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Ironias do estilo de vida dos surfistas

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Foto: Chris Burkard

Pois é, a Terra gira, as coisas mudam, e um dia nos reencontramos com antigas convicções.

Uma coisa que eu aprendi foi que a imagem dos surfistas oscila entre o alienado e o alternativo. Comecei a observar esta variação faz tempo, ainda adolescente, cursando o ensino médio, quando um professor fez um exercício em sala de aula: devíamos eleger alguma atividade que gostássemos e em seguida fazer um debate criticando a escolha do colega. Finalmente tínhamos que escrever uma redação argumentando as críticas dos colegas e defendendo nossa escolha. Muito além de uma aula de redação, aquilo foi uma lição de vida, pois o professor nos ajudava a ponderar as críticas e assumir posições dentro de contextos. Na ocasião, tive de rebater o estereótipo de alienado, maconheiro, rebelde e vagabundo do surfista. Qual o significado dos nossos estereótipos?

Não lembro se os argumentos de décadas atrás eram bons, mas nunca parei de escrever aquela redação. Recentemente, quando escutei o depoimento de Arduino Colassandi, um dos pioneiros do surfe no Brasil nos anos 50 e 60, novamente a luz se acendeu. Ele  afirmou que os surfistas da sua época já tinham a fama de vagabundos, mas isto não os afetava, pelo contrário, orgulhavam-se de ter dado a volta na sociedade. As palavras de Arduíno são dignas de muito respeito, não somente pela idade, mas suas experiências de vida e história como um legitimo “homem do mar”. O depoimento do veterano é um tiro certeiro, que traz uma reflexão muito pertinente aos dias de hoje, pois o estigma vem mudando e passa ser referência em estilo de vida. Saímos do alienado e voltamos ao alternativo.

Bem, talvez este grupo não pareça tão alternativo, pois o surfwear é um estilo consolidado, um mercado que gira entre os grandes da indústria da moda. Muito além, temos uma infinidade de produtos associados a imagem do surfe; são carros, acessórios, destinos de viagem, alimentos e tantos outros insumos voltados a um público simpatizante. Mesmo sendo difícil encontrar um número confiável de praticantes do surfe, a ASP [ii] fala de aproximadamente 23 milhões de surfistas no mundo. Este número é muito expressivo em termos de mercado, levando-se em consideração que aproximadamente 10% dos consumidores de surfwear e outros artigos ligados ao esporte sejam surfistas de fato. Mas os praticantes fiéis do esporte, incluindo-se as muitas modalidades do surfe, aqueles com uma visão de mundo e que se dedicam a um estilo de vida próprio, são um grupo mais seleto. Estes surfistas não se dão conta, mas hoje são considerados trend sellers pelo mercado, isto é, servem como referência para muitas pessoas que não praticam o esporte.

Parece que temos um fenômeno interessante, um número crescente de pessoas se identifica com os signos do nobre esporte havaiano. Tanto as boas referências como os estereótipos do surfista têm a mesma origem, com significados diferentes. Esta é uma história que remete os primeiros contatos dos europeus nos arquipélagos polinésios, em especial, no Havaí. Aos olhos daqueles povos tribais, o trabalho é apenas um dos muitos elementos da existência humana, prestando-se a produzir precisamente os insumos necessários. Existia um valor muito especial no ócio, o tempo medido era pela luminosidade do dia, pela lua e pelas marés, e isto possibilitou àquele povo se expandir de forma saudável, com muita contemplação a natureza, dedicação a vida comunitária e celebração a vida.

A visão de mundo daqueles surfistas ancestrais não parece o oposto da vida frenética dos nossos tempos? Na era dos relacionamentos virtuais, da falta de tempo e das cidades inviáveis, os valores tribais passam a ser muito admirados. Mas também, provavelmente desta mesma visão de mundo vem a fama de vagabundo e maconheiro (este ultimo também possui estigmas muito questionáveis).

Hoje, sabemos que o surfe ocupava uma posição de destaque naquela cultura ancestral, relacionando-se com a pesca, as fases do mar, festividades, lazer, política e outras facetas da vida. Mas para os nossos antepassados ocidentais, aquilo tudo era uma pouca vergonha, primitiva, coisa de moleques alienados. Aliás, o surfe representava tudo o que os colonizadores protestantes achavam uma afronta, como a sexualidade livre dos nativos, a mania de usar pouca roupa, as cantigas e tudo o que vinha da cultura pagã. Logo, o surfe se tornou também sinônimo de rebeldia, insolência e a libertinagem.

O comportamento dos surfistas continuou colocando na balança o mainstream da vida moderna e os antigos valores de uma vida simples durante todo o século XX. Por mais que o mercado massifique a imagem do esporte, o contato com o mar e as raízes ancestrais dão uma percepção diferente ao cotidiano. Ironicamente, hoje vivemos uma alienação política generalizada, enquanto os surfistas se tornam referência de comportamento. O diferencial deste grupo são opiniões pautadas em um estilo de vida que é, de fato, uma alternativa flexível, resiliente. Mesmo que os surfistas sejam apáticos politicamente e não levantem bandeiras, este é um grupo com uma visão de mundo diferenciada, que toca diversos temas, como o desenvolvimento urbano, questões ambientais, posições quanto a descriminalização das drogas e tantos outros.

Como disse o velho lobo do mar, sempre buscando dar a volta na sociedade, o estilo de vida dos surfistas é uma simbiose entre o novo e o ancestral.

Texto: Guilherme Pallerosi

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