Surfari | Guess the Spot apresenta: Baleal, Portugal Guess the Spot apresenta: Baleal, Portugal | Surfari

Guess the Spot apresenta: Baleal, Portugal

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Portugal, país historicamente rico se tratando de cultura marítima. A começar pela escola naval portuguesa, responsável pela colonização de diversos países, inclusive o nosso.

Essa ligação com o mar é consequência da vasta costa de fronteira com o Oceano Atlântico, indo do extremo sul do país em Cabo de São Vicente, até o extremo norte na região de Viana do Castelo. Porém, é entre estas duas regiões que está a nata do litoral do português, nos permitindo pular muitos séculos de história, vamos direto para os anos 50.

Assim como em muitos países europeus, a história do surf em Portugal começou no final de década de 50, de forma tímida, com alguns praticantes, entre eles o percursor do surf no país, Pedro Martins de Lima, que em entrevista para o portal Surfing Portugal, contou um pouco a respeito de sua história no esporte com pranchas.

%name %title

Pedro Martins de Lima. Foto: cm-cascais.pt

SurfingPortugal.com  Como era este desporto naquela altura?

P.L. – Em Portugal, no início da década de 50, não havia informação e muito menos material de surf. Eu continuava fazendo o meu bodyboard ‘’intuitivo’’ (em 1948 começara também a fazer caça submarina) e não havia mais ninguém a praticar, na linha do Estoril e Guincho, Ericeira e Peniche, para onde ia mergulhar. Em 1956 comprei uma prancha oca, de madeira, com 3 metros. mas que não tinha fin, num importador de material de desporto, que era chamada ‘’prancha de natação’’cuja finalidade era, de facto, remar deitado sobre ela. Levei-a para a Praia do Abano para finalmente me pôr em pé nela, tal como eu vira o Duke na revista, mas era impossível conseguir o take off pois sem fin, (que eu nem sequer sabia que era necessário), a prancha atravessava-se imediatamente na onda e eu caía. Só em 1959, soube que o surf chegara à Europa, a Biarritz, e que havia uma fábrica – a Barland  que já as produzia. Assim no regresso duma estadia de ski nos Pirinéus, consegui comprar finalmente a minha primeira prancha de surf, com 10 pés de comprimento, 23” de largura e 16 kg de peso e com um fin!  Tive de voltar a Biarritz para saber o que era necessário fazer para não escorregar na prancha e cair, cada vez que me punha em pé. Um surfista americano, solitário, que encontrei na Plage des Anglais fez luz no meu espírito, quando à minha pergunta me disse ‘’man get a piece of wax’’ e me estendeu uma placa de parafina e ele próprio a espalhou no deck da minha prancha, mostrando como se fazia, com a solidariedade bem própria da época. Nesse momento, com um sol radioso e um mar glassy com ondas de metro, consegui fazer o meu primeiro ride em pé, e experimentar a grande alegria que esse simples acto nos traz! Após cerca de nove anos anos a surfar sozinho em Portugal e com idas a Biarritz e a La Barre que tinha grandes ondas e alguns locais e alguns americanos que vinham da base aérea de Frankfurt, fui aprendendo a sair com grandes ondas, a fazer bottom turns radicais, e a atrasar na onda para entubar. Em 1967 e 1968 tinha já alguns amigos portugueses que começaram a surfar comigo, e a encontrar ingleses e americanos que iniciavam a exploração das nossas ondas. Com esse amistoso convívio, foi-se melhorando a técnica e obtendo a capacidade para surfar grandes ondas. Com a repressão das autoridades que durante o Verão dificultavam a saída para o mar em dias com ondas, a ponto de ter sido preso várias vezes ao regressar a terra, só conseguindo resolver o problema porque os banheiros intercediam por mim, mencionando que eu já tinha salvo vários banhistas em dificuldades, comecei a procurar praias selvagens na costa do sudoeste, e a ir para Marrocos. Quando escrevi o primeiro artigo sobre surf na imprensa portuguesa, em 1969, no Século Ilustrado, o surf era desconhecido ainda, e quando afirmei que seria um desporto que acabaria por ser muito divulgado em Portugal, houve leitores que escreveram dizendo que Portugal não tinha ondas para surf…

Com o passar das décadas, a cultura surf na terra do bacalhau se enraizou, e hoje, percorrendo a costa do país, fica fácil perceber as muitas cidades típicas “surf cities”, com o turismo local voltado ao esporte e muitas escolas ensinando turistas que anualmente viajam para o país com o objetivo de aprender a surfar.

O Surfari já esteve presente nesta cultura, através de Eduardo Linhares da Silva, que descreveu:

“De ônibus, a uma hora para o norte de Lisboa, encontra-se a península que se estabelece as cidades de Peniche, Baleal e Conceição. A cultura de surf no local é impressionantemente rica e pode-se perceber isso por sua diversidade. Pude conversar com um grupo de europeus que aproveitavam suas férias para aprender a surfar, hospedados e auxiliados por um dos vários surf clubs instalados na baía de Baleal.”

%name %title

Baleal. Foto: Eduardo Linhares da Silva

Baleal é uma cidadezinha que fica 5 km ao norte de Peniche (famosa pela onda de Supertubos), e possui este nome devido a grande caça de baleias ocorrida na idade média. Devido a sua posição geograficamente privilegiada, recebe consistentes swells, proporcionando ondas para iniciantes, e também seções como Lagide.

%name %title

Considerada uma das melhores ondas da costa portuguesa, Lagide é uma seção de reef break, que proporciona longas e consistentes esquerdas àqueles que não se importam com o crowd.

Direção da ondulação: Noroeste/Oeste.

Direção do vento: Sudoeste/Sul/Sudeste/Leste.

Melhor época para o surf: outubro à maio.

Traje apropriado: Full suit no inverno (long john 4.3mm ou mais grosso, touca, luvas e botas); long john 3.2mm no verão.


Texto: Cássio Cappellari

Instagram