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Dados e Informações sobre Mercado do Surf

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

O capítulo ‘Dados e Informações sobre o Mercado de Surf’ encontra-se abaixo da introdução a seguir, se quiser ir direto ao ponto apenas role o mouse para baixo.

Introdução.

Terminar algo. Começamos novas jornadas e empreitadas quase todos os dias, mas… quantas coisas podemos contar que, de fato, concluímos? É, realmente, muito mais fácil ver qualquer coisa sendo iniciada – um #projeto, uma dieta, um texto – do que sendo levada a cabo. Escrevo essa constatação desprovido de julgamentos, sendo eu mesmo um recorrente protelador.

Um pouco mais de dois anos atrás, porém, consegui finalizar uma das tarefas mais árduas e complexas que já encarei. Terminei minha faculdade. Para quem goza de um bom nível social, tal feito é quase uma obrigação para quem “quer ter um bom emprego e vencer na vida” no Brasil. Ter um canudo na mão, de fato, não mudou significativamente a minha vida, mas meu último objetivo antes de obtê-lo, sim.

Propus a mim mesmo, que faria um trabalho de conclusão de curso (popularmente conhecido pela sigla TCC) excelente, a nota 10 era a meta. Nada fácil. Com o tema que havia escolhido, qual é o estilo de vida e como se comportam os surfistas da cidade onde moro (Porto Alegre (RS)), o prognóstico apenas se complicou. Uma das únicas pessoas na faculdade a botar fé foi a minha orientadora, Liliane Rohde (valeu Lili!), e foi dada a largada.

Mergulhei, então, no mundo do surf de uma forma diferente da que estava habituado. Agora tinha que provar para quadrados catedráticos que o esporte merecia sua preciosa atenção e que eu poderia chegar a uma conclusão que fosse relevante para a sociedade, o mercado e as pessoas. Não foi fácil, mas consegui a nota 10. Depois de praticamente um ano e meio de pesquisa, entreguei nas mãos da banca um material que me orgulhava, que tinha sido escrito por mim, que tinha a minha identidade impressa.

Depois que criamos o Surfari, eu e o Duda, e demos nosso primeiro “Olá, muito prazer!” ao mercado na forma do filme ‘Reconhecendo o Surf’, muitas pessoas pediram o trabalho que havia baseado o vídeo. Sem vaidade alguma, mandei o trabalho para todos que solicitaram. Mas, como nunca publiquei o trabalho na web, acho que é meu dever dividir o conhecimento adquirido com todo mundo que necessita de informações sobre o mercado do surf, tão escassas e pulverizadas.

Bem, quanto à minha experiência em terminar algo… digo que é uma das coisas mais gratificantes que se pode ter na vida. Fiz dessa experiência o alicerce principal do Surfari, cujo sucesso é a minha meta de vida. O detalhe, é que a conclusão desse projeto só vai chegar quando estes dedos que aqui escrevem descansarem em paz. Ainda bem!

Dados e Informações sobre o Mercado do Surf.

Retirado do Trabalho de Conclusão de Curso “O Perfil Psicográfico dos Surfistas de Porto Alegre”, escrito por Lucas Zuch, para o curso de Administração da ESPM-SUL (2011).

Neste subcapítulo são abordadas as principais características do mercado de surf e sua relevância no desempenho econômico de pessoas, marcas e locais. Espera-se esclarecer, a partir de fontes confiáveis, como Kampion (2003), Warshaw (2003 e 2010), Borte (2009) e Cavenaugh (2010), o dimensionamento atual do mercado, sua composição, faturamento e principais peculiaridades. Inicialmente, porém, são observados aspectos sobre a chamada cultura surf, estilo de vida e o comportamento dos surfistas.

Devido ao fato de as principais bibliografias sobre a cultura surf estarem disponíveis apenas em inglês, as citações foram livremente traduzidas pelo autor reproduzindo a cópia original. Inicialmente, Kampion (2003) defende que o surf foi descoberto pela civilização ocidental em 1778 pelo capitão da Marinha Real Britânica James Cook, quando sua tripulação atravessava o norte do oceano Pacífico no caminho de volta à Europa. A primeira impressão, ao avistar nativos surfando nus em tábuas de madeira, é descrita por Cook apud. Kampion (2003): “era impossível não concluir que aquele homem sentia o mais supremo prazer enquanto era guiado tão rápido e tão suavemente pelo mar”. Após o primeiro contato, os colonizadores seguiram, como na maioria das colônias europeias, um processo de exploração e catequização que acabaria por matar estimados 400.000 nativos havaianos, resultando em menos de 40.000 sobreviventes.

Ainda Kampion (2003) afirma que os missionários consideraram o surf imoral e, portanto, baniram a prática da cultura havaiana, o que alijou o esporte por mais de um século. Borte (2009) conta que apenas no início do século XX, através do nadador e campeão olímpico Duke Kahanamoku, é que o mundo voltou a ouvir falar do surf. Medalhista de ouro nos 100m livre em Estocolmo (1912) e na Bélgica (1920), Duke era um completo watermen e tinha um carisma poucas vezes reproduzido no esporte. Por tratar-se de um campeão e de um cavalheiro, Kahanamoku virou o embaixador mundial do surf, difundindo a prática que, conforme justificava, era a fonte de sua performance atlética. A figura 8, que segue, expõe uma das tantas demonstrações de Duke pelo mundo.

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Duke Kahanamoku durante uma de suas exibições na Austrália. Fonte: Kampion (2003).

Dentre as muitas pessoas inspiradas pelas apresentações de Duke nos Estados Unidos nas décadas de 1910 e 1920, encontrava-se Tom Blake, um jovem do interior de Wisconsin que mudaria o surf para sempre. Blake começou a produzir suas próprias pranchas, inspirado nos antigos modelos havaianos expostos no Bishop Museum em Honolulu. Aplicando técnicas próprias na fabricação, Blake chegou a um produto final que era infinitamente mais leve, moderno e manobrável do que tudo que havia sido confeccionado até então. Em 1928, Blake trouxe suas pranchas para a Califórnia onde, em um dos primeiros campeonatos de surf noticiados, na praia de Corona del Mar, surfou com tal agilidade e maestria que chocou os 10.000 expectadores ali presentes (KAMPION, 2000).

Inspirada por Duke Kahanamoku e habilitada à prática do esporte graças à inovação de Tom Blake, que se tornaria o primeiro fabricante de pranchas do qual se tem notícia, a Califórnia foi um dos primeiros focos do que viria a se tornar a cultura surf no modo que se conhece hoje. Na década de 1930 havia um grupo de jovens vivendo uma espécie de comunidade inspirada no estilo de vida havaiano habitando a praia de San Onofre, no Condado de San Diego. Esses surfistas, que acampavam no local por semanas, desenvolveram sua própria cultura. Tocavam ukuleles (antigo violão havaiano), usavam saias de palha e chapéus de folha de palmeira. O principal rito de passagem desses surfistas era viajar para o Hawaii, lugar místico de onde vinham as histórias e lendas contadas entre eles de forma oral. As aventuras indicavam, com certo romantismo, as rudimentares viagens e mostravam o surfista como uma pessoa que vivia fora dos limites da sociedade tradicional. Tendo em vista que a busca por ondas era incompatível com um modelo de carreira comum, imagem essa, por vezes, verdadeira (KAMPION, 2003).

Aproximadamente durante o mesmo período de tempo, outro foco de comunidade foi se desenvolvendo na praia de Malibu, no Condado de Los Angeles. Enquanto em San Onofre eram celebradas as raízes havaianas, Malibu era destinada a se tornar o palco principal de uma faceta mais criativa e inovadora, eventualmente dando à luz a uma era de marketing de massa e apelo do surf. Antigamente uma propriedade privada e situada perto de Hollywood, Malibu só era acessada por surfistas influentes e famosos, um aspecto que determinou as atenções à performance e atitude, dentro e fora d’água. Foi um dos momentos em que se estabeleceu a ideia de um surfista por onda, algo incomum anteriormente (KAMPION, 2003). Na sequência a figura 9 mostra um grupo de surfistas na praia de Malibu, nos anos 1950.

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Grupo de surfistas em Malibu – a garota no centro da foto é Kathy Koehner, a Gidget. Foto: Kampion (2003).

A principal conexão entre a cultura surf que estava emergindo em diferentes praias da Califórnia e a grande mídia aconteceu, também, na praia de Malibu. Após conhecer os principais surfistas da área, a estudante Kathy Koehner se apaixonou pelo surf, dedicando todo tempo livre a vida praiana e ao oceano. Depois de dois anos, nos quais ascendeu ao posto de “local” de Malibu e ganhou o apelido de Gidget, Kathy abandonou a praia para seguir os estudos universitários. No entanto, seu pai Frederick Koehner, um roteirista de filmes “B”, transformou em seriado algumas aventuras de Gidget. No ano de 1959 após comprar os direitos de Koehner, a Columbia Pictures lançou no mercado americano o filme Gidget – A Little Girl with Big Ideas. O sucesso instantâneo da película foi responsável por levar centenas de milhares de novos praticantes às praias da América (BORTE, 2000). O movimento iniciado pelo filme pode ser comparado a poucas manifestações culturais de massa vista antes. Heller (2010) cita:

“após alguns meses, uma América presa, ainda se recuperando da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, estava relaxando os ânimos provincianos, comprando biquínis, migrando em direção à praia em busca de diversão e tranquilidade. […] Madison Avenue (Nova York) foi rapidamente tomada de ação e fez dos surfistas os novos James Deans, rebeldes encharcados com corpos musculosos e uma inclinação a colocar a diversão sempre à frente do trabalho (HELLER, 2010, sp).”

Como resultado desse movimento cultural que emergia nas décadas de 1950 e 1960, principalmente, nos Estados Unidos, o surf foi unindo elementos à sua formação. As músicas utilizadas na sonografia dos filmes com melodias agitadas e marcantes foram um dos aspectos que se desenvolveram junto a essa formação cultural. Bruce Brown utilizou muito em seus filmes os solos de guitarra de Dick Dale, que viriam a influenciar a formação de inúmeros grupos rotulados sob o gênero surf music. O maior ícone desse gênero surgiu na década de 1960, os californianos Beach Boys foram, por determinado tempo, os Beatles da América. A sua influência, juntamente com Gidget e Endless Summer, foram pilares centrais na formação da cultura surf (HELLER, 2000). O pôster do filme Endless Summer é exposto a seguir (figura 10).

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Pôster do filme Endless Summer lançado em 1964. Fonte: www.mostlyposters.com

Os filmes de surf, como Endless Summer, ajudaram a criar outro fator determinante no desenvolvimento e aglutinação de padrões da cultura surf, as revistas do gênero. A pioneira, a americana Surfer, impressa pela primeira vez em 1960, é mencionada como a “Bíblia do esporte”. Inicialmente concebida como um foto-livro, as primeiras 10 mil cópias, que acompanhavam o filme Surf Fever do artista e cineasta John Severson, esgotaram-se rapidamente. Severson antevendo uma boa oportunidade comercial lançou em 1961 a Surfer Quarterly, mas a grande demanda o fez mudar o formato para seis edições ao ano, com a Surfer Bi-Monthly, em 1962. Em 1976 a revista tornou-se uma publicação mensal (KAMPION, 2000).

Apesar da competição com outras publicações que seguiram, o sucesso da Surfer foi, indiscutivelmente, um dos fatores que construiu o estilo de vida e a indústria atualmente referida como cultura surf. A revista criou um meio de publicidade, em que as marcas relacionadas ao esporte falavam diretamente a uma audiência específica. Além disso, permitiu aos editores que dessem um contorno à, até então, disforme e crescente gama de surfistas. Em suma, Severson criou um fórum onde era possível fazer dinheiro e criar heróis, por exemplo, com o inédito Surfer Poll, concurso de popularidade que determinava o melhor e a melhor surfista do ano (KAMPION, 2000).

O impacto do surgimento de publicações especializadas foi algo profundo no desenvolvimento da cultura surf. Isso criou um movimento de registro de imagens sem precedentes. Fotógrafos motivados por um invento do pioneiro Tom Blake, a caixa estanque para máquinas fotográficas, e agora um meio de divulgação, a Surfer, deram dinamismo ao surf. Surfistas somente conhecidos em suas praias locais podiam ser reverenciados por milhares de leitores, e litorais distantes, como Hawaii e Indonésia, estavam ao alcance dos olhos. Surfistas anônimos tinham, agora, um ponto de convergência de estilo e comportamento (KAMPION, 2003).

O depoimento de um dos surfistas originais de San Onofre para a publicação The Surfer’s Journal evidencia o fator de aglutinação da cultura surf que a mídia causou nos surfistas. Segundo Carl Ekstrom:

“surfar era uma experiência muito diferente nos anos 50. Surfistas eram segregados em pequenas tribos por toda costa (Califórnia). Você podia ir pro norte, como, Laguna Beach e eles estariam escutando um certo tipo de música, se vestindo diferente e falando à sua própria maneira. Então você podia ir além, a praia Hermosa, e eles estariam agindo, falando e se vestindo diferentemente. WindanSea, San Onofre, Huntington, Malibu… era quase como ir de um país a outro. Não haviam revistas de surf dizendo as pessoas como elas deveriam ser, então qualquer lugar que você fosse havia uma outra atitude, como estar em um país estrangeiro (CAVANAUGH, 2011, p. 61)”

Nota-se claramente, como editores influenciavam o modo como as pessoas se vestiam, a música que elas ouviam, as pranchas que elas compravam e as praias que iriam frequentar, entre muitos outros aspectos. Isso é mais profundamente explicado por Aranha e Martins (2003) que sugerem que na sociedade contemporânea as pessoas se vestem, comem, pensam, não como cada um gostaria de se vestir, comer ou pensar, mas como a maioria o faz, “aprisionando” o indivíduo numa rede, ideia esta defendida pelo filósofo Heidegger (1889-1976).

Pode-se destacar que no caso do Brasil, o surf demorou um pouco mais a atingir a mídia e a cultura do país. Os primeiros relatos sobre um surfista em território nacional datam o ano de 1934, com o ex-piloto intercontinental americano naturalizado brasileiro Thomas Rittchers. A primeira prancha produzida nacionalmente viria somente no ano de 1938, feita pelos cariocas Osmar Gonçalves, João Roberto Suplicy e Júlio Putz inspirados nos modelos trazidos por Rittchers. No entanto devido à falta de acesso a material de referência, tanto pelo preço alto quanto dificuldades de importação, o desenvolvimento do surf no Brasil se atrasou (FERNANDES, 2001).

Ainda atualmente é muito difícil encontrar registros sobre a história e como se desenvolveu a cultura surf no país. Sabe-se, entretanto, que a praia do Arpoador foi o epicentro do movimento e desenvolvimento do estilo de vida nas décadas de 1960 e 1970. No entanto, os surfistas eram frequentemente rotulados como “largados”, “drogados” e “vagabundos”, imagem que perdurou até meados da década de 1970 quando, os Festivais de Saquarema (RJ) iniciaram a era de profissionalismo no surf  brasileiro (LAUS, 2003).

Apesar de ainda não ser categorizado como esporte de elite em termos de premiação, se comparado aos ganhos multimilionários de tenistas, golfistas, pilotos e futebolistas, os surfistas profissionais podem viver confortavelmente do esporte. O maior campeão da história do surf, o americano Kelly Slater, com quase vinte anos de carreira e dez títulos mundiais, acumula ganhos de mais de U$ 2 milhões apenas em premiação, excluindo contratos de patrocínio também milionários. Nota-se um considerável aumento na remuneração dos campeonatos ao analisar os ganhos do brasileiro Adriano de Souza, integrante do circuito mundial desde 2006 e com vitória em apenas uma etapa, que acumula mais de U$ 550 mil (ASSOCIATION OF SURFING PROFESSIONALS, 2011). Outro exemplo desta arrancada nos ganhos é o australiano Mick Fanning que, com nove anos de circuito e dois títulos mundiais, já faturou mais de U$ 1,26 milhão (ASSOCIATION OF SURFING PROFESSIONALS, 2011).

Nota-se a partir dos dados expostos que a profissionalização do surf trouxe aspectos mais alinhados à realidade formal do ambiente econômico. A passagem entre o esporte como simples forma de lazer e expressão para atividade profissional não foi algo simples em seus meandros. Fez suscitar várias questões éticas e outros fatores de atrito entre os surfistas comuns e a nova classe profissional. No entanto, conforme citado anteriormente, no decurso do desenvolvimento do esporte, tanto pessoal como profissionalmente, através do globo, o Brasil atrasou-se neste processo. Em artigo elaborado para a compilação do livro de aniversário de 25 anos da rede de lojas Trópico, o empresário gaúcho Eduardo Kuhn explica um pouco do que causou esse hiato entre o desenvolvimento internacional e nacional do surf:

“não tínhamos acesso a nenhuma revista, VHS, ou qualquer outro material que falasse sobre surf nas décadas de 60 e 70. Eu e mais uns amigos conseguíamos trazer rolos de filmes clássicos da Califórnia para o Rio de Janeiro. Fazíamos uma vaquinha para pagar a vinda e organizávamos sessões para assistir aos filmes. Esses encontros eram acontecimentos, pois era difícil conseguir reunir todo o pessoal do surf na cidade (KUHN, 2009, p. 10).”

Nesta época, o acesso a qualquer tipo de material era restrito, conforme citado pelo empresário, portanto, inicialmente a prática e envolvimento no esporte eram praticamente exclusivos a famílias e pessoas abastadas. O evento Madeirite Trópico, realizado em março de 2011, resgatou, os pioneiros do surf no Rio Grande do Sul foram Jorge, Klaus e Frederico Johanpetter, Fernando Sefton e família, Marco Antônio Silva, entre outros (ALMASURF, 2011). Alguns destes pioneiros encontram-se na figura 11, abaixo.

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Roberto Bins, Jorge Johanpetter, Martin Streibel, Geraldo Silva, Klaus Johanpetter e Fernando Sefton. Fonte: Exposição Origem – Cultura de Praia por Cristina Engler

Após o desbravamento do esporte pela primeira geração, a partir da década de 1970 começam as competições, há a formação de agremiações, como a Federação Gaúcha de Surf (FGS) em 1978, e a replicação do estilo de vida de surf moldado aos padrões americanos. Segundo Kuhn (2009), um dos fundadores da FGS, o surf no país tomou “formas geométricas e cores vibrantes. Seguindo a tendência new wave, que invadia o mundo da música e da estética”. Inspirados por esse movimento iniciaram as atividades as marcas Mormaii, um dos maiores varejistas de surfwear do Brasil que começou vendendo as primeiras roupas de neoprene nacionais, e as lojas Trópico, benchmark gaúcho no segmento de varejo de surf.

Uma vez expostos aspectos relevantes sobre o surgimento e desenvolvimento desta cultura no mundo e no país, é dimensionado o mercado de surf em termos de números, estatísticas e outros aspectos mercadológicos.

Há algumas décadas o mercado, ou indústria, do esporte deixou de ser apenas um mero grupo de aficionados pela atividade que comercializavam algumas pranchas, parcas camisetas e calções floreados. O Instituto Brasileiro de Surf (IBRASURF) estima que o mercado internacional de surf (equipamentos, pranchas, acessórios, vestuário) atingiu um faturamento de mais de U$ 20 bilhões em 2010 (FAKIH, 2010). Esta quantia que representa mais que o Produto Interno Bruto de algumas economias (TAMBELINI, 2009). No entanto, este número pode ser ainda maior visto que no ano de 2006 a americana Surf Industry Manufacturers Association (SIMA) apurou faturamento U$ 7,48 bilhões. Somando isto aos R$ 5 bilhões faturados em 2008 pelo mercado nacional, equivalentes a aproximadamente U$ 3,05 bilhões, apenas Estados Unidos e Brasil representariam mais de 50% do faturamento global em média anualmente. Portanto, acredita-se que a indústria mundial do surf pode faturar muito mais do que U$ 20 bilhões (SIMA, 2007).

Os dois maiores players deste mercado, os fabricantes de produtos, roupas e acessórios Quiksilver e Billabong, possuem ações listadas em bolsas de valores, a New York Stock Exchange (NYSE) e a Australia Securities Exchange (ASX), respectivamente (REUTERS, 2011). A americana Quiksilver faturou mais de U$ 2 bilhões em 2010 e a australiana Billabong mais de AU$ 1,7 bilhão, sendo que seus CEOs Robert McKnight e Derek O’Neill receberam, ambos, uma remuneração acima dos U$ 2 milhões no mesmo ano (FORBES, 2011). Esses dados citam apenas as duas maiores empresas independentes, pois, outros fabricantes como Volcom, Rip Curl, O’Neill, Hurley e Nike 6.0 não divulgam números específicos. Estas duas últimas, Hurley e Nike 6.0, pertencem a gigante Nike, marca global que faturou mais de U$ 20 bilhões em 2010 (FORBES, 2011). Essa indústria formou-se de forma silenciosa e surpreendente, como afirma em entrevista ao jornalista Zach Weisberg, o CEO da Quiksilver Robert McKnight:

“meu objetivo inicial para a Quiksilver era fazer bermudas, ir à praia, continuar surfando, me divertir e, com sorte, fazer disso uma carreira, mas eu tinha todo um plano B preparado. Nunca, nunca mesmo, em meu sonho mais fantasioso eu pensei que se transformaria no que se transformou. De certa maneira nós ainda nos vemos assim, mesmo faturando U$ 2 bilhões em vendas, listados em bolsa, operando em 90 países com escritórios por todo o mundo, com mais de 800 varejistas e tudo mais. (WEISBERG, 2010, sp)”

Considerando agora o mercado brasileiro do segmento, este tem se mostrado tão atrativo quanto o de qualquer outro país cuja cultura surf esteja maciçamente presente, como Austrália e Estados Unidos, e dentre os países emergentes destaca-se bastante devido ao aquecimento da economia e as características geográficas. A afirmação é baseada na estimativa realizada pela consultoria Toledo & Associados (2008) onde, segundo a pesquisa, a cifra movimentada pelo mercado de surf chega a R$ 5 bilhões por ano. A mesma pesquisa indica que nos últimos cinco anos esse setor da economia cresceu 100%, empregando atualmente 400 mil pessoas formalmente e mais de um milhão informalmente (RUBINI, 2008).

Para o ano de 2010 o IBRASURF estima que o faturamento do setor no Brasil alcance R$ 7 bilhões (FAKIH, 2010). Esse é um número plausível e explicado por alguns fatores da geodemografia brasileira. De acordo com World Wildlife Foundation Brasil (2009), o Brasil possui um litoral com mais de oito mil quilômetros de praias e baías, sendo o clima e a geografia litorânea da maior parte do país extremamente favorável para a prática do esporte. Outro fator citado pela pesquisa aponta para o fato de o surf ter ganhado espaço na mídia, principalmente televisiva, estando presente em novelas e filmes, além de propagandas dos mais variados artigos, como cerveja e sabão em pó. Esse fenômeno também é explicado na citação de Kampion (2003):

“a cultura do surf é um pouco como um cavalo de Tróia. A sua forma exterior – a sua energia e erotismo (que metáfora natural melhor para sexo?) – torna-a apelativa e carismática. Todo mundo quer um pedaço; é fácil estar associado a ela; tem a marca que possibilita a venda (KAMPION, 2003, p. 27).”

O reflexo de condições tão favoráveis à prática do esporte se observa no número de adeptos do esporte no Brasil. O país já representa a terceira maior nação em número de praticantes, passando dos oito milhões segundo Martini (2004), tratando-se do quinto esporte preferido entre as mulheres e o segundo entre os homens, perdendo apenas para o futebol, segundo referências do mesmo autor.

Quando considerado o impacto econômico que um litoral favorável para a prática do surf possui numa economia local, nem autoridades governamentais, nem surfistas conseguem facilmente valorar esse aspecto. Como forma de chamar atenção para o valor gerado pelo turismo de surf e motivar governos a não destruir ondas em prol do “desenvolvimento”, a Surfrider Foundation encomendou um estudo ao pesquisador do Griffith Centre for Coastal Management e PhD pela Australian National University Neil Lazarow e ao professor e economista Boyd Blackwell, da Australian Maritime College. Nele, ambos estimam a partir de dados econômicos e turísticos de diferentes locais, o quanto vale para a economia local uma onda de qualidade para surfistas (www.surf-etiquette.com/text/GoodVibes.pdf).

Os pesquisadores citam que os governos, geralmente, não levam em consideração as reclamatórias de surfistas por considerarem estes, barefoot tourists, ou seja, “pés rapados” que não possuem mais do que alguns trocados para gastar. Dados pesquisados sobre a ilha de Oahu, no Hawaii, evidenciam este negligenciamento, onde há trinta anos, quando havia seis vezes mais surfistas do que donos de barcos, o governo gastou U$ 95 milhões na construção de marinas. Embora os surfistas contribuíssem com mais de U$ 10 milhões por ano em impostos, os governantes não hesitaram, e no processo danificaram ou destruíram mais de cem pontos de surf, investindo míseros U$ 123 mil no beneficiamento ou manutenção destes pontos (BLACKWELL; LAZAROW, 2007).

No entanto, nota-se o pujante poder aquisitivo deste público ao analisar, por exemplo, a Costa Rica que em 2006 recebeu mais de 100.000 surfistas, que gastaram uma quantia superior a U$ 200 milhões. Isso representa 25% da economia do país, superando a produção de café e perdendo apenas para a produção de bananas, principal fonte de renda da economia local. O estudo prossegue analisando quatro praias famosas da costa australiana. Na base de cálculo, os autores incluíram apenas custos de transporte, comida, acomodação e combustível, desconsiderando o gasto com pranchas e outros equipamentos, exceto para o caso de South Straddie (BLACKWELL; LAZAROW, 2007).

A praia de South Straddie, no estado de Queensland, recebeu em 2006, 11.500 surfistas, que visitaram o local aproximadamente 64.000 vezes, gastando AU$ 20 milhões em todo o processo e aquisição de bens relacionados. Já North Narrabeen, ao norte de Sydney, em New South Wales, recebeu 145.000 surfistas entre 2006-07, considerando um valor gasto de AU$ 27 por pessoa, o valor do surf para o local é de AU$ 3,9 milhões. Para o estado de Victoria os números são ainda maiores, segundo o estudo, dos cinco milhões de habitantes do estado 14% surfam (aproximadamente 700.000), considerando maiores distâncias percorridas e uma média de 36 dias de surf por ano, o gasto diário per capita dos surfistas é de AU$ 46. Essa conta resulta em uma renda de AU$ 1,16 bilhão para o estado e, se apenas 1% da quantia corresponder à praia de Bells, a mais famosa da região, seriam AU$ 11,5 milhões por apenas uma praia. A última analisada é a praia de Lefties, em Western Australia. Devido à escassez de dados concretos da região, após algumas inferências, os autores chegam ao valor aproximado de AU$ 400 milhões provenientes do surf no estado. Novamente numa estimativa bastante conservadora, a praia de Lefties sozinha valeria AU$ 4 milhões para a população (BLACKWELL; LAZAROW, 2007)

Após a exposição de dados tão reveladores sobre o potencial econômico na exploração comercial de áreas de surf, pergunta-se o que o Brasil têm feito no intuito de melhorar a infraestrutura e o turismo voltado para esta atividade. Apesar do aquecimento e expansão do mercado brasileiro como um todo, notam-se poucos esforços governamentais no sentido de voltar suas atenções para este setor em franca expansão e cujos números são cada vez mais atrativos.

O aquecimento do mercado também pode ser notado segundo dados da organização do Festiv’Alma, maior evento de cultura surf do mundo, os quais apontam que, atualmente, existem no país oito veículos de mídia impressa específicos, que somam uma tiragem mensal de 150 mil exemplares. Há cinco anos, esse número correspondia a três publicações. Além disso, cem campeonatos são realizados no Brasil por ano, contra a média de vinte realizados dez anos atrás (COSTA, 2008).

Sobre as publicações, as duas principais revistas do país, a Fluir e a Hardcore, ambas com mais de vinte anos de mercado, representam 80 mil exemplares da tiragem mensal dos veículos impressos, 40 mil cada uma. Segundo pesquisa da Fluir, 90% de seus leitores são homens, 10% são mulheres, 99% pertencem às classes A e B, 62% vive no Sudeste e 27% no Sul, 79% acessam a internet diariamente (dos quais 43% acessam sites de surf nacionais com frequência), 38% consideram seu maior sonho viajar para surfar, 91% se interessam por esportes, 72% costumam viajar à praia frequentemente, 83% vão à bares, 72% saem para jantar com frequência, consomem refrigerantes (89%), barras de cereais (69%), cerveja (69%), produtos congelados (55%) e 76% revelaram consumir algum produto ou serviço influenciados por anúncio na revista (MIDIA KIT FLUIR, 2011). A figura 12, abaixo, expõe mais claramente os dados.

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Características dos leitores da revista Fluir. Fonte: Mídia Kit Fluir 2011 – adaptado pelo autor.

Para a melhor visualização o gráfico foi dividido em duas partes. A figura 13, identifica as características restantes.

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Características dos leitores da revista Fluir. Fonte: Mídia Kit Fluir 2011 – adaptado pelo autor.

Após esclarecer informações sobre os leitores, apresenta-se o quadro de informações e preços de anúncios da revista Fluir (quadro 1).

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Preços de anúncios na Revista Fluir. Fonte: Mídia Kit Fluir 2011.

Já sobre a Hardcore, segundo pesquisa da editora 3, de janeiro de 2009, responsável pela publicação, 93% dos leitores são homens, 55% pertencentes à classe A e 25% à classe B, 70% estão na faixa de 20 a 35 anos, 85% são solteiros, 70% vive no Sudeste, 55% possuem educação de nível superior, 78% deles é surfista, 70% têm acesso à internet e utilizam o computador diariamente, 87% praticam outro esporte além do surf, 77% possuem cartão de crédito e 84% frequentam bares e casas noturnas (MÍDIA KIT HARDCORE, 2011). Na sequência, a figura 14 mostra mais claramente as informações.

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Características dos leitores da Revista Hardcore. Fonte: Mídia Kit Hardcore 2011 – adaptado pelo autor.

Após esclarecer o perfil dos leitores, apresenta-se o quadro de informações e preços de anúncios da revista Hardcore (quadro 2).

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Preços de anúncios na Revista Hardcore. Fonte: Mídia Kit Hardcore 2011.

A partir dos valores apresentados, observa-se que a comunicação direta com o público surfista e, também, simpatizante tem valor no mercado, reflexo de uma geração que possui renda muito satisfatória para todas as pontas dessa cadeia.

Outro fator destacado pelo empresário Romeu Andreatta, o idealizador do Festival, é a constante presença de investimentos e patrocínios dos principais players globais no país, como as australianas Rip Curl e Billabong e as norte-americanas Hurley, Quiksilver, Nike 6.0 (segmento surf da gigante Nike), Volcom e O’Neill. Porém, ressalta Andreatta, vê-se que o fenômeno ganha força quando se observam marcas como Volkswagem, Nova Schin, Gol, MorumbiShopping e a agência de publicidade Almap/BBDO como patrocinadores do evento (COSTA, 2008). No cartaz de divulgação do Festiv’Alma são vistas algumas das empresas apoiadoras (figura 15).

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Patrocinadores do Festiv’Alma de 2009. Fonte: www.almasurf.com.br

A participação de patrocinadores não-endêmicos contribui para o crescimento do esporte e faz com que públicos maiores possam ter contato com o surf.

Já investigando outro segmento que foi incorporado ao esporte pelos praticantes, Heller (2010) explica que os carros originalmente desenvolvidos pelos fabricantes americanos, nas décadas de 1930 e 1940, para pegar e deixar pessoas em estações de trem ou depósitos – as station wagon – serviam perfeitamente aos surfistas, que precisavam de espaço para pranchas, abrigo e diversão. Posteriormente, nas décadas de 1960 e 1970, os carros mais utilizados por esse público eram Kombis e outros tipos de vans (HELLER, 2010).

Atualmente, as empresas Peugeot e Volkswagem voltaram a investir nesse segmento. Lançado em 2002, o carro Peugeot 206 Quiksilver, em parceria com a marca de surf homônima, contava com logotipos, acabamento diferenciado e pequenos detalhes que cativaram o público. Lançado inicialmente como série limitada, o sucesso instantâneo fez com que a fabricante tornasse a versão definitiva. Em quatro meses o modelo correspondia a 26% das vendas totais da linha 206, com preço, à época, de R$ 27.460,00 (O ESTADO DO PARANÁ, 2002). Seguindo a fórmula, a Volkswagem do Brasil lançou pouco depois as linhas Surf da pick-up Saveiro e da station wagon Parati. Os modelos custavam, em 2006, aproximadamente R$ 39.000,00 e R$ 46.000,00, respectivamente (NOTÍCIAS AUTOMOTIVAS, 2007). Em 2011 a Peugeot repetiu a fórmula e lançou no mercado o Peugeot 207 Quiksilver, upgrade da versão anterior com preço de venda de R$ 39.800,00 (MEIER, 2010).

Este mesmo movimento é observado no patrocínio de atletas, reduto onde as marcas de surf sempre prevaleceram, agora está sendo invadido por marcas não endêmicas como o gigante varejista Target, a marca global de energéticos Red Bull e a esportiva Nike, citada anteriormente. Isto é algo cujas consequências ainda não se sabe se serão proveitosas ou não ao surf e aos surfistas profissionais, sabe-se, entretanto, que tende a aumentar salários e premiações (WEISBERG, 2010).

Ao expor o surf a públicos que não os habituais consumidores e praticantes, abrem-se espaços para maior inclusão de adeptos e simpatizantes, algo que, invariavelmente, aumenta os lucros. Um movimento recente que evidencia esta exposição são as mudanças realizadas no calendário do World Tour (Circuito Mundial) de surf deste ano. A primeira foi o retorno da etapa brasileira à praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que por sete anos (2003 – 2010) foi realizado na praia da Vila, em Imbituba (SC). Esse retorno busca maior atenção da mídia e gerou a maior premiação paga pela Association of Surfing Professionals (ASP) aos atletas até então. O vencedor, o paulista Adriano de Souza, recebeu um cheque de U$ 100.000.

Seguindo este movimento de “urbanização” do surf a ASP, juntamente com as marcas Quiksilver e Rip Curl, anunciou a realização de etapas nas duas maiores cidades dos Estados Unidos, Nova York e Los Angeles, respectivamente. O evento Quiksilver Pro New York irá superar qualquer outra premiação da história do surf mundial, com a primeira cifra milionária (U$ 1.000.000,00) do esporte, onde o vencedor da etapa receberá U$ 300.000. Já o evento Rip Curl Pro Search – etapa itinerante realizada em diferentes locações como Bali, México e Ilhas Maldivas – será realizado pela primeira vez em uma metrópole, Los Angeles, nas ondas de Ocean Beach. É certo que, estas inovações são contraditórias, gerando discussões entre os defensores da qualidade das ondas de locais mais isolados e os que desejam colocar o esporte num patamar de audiência e exposição maior. (WARSHAW, 2011).

Observando as implicações da exposição do surf para diferentes praças, desde sua reintrodução à sociedade moderna, chega-se ao mercado gaúcho. Martini (2004) afirma que, de acordo com a Associação Brasileira de Surfistas Profissionais (ABRASP), o estado do Rio Grande do Sul contava com uma população surfista de mais de 250 mil surfistas no ano de 2002. Considerando a defasagem de quase nove anos dos dados obtidos, é bastante provável que a quantidade de praticantes tenha acompanhado, ao menos em parte, a expansão que o mercado de surf como um todo teve nos últimos anos.

Apesar de contar com uma população surfista densa e com alto poder aquisitivo, segundo a Fundação de Estudos Econômicos (FEE), o Rio Grande do Sul possui um PIB per capita aproximadamente 13% superior à média nacional, o mercado de surf gaúcho caracteriza-se pela relativamente baixa densidade demográfica litorânea, contrariando a lógica nacional (ATLAS SOCIOECONÔMICO DO RIO GRANDE DO SUL, 2010). Isso não significa desaceleração do crescimento, de acordo com a estatística citada por TAMBELINI (2008) 87% dos compradores do mercado de surf, em especial surfwear, são simpatizantes. Eles têm um ticket médio de R$ 1.200, quase o dobro dos R$ 700 que os praticantes gastam anualmente. Isso faz com que cidades como Porto Alegre (RS), São Paulo (SP) e Brasília (DF), todas afastadas geograficamente do litoral, constituam os principais mercados de surf-shops e lojas do gênero. Em São Paulo apenas, segundo levantamento da Toledo & Associados, 945 mil pessoas consomem produtos e serviços ligados ao surf, movimentando R$ 1,5 bilhão. Ainda há, segundo a pesquisa, mais 7,8 milhões de potenciais consumidores apenas na capital paulista (TAMBELINI, 2009).

Zucco, Mesquita e Pilla (2002), em pesquisa desenvolvida com praticantes e simpatizantes do nordeste do país, desenvolveram um perfil que caracteriza os grupos:

  • Simpatizantes: Segundo a pesquisa, a maior parte dos simpatizantes situa-se em uma faixa etária de 11 a 20 anos (45%) e 21 a 30 anos (40%). É um público mais jovem, que procura identificação com a cultura do surf. Uma parcela significativa dos simpatizantes (68%) é financeiramente dependente, reforçando a ideia de público jovem. Tem a tendência a tornarem-se iniciadores e decisores no processo de compra. Os esportes mais praticados pelos simpatizantes são futebol (32%), natação (8%) e jiu-jítsu (6%), sendo que a maior parcela (38%) não pratica esporte algum. As opções de lazer preferidas desse público são boates (52%) e bares (38%), e as bebidas mais consumidas são cerveja (58%), destilados (32%) e refrigerantes (5%).Para facilitar a visualização  segue a figura 16.
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Características dos simpatizantes. Fonte: Zucco, Mesquita e Pilla (2002) – adaptado pelo autor.

  • Praticantes: Os resultados mostram que os praticantes são o grupo de referência dos simpatizantes, ou seja, os simpatizantes aspiram fazer parte da cultura do surf. A maior parte dos praticantes situa-se na faixa etária de 21 a 30 anos (40%), seguidos da faixa etária de 11 a 20 anos (32%), sendo que há o equilíbrio entre os financeiramente dependentes (53%) e independentes (47%). O segundo esporte mais praticado pelo grupo é futebol (19%), bicicleta (18%) e natação (12%), esportes que denotam alta preocupação com o cuidado ao corpo. Os locais de preferência para lazer são bares (49%) e festas particulares (35%), e as bebidas preferidas são água e refrigerantes (48%) e cerveja (32%) (ZUCCO; MESQUITA; PILLA, 2002).

Na sequência, a figura 17 facilita a visualização.

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Características dos praticantes. Fonte: Zucco, Mesquita e Pilla (2002) – adaptado pelo autor.

A identificação das diferenças entre simpatizantes e praticantes é interessante para que sejam traçadas estratégias que busquem alinhar o interesse das marcas e redes varejistas aos interesses do público alvo, simpatizantes e/ou praticantes. Essa ação é sugerida para acompanhar o aumento do mercado de surf e seus simpatizantes pois, atualmente, existem no Brasil, segundo pesquisa da consultoria Toledo & Associados, mais de três mil pontos de venda que abastecem praticantes e simpatizantes com novidades em produtos, roupas, acessórios e outras diversidades de consumo aliados à cultura do surf (RUBINI, 2008).

Para compreender estes dados é necessário observar que o esporte contemporâneo tem despertado em seus praticantes a preferência por atividades mais livres e menos coercitivas, e o recuo dos valores competitivos, com maior foco no lazer e evasão. Esportes como esqui, o surf, o windsurf, bem como a prática de mais de um esporte demonstram esta questão. Deste modo, esportes praticados com pranchas se baseiam em motivações focadas no prazer, na emoção e nas sensações imediatas. A partir disso, chega-se a uma nova sensibilidade esportiva, excluindo a medição tradicional do esporte e aprovando os prazeres sensitivos, a aventura, a estética das sensações. Este fato mostra que o atual universo esportivo associa o bem-estar ao esporte lazer, e também ao esporte saúde (LIPOVETSKY, 2007).

Kampion (2003) também expõe fatos que comprovam essa mudança no perfil esportivo. Segundo o autor, há uma migração em massa de esportes coletivos com bola para esportes praticados com prancha e individuais. O denominador comum entre todos estes esportes, nas palavras do autor, é o surf. O skate originou-se a partir da necessidade dos jovens de “surfar” no asfalto, quando o mar não oferecia ondas. O snowboard, surgiu de surfistas e skatistas que viviam em regiões frias e montanhosas, vendo na neve a extensão do mar. O wakeboard veio da ideia de surfar em lagos ou rios que não tinham ondulações. Enfim, o surf e seus praticantes foram os principais responsáveis pela disseminação destas principais modalidades de esportes com prancha (KAMPION, 2003).

Essas diferentes modalidades de esportes deram origem a grupos de interesse com estilos bastante distintos. De acordo com Mesquita (2004 p. 30) “nas ruas, convivem harmoniosamente os bikers, surfistas, cyber gamers e inúmeras outras subculturas”. Para descrever estes grupos de estilo urbano, é comum a adoção do conceito de tribo, que é utilizado para descrever grupos que apresentam códigos próprios e fechados, os quais possibilitam sua identidade, assim como sua relação com a sociedade como um todo. Mesquita (2004) explica que:

“Desde os anos 1980, há uma proliferação e multiplicação das chamadas tribos urbanas ou subculturas. Os beatniks, hippies, mods e psicodélicos dos anos 1960 e 1970 conviverão, a partir de então, com os punks, góticos, new wavers, new romantics […]. Posteriormente, com grungers, clubbers, ravers, rappers, skatistas, surfers etc. […]. E, mais recentemente, com outros tantos grupos e subgrupos […] nomeados, especialmente pela mídia ou pelas pesquisas de tendências de comportamento e consumo (MESQUITA, 2004, p. 79).”

O fenômeno descrito por Mesquita (2004) considera em parte a maior incidência tanto de surfistas praticantes quanto dos simpatizantes, que querem ter seu estilo associado aos praticantes do esporte. Alinhando os fatores expostos por Mesquita (2004) à avaliação de Hoch (2002) sobre marketing de experiência, o último expõe como os fatores aprendidos, observados e a criação de habilidades a partir de situações vividas explicam comportamentos de consumo. O autor cita que:

“experiência é o ato de vivenciar e observar um evento, e também se refere ao aprendizado, o conhecimento subsequente e habilidade adquirida. A experiência é normalmente privada e com resultado único, não necessariamente reproduzido na forma exata a outra pessoa (HOCH, 2002, p. 448).”

Arnould e Price (1993) argumentam que a experiência de consumo hedônico, em especial no caso do surf, tem recebido atenção de pesquisadores, que identificam uma classe especial de atividades deste tipo de consumo – intenso, positivo, excitante. Isto pode ser explicado por meio de ideias apresentadas por Holbrook (2000), em que o intenso é algo que pode levar o consumidor a estados emocionais de êxtase, o positivo surge de atividades de divertimento e convencimento (educativas) e excitante são atribuídas a estímulos.

Por fim, espera-se evidenciar o papel do surf como agente econômico e cultural de mudança. Aranha e Martins (2003) definem que:

“cultura significa tudo que o ser humano produz ao construir sua existência: as práticas, as teorias, as instituições, os valores materiais e espirituais. Se o contato com o mundo é intermediado pelo símbolo, a cultura é o conjunto de símbolos elaborados por um povo. Dada a infinita possibilidade humana de simbolizar, as culturas são múltiplas e variadas: são inúmeras maneiras de pensar, de agir, de expressar anseios, temores e sentimentos em geral. Por isso mudam as formas de trabalhar, de se ocupar com o tempo livre, mudam as expressões artísticas e as maneiras de interpretar o mundo (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 25).”

Para sedimentar o entendimento do discurso dos pensadores anteriormente citados recorre-se a Maffesoli (2006), que explica que a constituição de microgrupos e tribos se faz a partir do sentimento de pertencimento, em função de uma ética específica e no quadro de uma rede de comunicação. O autor segue analisando que é necessário participar, em maior ou menor grau, do espírito coletivo em questão, pois a integração ou a rejeição dependem do grau do feeling experimentado, ou pelos membros do grupo ou pelo postulante (MAFFESOLI, 2006).

A partir das análises realizadas ao longo deste subcapítulo se espera ter delineado assertivamente a formação de uma cultura, a cultura surf, e a consequente formalização de um mercado que engloba milhões de pessoas e bilhões de dólares. Descritas as principais características da situação do mercado de surf no mundo e no Brasil, bem como as características de seus consumidores, prossegue-se agora com a estratégia metodológica do presente estudo.

Introdução e texto por Lucas Zuch.

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