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Entrevista Filipe Hage

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Surfista de alma clássica. Defensor do surf dos anos 60, Filipe Hage, repensou os padrões de prancha das praias cariocas. Nadando contra a corrente, Hage inspirou-se nas pranchas antigas para criar a Hage Surfboards & Design, marca que inova nos formatos e cores de pranchas. Rafael Muniz, do Growp, em uma parceria com a Void, entrevistou  Filipe para saber como começou o interesse pelo esporte e pela arte de shapear. 

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Como começou sua relação com o Surf?

Costumo dizer que o surf nasceu comigo. Eu nunca tive influências. Nenhum parente e nem amigos próximos surfavam, mas quando ia à praia com meu pai a única coisa que me fazia ficar quieto era observar a galera surfando, então, quando tinha 6 anos de idade meu pai deu um jeito de me arrumar uma prancha de surf. Ainda era uma pranchinha, estilo foguetinho.

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Como descobriu sua capacidade para shapear?

Em 2002. Sempre gostei do caminho diferente da coisa. Não queria foguetes, eu queria surfar como nos tempos áureos do Surf. Fish, Longboards e pranchas alternativas. Ninguém fazia isso aqui no Rio. Precisava aprender a shapear as pranchas que eu queria surfar. O Kau (Shaper) teve papel fundamental nisso. Ele depositou em mim a confiança pra passar seus ensinamentos e a partir disso dependia de mim evoluir. Ele me disse uma frase que levo comigo até hoje: “Conhecimento foi feito pra passar adiante mas existem pessoas e pessoas que merecem receber.”. Hoje eu ensino o Tarso, o camarada da laminação que me ajuda muito aqui na Hage.

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Dificuldades?

Público para o tipo de pranchas que eu faço. De uns anos pra cá começou aqui no Brasil uma centelha desse movimento que está aflorando no surf. Uma pegada arte junto do vintage, oldschool. O nosso público aqui no brasil não tem cultura surf pra absorver isso em grande quantidade. Quando comecei a shapear longboards falavam que era coisa de velho. A única coisa que podia ser chamado de surf era prachinha.

Fiz minha primeira fish em 2003. Eu posso afirmar que quando eu fiz, ninguém fazia isso no Rio de Janeiro. As fish estavam extintas desde os anos 70. Quando eu cheguei com ela na praia todo mundo dizia: “ Que porra é essa?” “Estragou o bloco!”  “Quadriquilha? O Hage tá louco“. Resumindo, fui esculhambado.

Outra dificuldade enorme é a grana. Faço isso por que eu amo fazer pranchas. Mas todo mundo me olha e pensa: Loirinho, cabeludo, playboy. Ledo engano. Se eu não vender pranchas, não boto comida em casa. Não sou hobbysta. Penso muito no dinheiro para agregar ao meu projeto. Um bom material de marketing para divulgação do meu trabalho, investir na infra-estrutura da minha oficina, poder ter um estoque para pronta entrega. São detalhes que fazem muita diferença.

Hoje as redes sociais ajudam muito na minha divulgação. Mas lembro bem do tempo que fiz minha primeira fish. Laminava no mesmo lugar que o Daniel Friedman e quando ele viu minha fish ele virou para mim e falou que havia tempo que não via uma dessas. Tempos depois vi um camarada surfando com uma fish do Daniel na água e logo depois, um anúncio numa grande revista do Bernardo Pigmeu surfando com uma fish shapeada pelo Ricardo Martins. Aí fudeu. Saiu na revista, todos os que me chamaram de maluco estavam batendo na minha porta perguntando se eu tinha visto a fish que tinha saído na revista e querendo uma das minhas pranchas (isso eu chamo de o poder do marketing).

Fiquei puto. Mas feliz. Apesar de ter sido sempre taxado de louco por fazer pranchas alternativas, agora fazia sentido para as pessoas o valor daquilo que eu produzia. Para mim, esse foi o start das pranchas alternativas aqui no Brasil.

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Uma chance que não podia ser desperdiçada. Ela apareceu e eu fui. Fui com a intenção de não voltar. Acabei ficando 1 ano e meio por lá. Trabalhei como shaper e tive a oportunidade de ver e pegar com minhas próprias mãos pranchas do mundo inteiro. Califa, Hawaii, Europa, todos os cantos. Analisei cada detalhe e estudei se estava ou não na linha certa. Mike Hynson, Rich Pavel foram algumas pranchas que passaram pelas minhas mãos.

Quando voltei percebi que era hora de mudar. Voltei com a cabeça muito diferente. Mudei minha logo, mudei minha comunicação como marca, comecei a me atentar a detalhes que antes passavam despercebidos e passei a acreditar cada vez mais no que eu faço. Ainda penso em muitos desdobramentos para a Hage Surfboards & Design, mas vamos dar um passo de cada vez.

Hoje percebo que a sua geração (dos vinte e poucos anos) valoriza muito quem faz e o por que faz. Isso é crucial para o meu trabalho. É preciso sensibilidade pra tratar de surf clássico.

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Sua maior descoberta como shaper?

Descobri a fórmula da juventude. Basta uma pessoa encomendar uma prancha que ela se torna uma criança de novo. – “Alô Hage, já tá pronta a prancha? E agora já tá pronta? Tá pronta agora?” – . É incrível como as pessoas mudam depois que fazem o pedido. Mas isso tudo faz parte do processo e acho isso muito bom. Não sei o que faria se não fosse shaper. Tenho sorte.

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Introdução e entrevista Lucas Zuch

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