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Na Europa, o skate invadiu o palácio – por Pedro Sehbe

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

 

Em 2009 escolhi morar em uma cidade que nunca havia passado pela minha cabeça.  Com alma de surfista e espírito praieiro me tornei um estudante intercambista parisiense e esta experiência que era para ser breve se prolongou por dois excelentes anos da minha vida.

 

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Swell

 

Embarquei de sangue doce para um país cuja língua eu desconhecia e disposto a conviver com um povo estigmatizado pela antipatia e arrogância, mas que na verdade é exacerbadamente educado e acolhedor. A primeira parada da minha peripécia na terra dos melhores queijos e vinhos do mundo foi escolhida a dedo. Fiquei um mês em Biarritz estudando francês e é claro surfando.

 

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Biarritz

 

Passado esse rápido período de “adaptação” e com um francês ainda incipiente, era chegada a hora de começar uma rotina de estudante em Paris. No início foi difícil trocar minha vida fácil e já cercada de conhecidos, minha bicicleta e uma casa em frente a Cotê de Basque, místico berço do surf europeu, pela loucura de Paris. É… difícil talvez não seja a palavra mais adequada. Independente do mar, Paris é uma cidade encantadora e atrativa para qualquer “tribo” que esteja disposta a descobri-la e explora-la. E eu estava muito.

Na faculdade, diferente do que havia pensado, fui muito bem recebido. Mas, foi nos parques, na piscina pública onde nadava e nos bares que fiz meus grandes amigos parisienses. Todos francofones e por mera coincidência ou melhor, liga, adeptos do ski, do snow, surf ou skate. Com eles, vivi uma Paris que nunca pensei que existisse de fato. E foi lá mesmo, na Cidade Luz, que comecei a perceber a força e a influencia dos sports de glisse na cultura e no dia-a-dia dos franceses.

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Alps

 

Sports de glisse é toda modalidade esportiva onde se desliza com uma prancha. No mar, no rio, no asfalto, no gelo, no chão batido… Todo lugar é lugar e o mais bacana é que a França é abençoada por uma riqueza geográfica que permite a prática de todos eles. A população aproveita e tem acesso, mas este interesse não acaba por ai. A França que “desliza” é também a França que aprecia e valoriza a arte, a música, a expressão urbana e a sustentabilidade.

Após terminar minha faculdade, tive a sorte de poder voltar para Biarritz, agarrando uma oportunidade de trabalhar no marketing da Quiksilver Europa. Parecia um sonho: voltar para o país basco para trabalhar em umas das maiores empresas de esporte do mundo. Mas era realidade e lá estava eu, assistente de marketing de produtos e música para Roxy e Quiksilver. O escritório era na beira do mar, tinha um astral inacreditável e para completar, os intervalos eram regados a secções de surf com chefes e colegas.

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Mar em frente ao trabalho

 

Momentos de descontração a parte, discutia-se em clima agradável com pessoas de diversas nacionalidades, principalmente franceses, espanhóis, americanos e australianos sobre as estratégias de marketing para depois executa-las sob a forma de eventos, coleções especiais, ações de comunicação para o trade e para o público final.

Viver esta experiência me fez entender melhor tudo o que permeia a influência social exercida pelas grandes marcas deste segmento. Como empresas, entendi que elas se sentem responsáveis e se preocupam em estabelecer junto ao seu público, uma cultura que esteja em sintonia com os seus valores e sua filosofia e que isto ultrapassa a simples prática da modalidade esportiva ou a moda e o estilo de vestir. Por ser o país que sedia os headquarters da grande maioria das marcas esportivas que atuam no continente, como Rip Curl, Oneill, Volcom, Quiksilver, DC Shoes, entre outras, acredito que o poder e a influência destas empresas se potencializam. O que é positivo e acaba por refletir e movimentar econômica e culturamente diversos outros setores ligados à indústria criativa. Lá o sport de glisse é sinônimo de uma cultura de vanguarda, e não  esta carregado de características pejorativas, como muitas vezes acontece em terras tupiniquins.

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Capbreton – Landes

A coisa é levada tão a séria no velho continente, que empresas de surf patrocinam ou apoiam DJ’s, fotógrafos, músicos, grafiteiros e buscam desenvolver o potencial artístico dos seus próprios atletas. Talento este, que quando descoberto é incentivado, materializado e é claro, monetizado em uma coleção especial de roupas, uma exposição ou o que quer que seja. Todas estas atitudes acabam por desenvolver a imagem da indústria como um todo.

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Ações sociais – Roxy Jam 

 

Um exemplo prático disto que estou falando é o Tony Hawk Tour, que percorreu diversas capitais europeias e em Paris ocorreu no Grand Palais. Este local que desde a famosa Exposição Universal ocorrida em 1900, recebe algumas das melhores exposições de arte do mundo, foi totalmente transformado em um grande palco da cultura do skate, com direito a construção da maior rampa indoor da Europa. Por 3 dias ocorreram ali demonstrações dos melhores skatistas do mundo, desfile de moda, shows, oficinas de grafite e muitas outras atrações culturais. É uma mentalidade muito interessante, onde qualquer campeonato é pensado a partir de um tripé, onde o esporte em si é coadjuvante, e esta fortemente associado a arte, a música e a cultura. Movimentos de abrangência social muito maior. Forma-se assim uma “tribo” reconhecidamente antenada.

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Tony Hawk show no Grand Palais

 

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Tony Hawk show – Pista montada dentro do Grand Palais.

A atuação destas marcas contempla também o domínio da sustentabilidade. Não entro no mérito da crescente utilização de materiais recicláveis e menos nocivos ao meio ambiente na  fabricação de roupas e acessórios. O que considero básico e acredito ser uma política global destas empresas. Estou falando de alimentação e de arquitetura.  Na Quiksilver, por exemplo, nas conferências de vendas, competições e nos refeitórios que servem quase 600 funcionários por dia, apenas comidas orgânicas são preparadas. No que tange a arquitetura, o projeto do headquarter da empresa na França, certamente ultrapassou qualquer padrão de exigência dos selos internacionais de sustentabilidade, virando notícia nacional e referência para diversos órgãos governamentais e privados. Somam-se a isto, diversas outras atitudes sociais e ambientais menores, mas não menos relevantes, que colaboram na disseminação de uma cultura rica em valores, entre os inúmeros seguidores e adeptos destes esportes.

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Escritório sede da Quiksilver na Europa – Foco total na sustentabilidade

 

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Sede europeia da Quiksilver. Colocando em prática os valores propagados

Enfim, as marcas transmitem o exemplo e mostram na prática, que a glisse é ainda maior que a emoção de dropar uma onda, descer uma montanha ou curtir uma pista de street. É um estilo de vida que faz parte do uma cultura pulsante, engajada e influente. Como consequência, elas estão fortalecendo e desenvolvendo sua própria indústria, tornando-a fervorosa, influente e lucrativa como em poucos lugares no mundo, talvez Austrália e Califórnia. Também estão colaborando de modo efetivo, para as mudanças que condizem com seus ideais de mundo.

Na Europa o skate saiu das ruas e literalmente invadiu o grande palácio. No Brasil, vejo que as coisas estão mudando lentamente. Mas ainda falta para conseguirmos explorar todo o potencial cultural e econômico dessa legião de surfistas e skatistas de capacidade criativa e transformadora. A verdadeira cultura do surf e do skate precisa por aqui também, ser mais bem aproveitada, reconhecida como um movimento maior e mais influente.

 

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Mas no país basco

 

Apenas para finalizar vale dizer que Biarritz fica no País Basco francês, há apenas 30 minutos de Hossegor (e sesus mundialmente conhecidos beachbreaks). Com uma cultura cosmopolita, um estilo de vida que faz qualquer californiano reviver os áureos anos 70, uma costa recortada e regada por muito point break, Biarritz é um canto estrategicamente localizado e muito privilegiado no mundo. Vale a visita.

Texto e fotos: por Pedro Sehbe

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