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A Escolha da Primeira Prancha de Surf

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Poucos momentos são tão determinantes na vida de um surfista quanto a escolha de sua primeira prancha. É ali, no instante em que um iniciante decide por sua própria ferramenta de expressão nas ondas, que a evolução do aspirante a surfista ganha impulso, ou, infelizmente, em muitos casos, torna-se uma barreira difícil de ser superada.

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Quem não conhece alguém que já tenha se aventurado na arte de surfar, mas acabou desistindo por achar a atividade muito complexa e exaustiva? Os motivos para desistir incluem a falta de condicionamento físico, a pouca intimidade com o mar, ou as condições muito radicais das ondas em um determinado local. No entanto, a escolha do equipamento é um detalhe fundamental que acaba muitas vezes esquecido por um iniciante, ao enfrentar o processo de seleção natural imposto pelo surf.

Quem teve a sorte de se iniciar no surf ainda criança, pegando onda de jacaré, com pranchas emprestadas de um irmão mais velho, ou mesmo absorvendo os valiosos ensinamentos de uma escolinha de surf, acaba sendo guiado por algum praticante mais experiente na escolha de seu primeiro artefato flutuante.

A armadilha inicial mais comum é a de entrar numa loja de surfwear e pedir uma prancha igual ao do surfista profissional que o garoto viu na revista. “Os iniciantes vão numa loja de surf e não encontram vendedores capacitados para indicar o equipamento adequado”, observa o shaper Henry Lelot, presidente da Sociedade Brasileira de Shapers (SBS) e um dos maiores conhecedores de pranchas no país.

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Peso, altura e agilidade são as características fundamentais no aspecto físico que envolve a escolha da prancha. “Estabilidade é a palavra-chave para qualquer iniciante, não importa quais forem as suas características pessoais. Assim, a prancha deve ser larga e grossa para facilitar o aprendizado do movimento de ficar em pé, que é tudo no surf”, resume o respeitado Beto Santos com mais de três décadas de atuação como shaper profissional.

Ao partir para as primeiras remadas, os desafios certamente não são poucos e a seleção do local e do equipamento adequado para as condições do mar oferece novas e importantes variáveis: “Dentro da água tudo se mexe: a prancha, a onda, o surfista, não tem nada fixo, nada que você possa ter certeza que vai ser igual em qualquer outro dia ou hora. Isso com certeza é que faz do nosso esporte único e incomparável”, analisa Joca Secco, shaper da Wetworks, a maior fabricante nacional de pranchas de surf.

Como em quase todas as atividades da vida, uma boa base servirá para uma evolução consistente a ser levada adiante. Os shapers entrevistados são unânimes em especificar o uso de funboards para a iniciação no surf em praticantes de qualquer idade e os longboards para os mais pesados. “Os funboards são ágeis e possuem flutuação para até 100 kg, ideal para o surfista descobrir qual estilo que irá seguir futuramente” afirma o experiente Cláudio Pastor, reconhecido como um dos maiores shapers de fun e longboards do Brasil.

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Uma percepção equivocada muito comum entre os aspirantes a surfista é rejeitar estas pranchas grandes e pesadas por achar que elas vão dificultar os seus movimentos dentro da água: “Um iniciante precisa de uma prancha que faça tudo sozinha e não exija demais dos seus movimentos sobre ela”, explica Lelot, alertando para os vícios de postura e movimentos causados pelo uso de uma prancha pequena demais, como algo muito difícil de ser corrigido no futuro.

Outra armadilha comum é a tentação de adquirir aquela prancha de segunda mão (e muitas vezes de terceira qualidade) para descobrir se a pessoa “leva jeito” no esporte para ai sim investir em algo melhor: “A evolução tecnológica trouxe um grau de precisão maior no trabalho dos shapers e isso se traduz na possibilidade de fazer pranchas ainda mais específicas às necessidades individuais de cada um, o que favorece muito o surfista iniciante” afirma Lelot, defendendo a fabricação costumada desde o início.

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Nesse contexto, incluem-se as pretensões e objetivos de cada praticante: tornar-se um surfista profissional, ser um bom surfista jovem ou com mais idade, surfar apenas nos finais de semana ou mesmo surfar ocasionalmente, sem uma regularidade ou compromisso com o esporte: “Conforme o perfil de cada praticante, o shaper deve sempre procurar avaliar o nível técnico atual do surfista e o seu ritmo de evolução”, acredita Joca.

Hoje as possibilidades de escolha são muitas, do surf radical de competição ao estilo clássico do longboard, passando pelo stand-up- paddle e o tow-in. Seja qual for o perfil, um surfista iniciante deve começar a surfar apenas em busca de entretenimento, para só depois levar a atividade mais a sério: “Funboard, como o próprio nome já diz é o tipo de prancha que permite se divertir com o surf desde sempre”, atesta Beto Santos, que no litoral fluminense indica as praias de Geribá, Praia do Forte e o meio da Barra da Tijuca em dias de ondas calmas, como os melhores points para os iniciantes darem suas primeiras caídas.

À medida que o surfista vai evoluindo, ele pode começar a encarar ondas mais pesadas, reduzir as dimensões da prancha e experimentar novos modelos, passando a entender melhor a diferença de desempenho proporcionado por diferentes outlines, modelos de rabetas, além do posicionamento e opções de quilhas.

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“Para quem está mais ligado à diversão proporcionada pelo surf, testar diversos tipos de prancha é legal. Já para um perfil de surfista mais preocupado com a sua evolução, a tendência é ele começar a encomendar pranchas no mesmo estilo em busca de aprimorar a sua performance”, acredita Lelot. Ao público feminino, ele sugere pranchas mais estreitas e com quilhas laterais mais próximas entre si para facilitar a troca de borda, já que as mulheres geralmente possuem pés menores do que os homens.

Ao aprender a analisar as condições do mar, o surfista passa a perceber como um determinado modelo de prancha proporciona um surf mais divertido em ondas tubulares, mas não funciona tão bem em ondas cheias e assim por diante. “Em linhas gerais, um mar com ondas cavadas pede uma prancha com mais curva no fundo (rocker) para dar mais estabilidade, enquanto para ondas mais cheias você coloca menos curva para ganhar mais velocidade”, explica Pastor.

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Daí pra frente, as escolhas adquirem um caráter subjetivo de relacionamento pessoal com o ato de surfar, e as opções de modelos disponíveis são enormes, cada qual com suas características e funcionalidades. Um fenômeno interessante nos últimos tempos é o resgate dos modelos retrô, que se caracterizam por designs clássicos com bordas mais grossas e bastante flutuação, num surf que remete aos primórdios do esporte e ajuda a quebrar a ditadura dos modelos leves e finos de competição, que dominaram o desejo coletivo dos surfistas durante muitos anos.

O shaper de Florianópolis, Felipe Siebert vem conquistando muitos adeptos de seus modelos de pranchas clássicas feitas com madeira oca (hollow-wood), em sua maioria long e funboards, utilizadas para compor o quiver de surfistas mais experientes que descobriram o luxo e a funcionalidade de poder escolher a prancha certa para cada condição de mar e a disposição física e mental do dia. “Os iniciantes devem perder o preconceito com o longboard e perceber que ele pode ser o modelo ideal para curtir aquele meio metrinho de onda típico do verão”, afirma.

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E aos poucos, até os menos informados vão percebendo que aquele cara mais velho e pesado com um funboard pode estar se divertindo tanto ou mais do que o garoto acelerando a sua triquilha réplica do Kelly Slater em um dia de marolas.

Para quem não teve a oportunidade de ler a edição de outono da Revista Soul Surf, reproduzi o conteúdo de uma matéria de minha autoria, onde alguns dos principais shapers do Brasil oferecem dicas para a escolha correta da primeira prancha de surf.

Texto: Luciano Burin para a revista Revista Soul Surf

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