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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Quem ainda não conhece a história de Timothy Leary, recomendo conhecer. Quem ainda não conhece a história de Steve Pezman, recomendo da mesma forma.

Respectivamente, um foi professor de faculdade, escritor e psicólogo, que ficou conhecido pelos polêmicos experimentos com seus alunos utilizando drogas psicodélicas. O outro, é um surfista californiano, shaper, escritor e, também, conhecido como o fundador da The Surfer’s Journal.

Entre os anos 60 e 70, a disseminação da contracultura nos Estados Unidos fez com que grande parte da juventude da época se revoltasse contra o sistema (e, consequentemente, o governo) conservador e armamentista. Timothy Leary surgia como uma espécie de guru, através de discursos que pregavam a liberdade, a espiritualidade e o uso de Ácido Lisérgico (LSD). Para alguns, um herói. Para outros, um vilão.

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R.I.P. Timothy Leary, 1920 – 1996.

Durante a mesma época, principalmente ao longo da costa da Califórnia, a cultura surf se propagava com a mesma premissa de liberdade. Com diferentes valores e princípios, os surfistas eram vistos como uma tribo isolada da sociedade tradicional. Admiração de alguns, julgamento de outros.

Steve Pezman era um desses não-conformistas-fissurados-por-ondas, que, ainda nos anos 60, se tornou escritor de artigos de surf.

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Steve Pezman ainda pega suas ondas por aí. Fonte: liquidsaltmag.com

O destino destas duas grandes figuras se cruzou em 1976, quando Steve Pezman conversou com Timothy Leary a respeito dos surfistas e do significado do surf. As respostas continham uma grande profundidade e espiritualidade, e foram expostas no filme ‘Glass Love’, dirigido por Andrew Kidman.

Abaixo você lê a transcrição da conversa, parte da introdução do filme, relembrada por Pezman.

“Timothy Leary enxergava os surfistas como seres à frente da humanidade, à frente da escória da humanidade, à frente das irresponsáveis autoridades da humanidade.

Ele descreveu o maior destino do homem na Terra, como a forma de existência no universo, evoluindo para um estado puramente estético. Esse era o objetivo, o maior objetivo que o homem poderia atingir como uma espécie.

Historicamente, o homem evoluiu ao construir cidades-estado ao redor de morros, pela proteção; próximos ao rio, pelo comércio; e tentava armazenar o máximo de coisas que ele precisava comer naquele dia, e quanto mais coisas ele conseguia armazenar, mais bem sucedido ele era como pessoa.

Bom… Leary falou que tudo isso era uma falsa divindade, uma falsa razão para viver… que realmente a dança era tudo, que os surfistas tinham descoberto isso antes de qualquer outra tribo na Terra; e eram o exemplo de homens a serem seguidos.

Ele falou que os surfistas eram o perfeito exemplo do “esteja aqui agora”. Dentro de um tubo, onde você está vivendo para aquele exato instante do tempo contínuo, onde o tubo está quebrando sobre sua cabeça, o seu rastro é criado e desaparece na parte de trás da onda, suas pegadas são lavadas pela areia; e isso é estar totalmente em sintonia com onde você está naquele instante.

Não é sobre onde você vai estar, ou onde você tem ido, é sobre onde você está a cada instante. Os surfistas vivem para isso.

E então eles desenham suas vidas em torno do surf o máximo que eles puderem, que é, de certo modo, o maior nível de realização que o homem pode alcançar em sua vida no planeta.

E se você acredita nisso, você tem que trabalhar para alcançar isso, para conduzir o ser a esse objetivo, você não pode simplesmente descansar e passivamente deixar outras pessoas carregarem o desafio e lutar por isso.

Você tem que na verdade ser um proponente disso, ser um defensor firme desta ideia, e trabalhar duro para tentar levar o homem para aquele lugar.

Então eu comecei a enxergar a humanidade como uma tribo, cujo objetivo, cuja participação na totalidade da ordem social, era de carregar aquela mensagem, de conversar a respeito da importância de manter a interface entre a terra e o oceano, e ajudar pessoas a perceber que a vida que não é tanto sobre a aquisição de bens materiais, quanto é (ou deveria ser) sobre a dança.

A minha conversa com Leary reiterou que estava tudo certo em ser um surfista e passar a vida toda atrás das ondas, aproveitando as ondas. E até mesmo enquanto eu envelheço e o jeito que eu surfo começar a atrofiar, minha mente começa a assumir o controle sobre o meu corpo, enquanto meu corpo enfraquece, o conjunto total do esforço continua 100% igual. Então, mesmo que a minha experiência ao estar no mar se torne mais simplista, o prazer que eu sinto surfando e a recompensa que eu tiro disso ainda é plena, e completamente válida de se experienciar.”

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Confira abaixo o trecho original do filme:

“Leary saw surfers as the throwaheads of mankind, versus the dregs of mankind, versus the irresponsible scepter of mankind.

And he described the highest destiny of man on earth, as a form of existence in the universe, as evolving towards a purely aesthetic state, that was the goal, the highest possible goal that man could obtain as a species.

Historically, man had evolved around building city states on the bluff, for protection; next to the river, for commerce; and was trying to store more acorns than he needed to eat that day, and the more acorns he could store the more successful he was as a person.

Well Leary said that was all a false diety, a false reason for living.

That really the dance was everything.

And that surfers had discovered this before any other tribe on earth and that they were the living example of man to be emulated.

He said surfers were the perfect example of ‘be here now’. The tube ride in which you’re living for that exact instant on the continuum of time, where the tube is folding over your head; your wake is being, is disappearing into the back of the wave, your footprints are washed from the sand…that it’s totally about being where you are at that instant.

It’s not about where you’re gonna be; or where you’ve been, it’s about where you are as each instant unfolds, and that surfers live for that.

And that they designed their lives around having it as much as they can and that that was, in a sense, the highest level of attainment that men can seek in his life on earth.

And if you believed in that, you have to work to make it, to lead men to that goal, you couldn’t just lay back and passively let other people carry the challenge and fight for that; you had to actually be a proponent of it and be a firm advocate of it, and work hard to try an lead men to that place.

And so I began to see mankind as a tribe, who’s goal, who’s participation in the total social order, was to carry that message.

And to talk about the importance of maintaining the interface between the land and the ocean.

And helping people to realize that life is not about acquisition of wealth so much, as it is was about the dance.

Because of the conversation with Leary, it kinda reaffirmed me that was ok to be a surfer and spend your life seeking the ride and having the ride. And even as I grow older and the way I ride becomes atrophied, as my mind kinda takes over from my body, as my body falls away, the sum total of the effort still equals 100%. So even as my experience in the water becomes simplified the joy I get from it and the reward I get from it still whole and round and fully worth having.”

Introdução: Cássio Cappellari

Tradução e edição: Lucas Zuch e Cássio Cappellari

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