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Lendas do Surf: Michael Peterson

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Um dos assuntos mais difíceis de se escrever é sobre pessoas que você nunca conheceu. Primeiro, porque você nunca ouviu as palavras e histórias da própria fonte; segundo, muitas vezes você não sabe se pode confiar no que falam sobre essa pessoa; terceiro, quanto mais antiga é a história mais difícil é para interpretar o contexto em que esse indivíduo vivia.

Assim acontece com a maioria dos personagens que marcaram a história do surf ao longo das gerações, com a dificuldade de que os protagonistas dos acontecimentos – e principais fontes de relatos históricos – que formaram a história do surf moderno, já começaram a abandonar a vida na Terra. Em 29 de março de 2012, uma das maiores figuras do surf nos anos 1970 pereceu, vítima de um fulminante ataque cardíaco.

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O cutback que marcou gerações. Frame: Alby Falzon – Morning of the Earth

De acordo com o jornalista australiano Nick Carroll, “criativamente, (Peterson) preencheu a lacuna entre os ícones da shortboard revolution Nat Young e Wayne Linch no final dos anos 1960 e as dinâmicas e performáticas estrelas dos anos 1980″. Assim, pode ser definido o calibre da influência de Michael no (in)consciente popular e profissional do surf, especialmente através da icônica foto do cutback que definiu gerações. Sua dominação nos anos de 1972 até 1977 foi tão grande, que à época superestrelas emergentes do surf australiano foram ofuscadas pelo estilo, velocidade e agressividade de Peterson. Nomes como Wayne “Rabbit” Bartholomew, Mark Richards, Peter Townend e Ian Cairns, entre outros.

Em 1972, Michael Peterson sagrou-se campeão nacional, e venceu todos os principais eventos realizados na Austrália até 1975 – isso mesmo, todos -, incluindo o Coca-Cola Surfabout em 1974 e o Bells Beach Easter Classic em três ocasiões consecutivas, de 1973 até 1975. Ainda assim, o pico de sua carreira chegaria na vitória do campeonato Stubbies Classic, realizado em Burleigh Heads, em 1977. Esse foi o pico. Após isso, só haveria descida para MP.

Talvez essa seja a grande história pela qual MP seja até hoje lembrado, a alternância entre a loucura e genialidade, a agressividade e a letargia, o sucesso e a reclusão. Isso começou quando, no início dos anos 1970, a polícia da Gold Coast realizara um excelente trabalho em erradicar a maconha das redondezas. O que se seguiu, no entanto, foi um violentíssimo e devastador surto de heroína, que “varreu” os surfistas das praias australianas. Rabbit recorda ter perdido doze amigos para overdoses.

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MP anunciado como o vencedor do Stubbies Classic em final contra Mark Richards, 1977. Foto: Dan Merkel

Tendo iniciado o uso em meados de 1974, em 1975 MP já estava se afundando na droga. O irmão, Tom Peterson (também um ex-usuário), recorda que a fobia de agulhas, provavelmente, fez com Michael nunca tivesse uma overdose, de modo que não conseguira inalar o suficiente para isso. Com esse declínio, MP, que provavelmente já sofria com surtos psicóticos, foi ficando cada vez mais recluso e anti-social. Uma história conhecida, mas nunca comentada por ele, foi quando, ao ser chamado para receber o troféu de campeão em Bells Beach, Michael se escondeu em uns arbustos longe da mira do público e dos flashs.

Após a histórica vitória no Stubbies Classic de 1977 – o primeiro campeonato a se valer do formato de confrontos homem-a-homem – em que venceu Mark Richards na final, Michael foi fotografado num momento que definiria seu estado físico e mental à época. Recostado na parede do lado de fora dos banheiros públicos de Burleigh Heads, Michael é o retrato do esgotamento. Frágil. Acuado.

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MP após receber o troféu do Stubbies em Burleigh Heads, 1977. Foto: Hugh McLeod.

MP ainda seria vítima – de certa forma – de um último episódio que faria matéria de capa em jornais e telejornais. Já em 1983, enquanto dormia numa parada da estrada que o levaria à Noosa Heads, acordou sobressaltado pelo barulho de sirenes da polícia. Não percebendo que os policiais tomavam, na verdade, o caminho contrário ao dele, MP disparou o mais rápido que pôde. A “fuga” se tornou uma perseguição de proporções hollywoodianas com mais de 20 viaturas, um pedestre quase atropelado e, após 160 km em alta velocidade, um bloqueio na principal ponte de Brisbane. Seu carro foi revirado mas tudo que encontraram foi um tubo de vitamina C. Já era tarde, MP havia sido diagnosticado com esquizofrenia.

Drogas, fama, timidez, doenças psiquiátricas. Um caso estereotípico que os holofotes do sucesso insistem em expor. Seja MP, Amy Winehouse, Ian Curtis… Isso aumenta o mito, vende revistas e, em última instância, se torna um círculo vicioso para aquele está sob a mira.

Ainda assim, o mito de MP permanece – e permanecerá – vivo não pela loucura, pelos escândalos, mas sim pelo cutback, pelo estilo polido e voraz, pelos tubos profundos. Pelo que ele criou, não pelo que ele se tornou.

R.I.P. Michael Peterson (24/09/1952 – 29/03/2012).

Texto e pesquisa por Lucas Zuch.

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