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MIMPI Film Festival

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Pelo terceiro ano seguido participamos da documentação do MIMPI Film Festival, dessa vez com edições em Porto Alegre (RS) e Rio de Janeiro (RJ). Conferimos e vivenciamos o festival in loco (literalmente) e esse vídeo é um pouco do que vimos. Abaixo um texto do nosso editor Lucas, coloca em palavras algumas impressões da bagaça toda.

 

MIMPI FILM FESTIVAL 2014 from Surfari on Vimeo.

 

Um dia. Um sonho. Alguns dias, alguns sonhos.
Não sou alguém de reclamar muito das coisas. Costumo tentar apreciar as coisas pelo que elas são, não criticar pelo que elas deveriam ter sido. Não é fácil. Como qualquer outra coisa na vida, é um exercício. Mas tem uma coisa que
frequentemente me incomoda. A incapacidade das pessoas de se encantarem.
Parece uma coisa besta, um pensamento à toa. No entanto, a capacidade de se
deixar surpreender com fatos, histórias e acontecimentos diz muito sobre o
mundo que vivemos e a sensação de decadência que às vezes sentimos abater
sobre nossa sociedade.
Vou te contar uma coisa que me surpreendeu recentemente. Daqui a pouco chego lá, deixe-me contextualizar um pouco mais o sentimento que descrevia. O cara que escreveu ‘O Mundo de Sofia’, Jostein Gaarder, diz que um filósofo é aquele que nunca perde a capacidade de se surpreender. Digamos assim, depois de adultos e calejados pela dureza mundana, é preciso algo tipo um elefante fazendo um rasante pela sala de estar para erguermos a sobrancelha em espanto. Casos mais corriqueiros disputam nossa atenção com outras milhares de informações.
Difícil ganhar relevância.
De qualquer forma, essa tal capacidade é a forma como mantemos viva uma
criança interior. Aquela chama de alegria que vai tornar mais difícil o trabalho do rancor e da amargura de se instaurar em nosso ser. É difícil, mas é um exercício. Frequentemente topamos com iniciativas muito interessantes, mas que por um detalhe ou outro despertam mais críticas do que elogios, ou que pela frequência perdem o frescor. Vou cortar o suspense e contar o que me surpreendeu recentemente.
MIMPI Film Festival.

Conheço essa história há três anos e ela segue me
incomodando, não no sentido pejorativo, ao contrário, me confronta, me mexe,
me tira o sossego. Embora tenha algumas sugestões pros nossos amigos da VOID e Jamur, é com ansiosa expectativa que aguardo os meses finais do ano, quando sei que vão ser reunidas figuras importantes do meio que trabalho e que no final do dia vai estar todo mundo dividindo uma gelada e contando história. Há três anos é isso que acontece, então o que mais poderia surpreender? Uma visita ao Rio de Janeiro. Desembarcamos junto com este estreante na ex capital federal e o que vimos foi a mescla de um bom ambiente com uma boa oportunidade. Ao me deparar com a estrutura montada na estrada do Joá, a primeira coisa que me surpreendeu foi: como ninguém tinha feito isso antes? E nessa cidade! O RJ é a capital brasileira do surf com praia – isso porque ninguém tira o título de Porto Alegre, exceto pelo fato de a cidade gaúcha não ter… praia – e ninguém tinha pensado nisso antes?
Bom, deixa pra lá.
Enquanto em Poa, os organizadores tem que penar pra continuar excedendo as
expectativas de ‘jovens cansados da mesmice’ (gosto dessa frase/slogan, mesmo
fazendo jabá de graça pra um suco saudável-fake), no RJ o caminho era diferente, era preciso convencer as pessoas de que aquele elefante na sala de estar realmente estava voando. Pelo visto, eles tiveram êxito, afinal, depois de dois dias de festival, no sábado, a lista de convidados quadruplicou e o medidor de trending topics do érrejota explodiu. Só se falava no MIMPI.
Pra nós provincianos, que não entendemos muito a dinâmica de grandes cidades, o RJ é beeem grande, mas o aparato criativo de cultura cosmopolita se concentra na Zona Sul. E a ZS carioca não é tão grande assim. Talvez esse é um dos motivos pelo qual ninguém tenha feito nada desse estilo por lá. E quando chegaram uns caras querendo fazer, a galera, surpreendentemente, ao invés de barrar, abriu a porta da frente. Provavelmente, eles pressentiram o que poderia estar sendo criado. A história. Uma história.
Enquanto o mundo gira em BPMs galopantes, costumamos esquecer que a
história, como a maioria de nossos professores com um pé tortinho pra esquerda nos ensinaram, está sendo escrita enquanto conversamos, tomamos uma cerveja gelada e flertamos com aquela luso-carioca que está assistindo o filme de um índio que surfa. Talvez essa parte não entre para o livro “História Geral do Brasil”, mas pode fazer a estrofe de um capítulo da “História do Surfe no Brasil”. E é isso que meu surpreso cérebro viu ser escrito entre os dias 06 e 09 de novembro, na cidade maravilha da beleza e do caos. Vi uma reunião em torno do audiovisual de surf e skate alçar voo e ganhar o mundo, levando com ele os
filmes, os criadores, uma parte da cidade e, também, pendurado por uma corda
no trem de pouso, cheio de tralha e uma missão, a minha empresa. Mesmo correndo o risco de parecer ingênuo, não vou me deter em dizer que o
MIMPI RJ foi um divisor de águas. O sarrafo foi erguido para muita gente. A casa do Joá agora sabe qual a dimensão que uma noitada pode ganhar. Os
organizadores sabem o que são capaz de construir. A cidade sabe o que é capaz de proporcionar. O surf sabe o que precisa estimular. Eu sei onde deveria estar com mais frequência.
De certa forma, o nível de estranhamento e surpresa dos que estiveram em
contato com esse evento foi tal qual se um elefante desse um 360º em torno do
Cristo. E com um mate topetudo enganchado no casco.

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