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Entre Cachoeiras e Praias

Não. Eu não vou falar onde fui. Apesar de ser um lugar bastante conhecido, ainda há belezas nesses locais que merecem ser preservadas. A única localização geográfica que vou lhe apresentar é a seguinte: eu estava na Bahia.

Rio no estado da Bahia

Os lugares por onde passei são “conhecidos”. Estes lugares foram desvendados por surfistas na década de 70, na eterna busca por uma boa aventura e algumas ondas perfeitas. Desde então, toda uma estrutura foi montada para que os turistas chegassem a um dos sítios baianos mais diversificados e belos. Lugares que misturam belezas naturais e belezas culturais. Durante a minha passagem, sempre pensei: “esse local é abençoado”. Sim, abençoado! Conheço muito pouco, mas tenho certeza que apenas alguns pontos no mundo misturam Rios com Praias, Água Doce com Água Salgada.

Bem, creio que você não percebeu o ser “conhecidos” entre aspas. Se percebeu, deve ter se perguntado: Qual o motivo das aspas?

Infelizmente, o turismo tende a quebrar tradições locais, tende a quebrar o respeito pela vida cotidiana, pelos costumes… Enfim, se inclina a romper tudo aquilo que estava estabelecido por longos e dedicados anos de construção da vida. Estes lugares, por onde passei, são “conhecidos”, pois a grande indústria do turismo fez questão de esquecer e favelizar comunidades tradicionais locais subjugando os seus costumes, tirando o seu espaço e os empurrando para os cantos desinteressantes. Os camaradas que estudam esse tipo de assunto, classificam esse turismo como predatório. O turismo predatório é aquele que valoriza apenas a beleza paisagística e esquece da beleza cultural que se mistura com aquela paisagem. O turismo predatório faz o turista pensar que aquele local é vazio de vida humana ou que aquela vida humana é desprovida de significado e importância. Esse tipo de turismo faz você tirar aquela bela foto da paisagem, guardar a lembrança para revelar e colocar na sua coleção de fotos.

É, nem pergunte. “Sobre o quê eu iria perguntar?”, você pode pensar. Nem pergunte a história das comunidades que estão por ali, os turistas desconhecem. Nem pergunte! Pois as pessoas pelas estradas vendendo caranguejos, mariscos, siri, rambutã, jambo, acerola, dendê e outros alimentos provindos da natureza, não existem para aqueles que passam de carro. As pessoas que pescam, plantam, são apenas “faveladas” para aqueles que transitam pelas estradas. Suas histórias são desconhecidas e sua vida cotidiana desvalorizada.

Estes lugares, no entanto, estão recheados de história. Não sei qual a quantidade de recheio que eu teria que pesar para você entender o leque de cultura, tradição e conhecimentos que existem por ali. Naqueles locais há comunidades. Comunidades quilombolas e não quilombolas. Comunidades como: Graciosa, Taperoá, Galeão, Baixinha, Engenhos da Cruz, Engenho do Meio, Kaonge… Ufa! Desculpe. Eu não vou conseguir nomear todas elas, isso daria mais 400 linhas.

Comunidades que sempre foram subjugadas, mas que  mantém raízes firmes na sua história. Suas festas, religiosidade, modos de produção, conhecimentos sobre a natureza e  a vida merecem o devido respeito e valorização.  O turismo predatório é tão forte que está fazendo essas comunidades perderem suas tradições e valorizarem o que vem de fora. Entretanto, ainda há aqueles que enxergam importância na sua identidade e ainda há aqueles que buscam fortalecer essas comunidades. Enfim, ainda há esperança que um dia você passe por esses locais e os conheçam verdadeiramente.

Bem, e o surf? É parceiro, o surf está bem aí nessa curva acima. Viajei em busca dessas ondas, mas infelizmente, elas não se apresentaram para mim. Não faz mal, ainda pude descer em boas esquerdas e direitas. Mas nada muito especial para o que o lugar oferece. Só lhe digo uma coisa: depois dessa curva, há havaizinhos, engenhocas e pé de serras que aguentam ondulações faraônicas. Eu não estava lá no momento certo, então não teve muito surf. Porém… houve momentos especiais de admiração e reflexão.

É, não teve muito surf. Contudo, aconteceram outros momentos especiais. A verdade é que como surfistas, temos que enxergar além das ondulações. Não havia muitas ondas, mas eu acabei descobrindo que… “Entre Cachoeiras e Praias” há muito mais que boas ondas! Há vidas que merecem respeito. Afinal, deixar a prancha “boiar” pode lhe trazer outros bons momentos…

Fotos e Texto Myron Paterson Neto.

 

 

 

 

 

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