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Filme Review ‘Pegadas Salgadas’

Surfari
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Sexta-feira, 22 de junho, 21 horas. Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Data e local da primeira exibição nacional do surf documentário Pegadas Salgadas, escrito, produzido, dirigido e editado pelo carioca Luciano Burin.

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Auditório cheio para a estreia nacional do filme ‘Pegadas Salgadas’.

Conseguira chegar cedo ao campus e minha primeira visão foi boa. Um número considerável de pessoas circulava e, em meio à música ao vivo e cheiro de pipocas, foi apenas ao entrar no salão principal que entendi onde estava. Até assimilar que me encontrava na noite de encerramento do 16 º Florianópolis Audiovisual Mercosul, minha atenção seletiva tinha computado apenas o fato de que iria assistir ao primeiro filme de surf em uma tela de cinema, desde a última vez que assistira Surf Adventures.

Para minha grata surpresa, minha noite havia, automaticamente, se tornado mais interessante quando me dei conta que um filme de surf iria encerrar um festival de cinema. Festival este que exibiu produções latino americanas, distribuiu premiações – aproximadamente R$ 250 mil – apresentou fóruns, estandes e outras formas de interação cultural.

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Cultura musical fortemente presente no Florianópolis Audiovisual Mercosul.

Após algum tempo de aclimatação, fomos para o auditório – eu e minha namorada, que não surfa, por sinal – e, após assistir a entrega de prêmios do festival, estávamos ansiosos para a exibição. Nós e os outros 1.200 espectadores. A cena inicial exprime o conteúdo que está por vir – 76 minutos de depoimentos e imagens sobre a capital de Santa Catarina – em dois minutos e meio. É uma introdução para assuntos nunca vistos em tela grande. Surf e economia. Surf e turismo. Surf e desenvolvimento. A história, que dispensa narradores, é contada a partir da visão de surfistas de todos os tipos. Repórteres, profissionais, fotógrafos, artistas e empresários, todos entusiastas e moradores de Floripa.

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O diretor Luciano Burin (de preto, ao centro) entre amigos e entrevistados. Da esq. para a dir.: Roberto Lima, Máurio Borges, Zeno Brito, Xandi Fontes e amigo.

Inusitado como possa parecer, a película é composta por não mais do que 20 minutos de surf propriamente dito. Não faz falta. O esporte está tão incrustado no enredo de todos envolvidos que seria redundante apresentá-lo em demasia.

O filme não tem pudor para tratar de tabus como localismo, pescadores vs surfistas, especulação imobiliária, drogas e a ditadura das triquilhas. Ao tratar destes temas relativos ao desenvolvimento da ilha sob o ponto de vista dos surfistas, vejo que seria interessante abordar um outro assunto polêmico que passou um pouco ileso em meio a todo entusiasmo. O surf como agente de alienação. Não é segredo para ninguém que qualquer atividade excessivamente praticada pode atrapalhar outros aspectos da vida. Quando se trata de algo tão prazeroso quanto surfar, é ainda mais fácil de se alienar na questão. Porém, nada significativo o suficiente para diminuir a empreitada realizada por Burin.

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Binho Nunes. Foto: Divulgação.

Aliás, provavelmente aí reside o maior mérito do filme, a epopeia do diretor. Vencedor de um edital de incentivo à cultura em 2009, Luciano conseguiu a façanha de transformar um orçamento de curta em um longa metragem – usando um pouco de investimento próprio, é verdade. A coragem e determinação para fazer (quase) tudo sozinho elevam Burin a um nível destacado de realizadores independentes. O resultado é um documento histórico, social e de entretenimento que transcende a audiência exclusivamente surfística.

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Fábio Gouveia. Foto: Divulgação.

Espero que a repercussão positiva chame a atenção de quem tem o poder de arcar com uma exibição de tela grande, pois o público – sem mencionar o próprio diretor – merece a oportunidade de assistir algo relacionado ao surf que não seja apenas caras bronzeados, aéreos estratosféricos e paisagens internacionais.

Trailer de Pegadas Salgadas

Texto por Lucas Zuch.

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