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Entrevista Nathan Oldfield: Homem de Família

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Minha admiração pelo australiano Nathan Oldfield é antiga, por conta do seu inspirador trabalho como produtor e diretor dos filmes independentes ‘Lines From A Poem’ e ‘Seaworthy, onde ele registra algumas das mais belas e genuínas representações audiovisuais do surf como forma de arte e filosofia de vida.

Mas esta é apenas uma das muitas facetas deste talentoso fotógrafo, shaper, professor e, sobretudo, dedicado pai de família. Um sujeito simples, ligado aos valores essenciais da vida em sua terra natal New South Wales, Nathan adora “fazer coisas” como forma de exercitar a sua liberdade criativa e demonstrar a sua paixão pelo surf. Em entrevista ao Surf & Cult, ele compartilha um pouco de sua história e visão de mundo.

 

 

Conte um pouco sobre os seus dois filmes: Lines From a Poem e Seaworthy. De que forma são semelhantes e diferentes um do outro?

Bem, Lines foi o meu primeiro filme, então a primeira coisa que vem à mente é que Seaworthy apresenta uma melhora muito grande em termos de valor da produção, trabalho de câmera e edição. Seaworthy é um filme bem mais redondo nesse sentido. E, claro, Lines é um filme sobre longboard tradicional, puramente um filme de registro, enquanto Seaworthy documenta uma gama mais ampla de equipamentos de surf.

Mas eu acho que existem semelhanças, também. Alguns surfistas aparecem em ambos os filmes: Dane Peterson, Alex Knost, Belinda Baggs, Tom Wegener. As partes de Tom em ambos os filmes, são praticamente parte da mesma viagem. Em Seaworthy, Tom basicamente retoma de onde parou em Lines From a Poem.

Em última análise, embora talvez, o tom ou a textura de ambos os filmes seja semelhante, pois ambos vêm do mesmo lugar: meu coração surfístico, é quase como se Lines fosse um estudo para Seaworthy, em retrospecto. Quem sabe, talvez Seaworthy também vai parecer um estudo para o próximo filme que estou trabalhando.

 

 

Você é ao mesmo tempo um cineasta, artista, shaper e homem dedicado à família. Como você se divide entre essas atividades? O que seria um dia perfeito e cotidiano na vida de Nathan Oldfield?

Ser um bom marido e um bom pai são meus principais objetivos na vida. Todo o resto é secundário, seja trabalhando como professor de escola em tempo integral, surfando ou fabricando coisas. Um dia perfeito envolve sempre tempo de qualidade em família, me conectando com minha esposa Eliza e nossos filhos em um sentido genuíno. Se eu puder encaixar algumas boas ondas em algum momento disso, então estarei ainda mais feliz.

A medida que nossos filhos foram ficando mais velhos, as atividades de fazer pranchas de surf, fotografias e filmes cada vez mais tiveram que ficar em segundo plano. É a época da vida que eu me encontro no momento. Eu adoraria poder dedicar mais tempo e energia para o cinema em particular, mas talvez seja uma coisa boa para meu próximo filme, ser obrigado a trabalhar mais lentamente e cuidadosamente, pedaço por pedaço. Eu só espero que as pessoas não desistam totalmente de mim nesse meio tempo!

 

 

Conte-nos sobre o seu filme mais recente e projetos de fotografia? Que tipo de equipamento que você está usando e com quais lugares e pessoas tem trabalhado?

Depois que eu terminei Seaworthy, Eliza e eu decidimos acrescentar mais uma criança para a nossa pequena família. Portanto, agora temos três filhos em casa, Noa, Blossom e River, e também a nossa filha Willow que está no céu. Então, ultimamente eu tenho desfrutado de uma pausa, concentrando-me em ter tempo para a família mais que tudo.

Mas eu também fiz algumas pranchas, fotografias e também alguns projetos de vídeos curtos para alguns amigos. Também estou constantemente coletando material para meu próximo filme. Eu fiz uma viagem com minha família para a Nova Zelândia no ano passado, e várias viagens perto de casa. Eu tenho conseguido contato com um monte de pessoas ao cinema, amigos antigos e novos. Eu ainda tenho muito mais filmagens para fazer e espero que eu poder dispor de tempo e dinheiro para viajar mais um pouco também.

Eu inicialmente fotografo com uma Canon HD, e também tenho feito experiências com um adaptador de 35mm, uma SLR HD e algumas lentes diferentes. É muito básico na verdade. Como cineasta, eu sou uma espécie de banda de um homem só, então eu não tenho um monte de equipamentos.

 

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The Heart & The Sea: Official Trailer from Nathan Oldfield on Vimeo.

 

Como em todo bom filme de surf, a música é um elemento essencial em sua obra. Como você trabalha com música na sua edição? O que vem primeiro, e como você costuma escolher uma música para um filme específico ou uma seqüência temática?

A música é sem dúvida fundamental nos meus filmes. Sinto a música em um lugar muito profundo, é uma verdadeira paixão. Imagino que muita gente se sinta da mesma forma. Eu realmente preciso sentir conexão com uma música para usá-la em um filme. É algo com o qual eu sofro um pouco mais: pesquisar o repertório e selecionar algumas músicas, decidindo o encaixe perfeito em termos do sentimento que estou procurando.

Geralmente eu costumo filmar primeiro e então combinar as imagens com a música. Mas houve ocasiões em que eu tinha uma música em mente, e tinha um conceito definido de como as imagens poderiam completar aquele trecho específico de uma música, e então eu saio para filmar imagens já com esse conceito em mente. Isso é realmente uma forma divertida de filmar, quando você está ouvindo uma canção em sua cabeça, imaginando o tom de uma seqüência especial, e verdadeiramente conseguindo capturá-lo com a câmera. Algumas das sequências em Seaworthy surgiram desse tipo de experiência.

 

 

Como você descreveria para um estrangeiro o lugar onde surfa e vive? Quais são os elementos mais característicos naturais e culturais que o tornam tão especial para você?

Eu realmente sinto que eu vivo em um dos lugares mais bonitos do mundo. Na parte específica da costa em que eu cresci e vivi, as praias são bastante curtas e rodeadas por costões de arenito. Temos muitos bons beachbreaks relativamente sem crowd, alguns points agradáveis, cheios de recifes fora do caminho, pequenas enseadas, ondas em parques nacionais que você exigem uma boa caminhada, uma variedade muito boa de breaks.

A outra coisa realmente boa é que pela costa ser tão cheia de reviravoltas e curvas, há geralmente em algum lugar próximo com vento terral. Há tantos cantos e recantos, que você pode sempre encontrar uma onda, independentemente do vento, se você souber o que está fazendo.

De certa forma eu acho que esse tipo de paisagem física acaba formatando a realidade social e cultural de onde eu moro. No lado positivo, há um monte de cidades à beira-mar que são realmente mais como aldeias, comunidades de pessoas que são muito ligados aos seus pequenos pedaços de terra e mar e uns aos outros. Quando você é uma parte dessa comunidade, isso te dá uma verdadeira sensação de pertencimento. O lado negativo de tudo isto, é claro, é que os estrangeiros podem se sentir excluídos, as comunidades podem ser muito fechadas e o localismo pode ser bastante intenso. Mas, geralmente, há uma sensação boa na água, na maioria dos picos que eu frequento. Eu me viro bem e geralmente conheço algumas pessoas na água, onde quer que eu vá. Há sempre alguém para partilhar um sorriso, um aceno, uma conversa, ou até mesmo uma rápida troca de pranchas, o que é sempre divertido.

Então, onde eu moro é um lugar especial. A água é limpa, o ambiente não está poluído, a maior parte do litoral é coberto por mata nativa saudável. Estive surfando nestes locais desde que eu tinha dez anos e muito do meu entendimento da vida está ligado à paisagem e ao mar nesta parte do mundo. Foi um presente crescer aqui, eu era capaz de correr através do mato para ir surfar todos os dias depois que eu saia da escola. Eu ainda me sinto muito grato por essas oportunidades que tive quando criança, e eu quero compartilhar esse presente com os meus próprios filhos.

 

 

A liberdade de expressão está explicita em todo o seu trabalho. Você concorda que este é o principal elemento que une o surf às outras formas de arte? Você acha que esta visão é devidamente partilhada pela comunidade do surf mundial?

Acho que meu trabalho definitivamente celebra a diversidade no surf. Eu tento explorar e documentar uma variedade de maneiras diferentes de apreciar o ato de andar nas ondas, porque é isso que tenho buscado fazer no meu surf desde que eu era jovem. Eu acho que o fato de que você poder surfar da maneira que bem desejar faz parte do apelo do surf. Surfar pode então se tornar uma forma de expressão pessoal, uma manifestação de quem você é. Nesse sentido, o surf pode ser arte.

O quanto essa visão é compartilhada pela comunidade de surf em geral é difícil dizer, mas eu posso definitivamente sentir que há uma maior liberdade de pensamento no surf atual. As pessoas estão cada vez mais abertas a experimentar pranchas diferentes, ideias diferentes e maneiras diferentes de ser um surfista.

 

 

Hoje em dia com a internet há tanta informação disponível que as pessoas simplesmente não parecem ter tempo para sentar e apreciar um filme. O formato de clipe musical de 3 minutos é o futuro dos filmes de surf?

De certa forma, é um momento assustador para ser um cineasta de surf. Há tanto conteúdo online gratuito que, de certa forma parece que os dias do filme de surf estão contados. As pessoas estão tão acostumados a ver coisas online de graça, que menos valor está sendo atribuído aos filmes de surf, seja para assisti-los em uma sala de exibição ou em um DVD em casa. Eu sei que este é um problema que está afetando muitos artistas, fotógrafos, músicos, escritores, cineastas.

Atualmente, o clipe cativante de três minutos é definitivamente o formato que mais está funcionando online, mas eu não acho que seja necessariamente o futuro. Adoro ver um filme bem editado com uma boa música, num formato atraente a curto, e eu gosto de produzir essas coisas também. Mas eu também gosto de preencher o meu trabalho com um pouco de narrativa. Eu vou ter sempre um elemento de história humana nos meus filmes, e espero que sempre haverá um público interessado nesta proposta.

 

 

O que você conhece sobre o Brasil e o nosso surf?

Eu nunca fui ao Brasil, mas sei que vocês sabem jogar um futebol bonito e certamente parece haver um monte de mulheres bonitas por aí! É claro que estou ciente de que há um monte de surfistas de classe mundial no Brasil e que tem havido uma presença brasileira no circuito mundial por um longo tempo. Eu sei que eles são apenas a ponta do iceberg e um testemunho de quão forte é a cultura surf em seu país.

Mas além de tudo isso, eu também estou ciente de que existe uma saudável subcultura do surf prosperando no Brasil, com pessoas como Jair Bortoleto, Felipe Siebert e um monte de outros, que apreciam o mesmo tipo de coisas mais alternativas como as que eu faço. Certamente gostaria de ir ao Brasil um dia para experimentar e documentar este lado das coisas, bem como experimentar algumas ondas do seu belo país.

 

 

Texto, entrevista e tradução por Luciano Burin, editor do Surf & Cult.

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