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Diário de Bordo III de Salvador até Morro de São Paulo.

Texto por Márcio Torres

Foi uma longa espera, desde o final de agosto do ano passado não remávamos. O mês de setembro entrou e decidimos dar um tempo, organizar as ideias e compreender melhor a dimensão que queríamos dar para a LEMURIAN EXPEDITION – I – REMANDO DE SALVADOR AO RIO DE JANEIRO.

É fato que todo período “sabático” é uma oportunidade e tanto para rever conceitos e os nossos foram revisados profundamente. As duas últimas expedições – Itaparica e Maragogipe – foram fundamentais, pois produzimos filmes amadores que serviram como inspiração.

Através da parceria com a HARPIA, empresa do videomaker Cícero Spínola, encontramos outra dimensão e uma linha para profissionalizar nosso trabalho.

Estive no Morro de São Paulo em setembro do ano passado e conheci Stephane e Xanda através do meu amigo de infância Sandro Poeira. Casal muito simpático e proprietários do lindo Hotel Portaló.

Posicionado acima da muralha de fortificação histórica do Morro de São Paulo, cresce magnificamente por dentro da Mata Atlântica, com chalés e varandas viradas para o mar, é realmente de tirar o fôlego. Buscava um patrocinador para a expedição de Salvador ao Morro e após nos reunirmos, fechamos o acordo. O Hotel Portaló entraria também como co-patrocinador da expedição ao Rio de Janeiro e nos daria todo o suporte necessário daí pra frente.

Esperamos o verão para a realização dessa etapa, pois o sol estaria no auge e o mar cristalino, nos oferecendo os melhores ingredientes para a realização do filme. Nesse período dialoguei inúmeras vezes por telefone com Cícero Spínola e com muitas ideias novas, o projeto cresceu.

Às vésperas do dia 16 deste mês, fiz contato com a Ilha Bella Turismo, responsável por viagens de lancha e catamarã entre Salvador e o Morro. Fui muito bem recebido por Arlete que imediatamente aprovou nosso projeto, nos oferecendo o translado da equipe de filmagem para o Morro e garantindo o retorno de todos com os caiaques para Salvador.

O dia que antecedeu nossa partida foi bem difícil, muitas tarefas na minha loja ficaram acumuladas dentre outras atividades e só fui dormir depois da meia noite. Hamiltinho foi dormir cedo, mas como de costume, em função da sua insônia e ansiedade, não dormiu quase nada. Ainda assim, às 4 horas estávamos despertos, peguei minha bagagem, soquei de qualquer jeito no porta-malas do carro e fui ao encontro de Hamiltinho.

Thaty dirigia enquanto conversávamos sobre o que teríamos pela frente. A maior ansiedade era em função do preparo físico, que a esta altura não era bom. Durante quatro meses só trabalhei, não dei nem uma corridinha na praia, muito menos remei ou fiz algum treinamento específico. Hamílton vinha fazendo musculação há mais de seis meses, porém teve uma forte virose que durou uns oito dias, o deixando muito debilitado.

Chegando ao Porto da Barra descarregamos, descemos os equipamentos para a praia, organizamos tudo, nos despedimos de Thaty e partimos às 6h em ponto. Era nossa primeira vez juntos no mar aberto e rumamos nossas proas numa diagonal longa até a ponta da praia de Aratuba na Ilha de Itaparica, quando nos aproximaríamos novamente da costa.

Após três horas de navegação, demos uma paradinha e lanchamos em alto-mar, suco de uva em caixinha com biscoitos e barras de cereal. Sempre levamos os lanches do dia dentro dos nossos cockpits pra facilitar, assim como água também.

Renovados, seguimos adiante, ultrapassando cargueiros que ancorados esperavam vaga no porto de Salvador. Pra passar o tempo conversávamos sobre a origem desses navios, seus nomes, suas dimensões, o que deveriam transportar, sobre os peixes-voadores que em cardumes se batiam em massa nas nossas embarcações, as tartarugas e tudo o que nos chamasse a atenção. Mais duro que a fadiga para quem rema em alto mar sem um referencial imediato de distância é a mente que se cansa facilmente com a mesma paisagem.

O mar se apresentava de “almirante”, liso, azul e espelhado e às vezes ao olhar para o lado via o reflexo do meu parceiro registrado no brilho do oceano. Por diversas vezes comentei em voz alta sobre a beleza daquele momento. À medida que o sol subia o calor aumentava significativamente e lá pelas dez e meia da manhã, já próximos de Aratuba, sentimos o sol escaldante apertar nossas mentes. Miramos uma ponta de praia pouco antes de Caixa Pregos, próximo de onde acampei na viagem de circunavegação da Ilha de Itaparica.

Já na areia da praia aproveitamos para alongar o corpo, um pouco dolorido e desgastado após quatro horas e meia de viagem ininterrupta. Dez minutos depois estávamos novamente na água remando o último trecho do nosso primeiro dia e logo avistamos Caixa-pregos e mais adiante os bancos de areia branca da Ponta do Garcez.

O mar pequeno de verão e o vento leste de través não criaram dificuldades, a própria maré de enchente também nos empurrava para nosso destino e ao meio dia chegamos. Lembrei-me da minha viagem em solitário pela Ilha de Itaparica e de quando passei por Caixa-pregos.

O mar de inverno e com ondas grandes me trouxe enorme dificuldade no mesmo percurso e a maré de vazante com água saindo do canal quase não me permitiu que eu passasse dali. Comentei com Hamiltinho sobre esse detalhe e como era importante boas condições de tempo e mar para o êxito de muitos projetos.

 

Muitos nomes tentaram chegar ao Polo Sul, Shackleton naufragou com seu navio, o Endurance, esmagado por banquisas de gelo, mas conseguiu salvar sua tripulação após uma longa e heróica viagem de sobrevivência. Scott não teve a mesma sorte, até atingiu o Polo Sul, porém morreu no caminho de volta.

Quem triunfou e levou o titulo da conquista foi Roald Amundsen, um grande capitão e planejador norueguês. O fato é que todos eles citam em seus diários sobre a sorte ou azar em relação às condições climáticas as quais foram submetidos, sabiam que dependiam disso para o êxito.

No nosso caso, se escolhêssemos dias de ondulação grande e de sul, dificilmente conseguiríamos chegar ao nosso destino, pois com vento contra, ondulação grande e um mar mexido e de “ressaca” o risco de acidente ou desistência seriam enormes. Um bom planejamento e estudo de navegação ajuda muito, mas quem manda mesmo é a mãe natureza!

Os bancos de areia do Garcez são lindos, uma grande diversidade de fauna e flora e possuem em seu recorte muitas curvas, braços de mar, galhos e troncos de árvores estacionados na areia, que arrastados pela força da maré oferecem à paisagem cores e formas diversas.

Subimos os caiaques, almoçamos biscoitos de sal, sardinhas e suco de uva, tomamos um gostoso banho de mar e partimos na exploração do local. Trata-se de uma praia deserta, parte de uma fazenda de côcos. O único acesso para o turismo se dá através de Caixa-pregos, onde se pode fretar barcos até lá.

Um grupo havia montado uma cabana e lá estavam passando o dia. Não fosse por isso, estaríamos sós no paraíso. Porém exatamente às 16h o grupo se debandou e a solidão nos trouxe ares poéticos. Em seguida o sol se pôs e seus últimos raios de luz pintaram o céu, findando maravilhosamente a arte, que nua, traduzia um conjunto mágico de elementos, coqueiros, mar, areia branca, pássaros cantores e brisa.

Mas como nem tudo se faz com flores, depois do entardecer vieram as “mutucas”, insetos que se parecem com “moscas”, mas que possuem uma picada ardida e muito dolorida. Enquanto conversávamos ao lado da barraca, foram chegando devagarzinho, uma, depois outra… “Porra, Hamiltinho, tem umas mutucas aqui”. “É, filho, tem nada não, só umas picadinhas…”, disse ele.

E vieram mais, e mais e mais, logo estávamos correndo pela praia, pulando e nos debatendo como loucos. “Corre pra barraca, Hamiltinho!”.

Um enxame de mutucas nos perseguia como nos desenhos da Disney. Pulamos rapidamente pra dentro da barraca e aguardamos pelo anoitecer. Ainda vimos a lua cheia nascendo no mar azulando em tons marinhos o ambiente, além de um brilho infinito que sucedia por trás de um coqueiro solitário que se erguia por dentro da mata e atrás do nosso acampamento.

Lá pelas 20h nos recolhemos e apaguei num sono profundo. Acordei pela madrugada me queixando de ardência por todo o corpo, uma coceira que não tinha fim. Liguei a lanterna e pude ver boa parte do meu corpo empolado, acho que efeito colateral das picadas das mutucas. Abrimos as janelas da barraca e o frescor do vento que passou a circular dissipou pouco a pouco meu incômodo e adormeci nos braços de “Éolo”.

Capítulo – II – “Terra à vista”

No dia seguinte, as 04h em ponto estávamos de pé. Ainda era noite quando desmontamos o acampamento e nos primeiros sinais de luz nos lançamos ao mar. Passamos ao largo da Ponta do Garcez, remando bem por fora, pois pequenas ondas arrebentavam contra o banco de areia e geravam forte correnteza e um mar chacoalhado. Por quase um quilômetro enfrentamos essa turbulência até que o mar se acalmou e seguimos adiante percorrendo os quase vinte quilômetros de praia até a desembocadura do rio Jequiriçá.

Enquanto remávamos, muitas recordações vieram em minha mente, é que em 2005 fiz todo esse percurso a pé, entre a Ponta do Garcez e a Baía de Camamu. Sentia-me parte daquele “habitat”, muito confortável, pois agora concluía por mar meu ciclo de expedições por aquela praia selvagem.

O mar se apresentava marrom, balançado e encrespado, uma leve brisa leste soprava no nosso través e a pouca luminosidade somada a esses elementos faziam um ambiente sinistro. Não fosse o conhecimento sobre o lugar e nossa fé no que estávamos fazendo, poderia dizer que até sentiríamos um pouco de medo.

E assim remamos forte, nos mantendo em média há cinco quilômetros da costa, avistamos a barra do Jequiriçá, depois o Taquary, o Guaibim, fui mostrando para Hamiltinho cada parte da região que tanto me ensinou na infância e adolescência, minhas praias queridas, de tantos momentos marcantes e saudosos.
Sou um Valenciano por escolha, na verdade nasci em Feira de Santana. Porém, ainda de colo, meus pais me levaram para Aracajú e depois Salvador.

Aos nove anos fui morar em Nazaré das Farinhas, onde aprendi sobre as matas, os rios e a pesca. Pouco depois fixei residência em Valença, cidade central de toda a Costa do Dendê. Foi nesta cidade que aprendi a ser homem, a amar o mar, onde casei e fiz meus melhores amigos. Aos quinze anos retornei a Salvador, mas aí a cultura desse lugar já estava na minha corrente sanguínea, no meu DNA.

Não preciso me alongar sobre a emoção que senti ao percorrer aquele oceano, pouco falei com meu parceiro, que num dado momento se queixou do meu silêncio. “Torres, vamos conversar filho, assim a viagem fica cansativa”. “Puxe assunto aí, Hamiltinho, tava aqui em outro planeta”, respondi.

Ao passar pelas mediações do Guaibimzinho, traçamos uma reta até o Morro de São Paulo, que lentamente foi se aproximando. Uma simples mancha enevoada e distante logo se tornou uma magnífica ilha esverdeada de Mata Atlântica. “Terra à vistaaaaa!”, gritou meu companheiro, acho que ele sempre sonhou em fazer isso. Não vou mentir que eu também.

Olhei no GPS e vi que apesar de próximos, ainda estávamos há seis quilômetros do paraíso. Daí pra frente foi uma guerra cotra a maré, que de vazante nos empurrava para trás, forçando nossas musculaturas e desgastando nossas mentes. O sol ardia, o calor quase insuportável minava e cada quilômetro era comemorado.

Avistamos o “Forte” e o píer, com muitos barcos ancorados e uma grande movimentação náutica, de lanchas de passeios, barcos de transporte, de pesca, etc. Passamos por baixo do píer e ancoramos na prainha em frente ao Portaló, nosso hotel. Alguns amigos nos saudaram na chegada, fato que tornou nosso momento mais que especial.

Muito legal chegar e encontrá-los. Sandro Poeira desceu até a praia e nos cumprimentou. Encontramos também meu amigo Bada, pescador e liderança do Morro de São Paulo, pai de Dinho e Odinei, amigos antigos da região. Nossos cinegrafistas Cícero Spínola e Rafael Argollo também estavam a postos, registrando em diversos ângulos a nossa chegada. Subimos para o hotel e fomos recebidos com um baldinho de cerveja gelada na beira da piscina.

O que sucedeu depois disso foi uma série de mimos por parte dos nossos anfitriões, comandados por Stephane e Xanda. Pratos maravilhosos servidos pelo “Chefe” do hotel “Saidinho”, também meu amigo de infância, que nos mostrou as maravilhas da culinária internacional e local, sempre com originalidade e romantismo.

Devo registrar o empenho de todos os funcionários, sempre sorridentes e dispostos a nos oferecer a melhor estadia. Ainda tivemos uma lancha de apoio, fundamental para que explorássemos a ilha e pudéssemos produzir as melhores imagens.

Obrigado Morro de São Paulo, Hotel Portaló, Ilha bela Turismo, Harpia Imagens Aéreas, Gênesis Filmes e todos os parceiros que nos acompanham. Concluímos aqui uma etapa e entregamos ao Universo nossos sonhos. Que sejam ampliados, levados pelo vento e conduzam nossas proas ao além…

 

Acesse o site da expedição – Lemurian Expedition.

Fotos Harpia e Márcio Torres.

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