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Encontrando o ouro além da Gold Coast

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Clássico.

Saímos de casa às 4 e meia da manhã pra tentar repetir a dose em Lennox e pegar algumas direitas sem ninguém na água. Abastecemos o carro no caminho e dirigimos aproximadamente 90km até o point localizado 15 minutos ao sul de Byron Bay. Por volta das 6 horas passávamos pela estradinha no topo do morro já avistando as ondas e tudo parecia se encaixar para mais um ótimo dia de surf. Entretanto, ao estacionar o carro e descer para olhar, nos deparamos com mais de 30 caras dividindo um único pico. Além disso, a onda estava gorda e fraca, dificultando ainda mais a situação.

Depois de pensar por um momento, decidimos arriscar uma ida até Broken Head, outro point break de direita entre próximo a Byron que poderia apresentar alguma condição de surf com menos crowd. Nossa esperança foi por água abaixo quando chegamos lá e as ondas não alcançavam nem meio metro. Olhamos para o lado esquerdo, em direção ao meio da longa praia que dá continuidade ao point, e vimos que o swell estava entrando mais limpo e com mais força. Dirigimos alguns poucos kms ao norte e estacionamos.

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Broken Head, Austrália

Caminhamos pela esteira que cruzava o mato e dava acesso a praia e saímos na areia ansiosos por ondas de qualidade. Quando olhamos a primeira série não tivemos dúvida. O swell de sul fazia com que as ondas abrissem tudo para direita sobre a bancada rasa de areia. As maiores, com cerca de um metro bem servido, ofereciam tubos generosos, ao passo que as menores abriam mais, possibilitando várias seções de manobras. O verdadeiro beach break clássico, e o melhor de tudo, sem ninguém por perto.

Filmei alguns takes antes de botar o long e correr pra água. Uma corrente fraca de sul me obrigou a caminhar um pouco antes de entrar para conseguir o posicionamento certo na bancada. A entrada foi facilitada pela corrente que jogava pra dentro, e uma vez lá fora, foi só diversão. O tubo rolava em quase todas as ondas e lembrava Kirra, mas com menos corrente e sem crowd. Contei 11 tubos secos ao longo da manhã, todos pra direita e apenas um registrado em vídeo. No mais fundo deles, dropei no ar em uma das maiores do dia e consegui cavar no limite, botando pra dentro no último segundo. Encaixei no trilho e atrasei o máximo possível. Saí seco na baforada e ainda mandei um cutback antes da onda acabar. Uma das melhores ondas da minha vida.

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Quando saímos da água eu não conseguia achar palavras pra descrever o que tinha se passado lá dentro, no outside. Tubos, muitos deles, azuis ou de areia, perfeitos. Com toda certeza posso dizer que surfo apenas pra ter manhãs como essa.

Morrendo de fome, tocamos pra Byron Bay atrás de alguma coisa pra comer. Acabamos no bom e velho Subway. Byron é uma cidade pequena e muito tranquila, com uma galera jovem e alternativa. Trata-se de um cabo que se estende adentro do oceano, proporcionando ondas de todos os lados dependendo do swell. O comércio existe, mas o trânsito lento nas ruas estreitas e o estilo de vida no local acabam numa mistura de Gramado, Garopaba, e vida rural, com altas ondas.

Saímos de lá direto pra Brunswick Head, mais ao norte, já no caminho pra casa. Eu tinha conhecido esse pico na primeira vez que vim à Austrália, e achei que por ser menos frequentado poderíamos dar sorte de pegar altas sem ninguém, mais uma vez. Em Brunswick existe um canal delimitado por dois molhes altos de pedras. Em ambos os lados desse canal, existem praias. À direita, um pico semelhante aos Molhes de Torres. Na esquerda, uma direita que se estende por uma baía até chegar ao beach break da beira.

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Escolhemos atravessar o canal e arriscar na direita do lado oposto. De longe a onda parecia fraquíssima, sem chances de surf de qualidade, mas uma vez lá dentro as séries começaram a entrar cada vez maiores. Fizemos a cabeça em direitas de meio metrão muito manobráveis. Comentei com o Perna que tivemos a sorte de poder tirar tubos pela manhã e depois encontrar uma onda oferecendo um surf totalmente diferente, especial para manobras.

Netuno ainda nos pregou uma peça antes de fechar o dia. A medida em que começamos a pegar várias ondas, reparamos na enorme quantidade de água-vivas boiando pelo pico. De repente, começaram a aparecer mais e mais, até que em certo ponto, ao pegar uma onda, pude avistar pelo menos 20 delas reunidas em um “cardume” que mais parecia um peixe azul enorme. Sentíamos como se estivéssemos remando em um pote de sagu azul, e mesmo não tendo havido nenhuma queimadura séria, ficamos receosos.

No carro de volta à Burleigh, não havia como expressar “how stoked we were”. Eu estava destruído de tanto remar, mas com muitas imagens azuis na memória e o coração tranquilo.

Nunca ouvi alguém dizer que foi surfar e se arrependeu. Por pior que estejam as ondas, mesmo ouvindo alguns “ah, estava uma merda”, nunca ouvi um “me arrependi de ter ido”. E existe uma diferença aí.

Se arrepender é o último recurso do sujeito. É o que se faz quando não há mais o que fazer, pois o pior já foi feito. Percebi que nunca alguém vai se arrepender de ir surfar. Seja pela energia, pelo mar, pela natureza, pelo exercício, pela companhia, pelo sol, pelo lugar ou até pelo bronzeado (para os veranistas), surfar SEMPRE vale a pena. E procurar ondas perfeitas por aí também. Talvez o único perigo seja a frustração, quando a expectativa supera a realidade e não percebemos o quanto somos abençoados simplesmente por poder estar dentro d’água, remando e ficando de pé na prancha.

A busca.

 

Texto por Iki Escopelli

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