar e compartilhar experiências, encontrar o próprio estilo, esses são apenas alguns atributos entendidos quando se pensa em fotografia. Não por coincidência, esse é o modo como a Fluxo – Escola de Fotografia Expandida percebe a arte de eternizar momentos. Diferente do trivial, a escola encontrou sua própria maneira de ensinar, unindo técnica, sentimentos e imaginação, estimula os alunos a vivenciar, se adaptar e apreciar um novo mundo. Fazendo um paralelo entre a teoria e a prática, o diretor da escola Danilo Christidis, mergulha na reflexões acerca da fotografia analógica e digital, buscando entender o contraste e os benefícios que existem entre elas.

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A evolução técnica da fotografia proporcionou diferentes estágios do contato do fotógrafo com o mundo possibilitando resignificar a maneira de retratá-lo. Nos primórdios, as câmeras eram de grande formato, volumosas caixas de madeira com negativos de vidro em processos químicos pouco desenvolvidos, que limitavam as captações imagéticas a retratos de longa exposição. A fotografia permitia registrar algumas paisagens e retratos de família feitos em cadeiras especiais com suportes para cabeças e membros do corpo, para minimizar os movimentos evitando que a fotografia saísse tremida.

Com a evolução dos equipamentos e das emulsões fotossensíveis, as câmeras fotográficas reduziram de tamanho – passando para o médio formato e logo para o famoso e mais utilizado 35mm. Além disso, com a própria evolução química, os tempos de exposição reduziram – uma imagem que precisava de muitos minutos de exposição agora precisa de frações de segundo. Neste ponto, a tecnologia permite que o fotógrafo tenha mobilidade e consiga registrar a vida em movimento, facilita sua mobilidade e o torna mais próximo dos objetos.

Cartier Bresson comparava o ato da fotografia com a prática do arco e flecha. Acredito que suas reflexões não vislumbravam o mundo da fotografia digital com cartões de 32 GB possibilitando ao fotógrafo milhares de disparos. Hoje, se fizéssemos a mesma comparação de equipamento fotográfico com uma arma, certamente a comparação seria feita com uma Kalashnikov, no mínimo.

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A fotografia digital trouxe o benefício da velocidade e da conectividade, mas pode ter feito do fotógrafo um “ser” mais preguiçoso e desatento, mais descomprometido com o ato como um todo, até num sentido filosófico. Comparando novamente a fotografia com o ato da caça, imaginemos duas pessoas com armas diferentes. A primeira com aquela Kalashnikov e a segunda com um arco e 36 flechas.

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O caçador com a Kalashnikov não poupará disparos ao menor som de pássaro ou animal que se mova, não se preocupará em disparar a esmo em meio ao campo ou à floresta. Poderá acertar, sem dúvidas, mas a sua experiência enquanto caçador será muito menos íntima e atenta. Ele abdica de sua precisão ocular e de seu instinto de momento de disparo, e tampouco se preocupa em economizar cartuchos, pois a máquina faz o seu serviço. Já o caçador com seu arco e suas flechas precisa poupar munições, deve estar mais atento e lançar sua flecha quando o disparo for realmente certeiro.

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Fotografar, além de um ato para o mundo, é uma experiência para quem a pratica. A fotografia analógica provoca no fotógrafo um estado de maior atenção, afetividade e precisão. Exige um estado de presença ao ato e à vida.

Quando fotografamos, fotografamos para que e para quem? Talvez estas não sejam as perguntas mais corretas, mas o ponto é que deve haver uma certa honestidade e atenção com a fotografia no seu ato de captura, este é o grande momento! O que se deseja dela, de fato? A fotografia proporciona uma experiência de relação com o mundo. Um fenômeno de conexão com o “agora” . Quando escolhi fotografar, pensei primeiramente em realizar esta prática por uma necessidade de registrar, documentar mais a minha vida e seus acontecimentos. Logo, a obsessão se tornou maior quando percebi que a fotografia me fazia ver melhor e ver através, me possibilitava um ordenamento de formas.

Hoje não consigo separar a fotografia da minha vida, é bem mais que uma profissão ou um hobby. É uma maneira de pensar e de se relacionar com o mundo, não de provar uma originalidade. É bom deixar claro que todos estes pensamentos são antes de afirmações, um compartilhamento de reflexões. Venho fotografando em diferentes projetos utilizando o digital e o analógico, os distintos formatos me proporcionam afetividades bem distintas, mas enfim, podem ser apenas devaneios realmente bem pessoais.

Foto: Henri Cartier-Bresson

Foto: Henri Cartier-Bresson

ps: Uma boa referência bibliográfica é o livro ” A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen” de Eugen Herrigel. Este livro, segundo a biografia de Cartier Bresson, “O Olhar do Século” mudou completamente a relação do fotógrafo com o ato da fotografia. Para Cartier, fotografar era uma oportunidade de esquecer de sí mesmo, esvaziar a mente.

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Texto por Danilo Christidis, diretor da Fluxo – Escola de Fotografia Expandida.

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