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Manifesto pelas Garotas do Surf

Nem tudo no universo do surfe é um mar azul ou expressão da liberdade, existe também um lado obscuro, com ambições capitais e conservadorismo machista. Neste sentido, quero levantar a bandeira das mulheres no surf e os percalços do machismo dentro e fora d’água. Pois vamos aos pontos:

Tela de Jay Alders. “Fairy Tails”

1. Equilíbrio _ Segura essa: em Genesis, livro sagrado Hebraico e Cristão, Deus descreve a vida como a união entre macho e fêmea, nada diferente das crenças orientais do Yin & Yang que falam de equilíbrio e complementariedade. Mas não estou aqui para falar de religião, muito menos de baboseiras que insultem a opção sexual das pessoas. O fato é que o ambiente excessivamente masculino traz desequilíbrios dentro e fora da água, visíveis em muitos pontos que vou falar em seguida.

2. Muito além do sexo _ O mainstream do surfe não entendeu nada do que ensinaram os inventores deste esporte. Tudo fica muito evidente no marketing que vem sensualizando as atletas do surf profissional feminino. Vale notar que existe uma associação entre surf e sensualidade muito mais antiga do que se imagina, sem maldade ou questão de gênero, parte reminiscente da cultura tribal, libertária, dos tempos em que homens e mulheres agiam conforme suas vontades, mediados pelas tradições e mitos polinésios[1]. Nesta visão essencial do surfe, mulher e homem são autônomos, a sensualidade é apenas um dos muitos aspectos de ambos os sexos. No entanto, hoje a mulher ainda é encarada, na praia ou no mar, como parte da paisagem, pouco valorizada pelo o que pensa ou faz, relegadas ao consumo masculino, complementar ao surfe. Quando surfistas profissionais precisam surfar muito bem e ainda serem modelos de beleza, me pergunto: what’a hell? Convenhamos, já temos provas muito mais que suficientes de que as mulheres são tão boas quanto (ou melhores que) qualquer homem. Tita TavaresMaya GabeiraLinda BensonLisa AndersenJody CoopersStephany GilmoreClarissa Moore e tantas outras vem mostrando há séculos que elas são lindas, inspiradoras, mas principalmente talentosas, calando a boca de qualquer machista de plantão, de formas que só elas sabem fazer.

3. Consumidoras e não produto de consumo _ As revistas de surfe cometem esta gafe histórica, demonstrando como este é um mundo voltado aos homens. Mulheres não são incluídas nas pautas como atletas e nem são respeitadas como consumidoras, ao invés disto são relegadas às sessões dedicadas às beldades da praia, em biquininhos e ângulos que só nós homens apreciamos. Que as mulheres são lindíssimas e adoramos contempla-las: computado, mas convenhamos, o mercado dominado por homens não está nem aí para o que elas pensam, gostam ou querem. As garotas deveriam no mínimo ser respeitadas como consumidoras. Meus amigos, caso queiram satisfazer uma mulher, parem de falar de si e experimente ouvi-las!

4. Evolução do esporte e novos rumos _ Voltamos para a água. As manobras do surfe tem tido evoluções sem precedentes, muito devido à melhoria dos equipamentos, mas principalmente a criatividade e preparo dos surfistas. Batidas, rasgadas, aéreos cada vez mais altos, tubos intermináveis e ondas gigantescas, muita coragem, ousadia, força e testosterona. O surfe contemporâneo é fantástico, mas para onde vamos? Qual a próxima fronteira? Arte, estilo, leveza, sensibilidade, inteligência, enfim, o olhar feminino ao esporte não compete com o masculino, mas completa e melhora. As mulheres são cobradas por surfar como homens, mas precisam de autonomia. Lembrem-se, surf não é só força, mas dança, balanço, ritmo e improvisação.

5. Respeito mútuo e o espírito aloha _ Como me cansa o crowd e a falta de respeito! Seja entre surfistas de pranchinhas, ou body board, longboard, Stand Up ou kite surf, o desrespeito as normas de convivência do esporte são constantes, principalmente no Brasil ou em mares com grupos de brasileiros. Ondas existem em quantidade interminável, são presentes de Netuno sem dono, mas todo mundo quer pegar mais ondas que o resto. Nós parecemos aquela criança mimada que rouba a tigela de pipoca na festinha, desperdiçando a maior parte para não dividir com os colegas. Quando estou no mar, disputando as ondas aos gritos, penso: gostaria que a mãe deste moleque tivesse aqui. Sim, seria ótimo ter uma senhorina, sentada num pranchão, ensinando gentilezas. Mulheres (não só gatinhas lindas) fazem muita falta! Alguém tem que ensinar respeito, acalmar a ansiedade, equilibrar a testosterona. A presença feminina pode ser a resposta da nossa avareza, o complemento à coragem e força masculina, o espírito aloha havaiano, de compaixão e camaradagem.

As mulheres surfistas são insurgentes, para os machos de plantão podem funcionar como uma verdadeira praga dos antigos polinésios, questionando nossa visão deturpada, de soberanos, donos das ondas, do mercado, dos lugares. Garotas, por favor, tomem seu espaço no mar, devolvam-nos a harmonia que tomamos da natureza, derrubem este império de machos mimados que criamos, em parte, para impressioná-las.

GIRLS POWER!

Por Guilherme Pallerosi
Editor do blog Madeira & Água.

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