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Califórnia: A linha tênue (pt. I)

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

09 de setembro de 2005. São 1:45 PM de uma sexta-feira ensolarada em San Diego, Califórnia. Apesar do clima seco (semi desértico, para ser mais honesto), os 33 °C são quentes o suficiente para trazer letargia ao caminhar de quem passa apressado pelo Centro da cidade àquela hora. Como um ingênuo adolescente que passeia a primeira vez pelos recém revitalizados quarteirões centrais de San Diego, pergunto a uma jovem, entre 25 e 35 anos, eu suponho, como chegar até a Union Station. Ela para o seu galope intenso, e com um sorriso pergunta a origem do meu sotaque: “Sou do Brasil,” eu respondo. “How awesome [Que demais],” diz a moça, sorrindo novamente. Ela, então, me explica que eu estou a duas quadras da estação e que preciso apenas seguir adiante e dobrar à esquerda na Kettner Blvd. Em meu caminho, no cruzamento entre a Kettner e a Broadway, por força do hábito, eu espero a minha vez de atravessar com os pés no asfalto. Imediatamente, a Dodge RAM 2500 que iria fazer a conversão para e me diz para atravessar.

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Foto: Thomaz Crocco Selliens

22 de novembro de 2012. São 11:27 de uma quinta-feira escaldante no Centro de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O termômetro desbotado pela intempérie do último inverno marca 38 °C, mas a sensação é de estar caminhando dentro de uma caldeira gigante adornada de mal cuidados prédios cinza. Apesar de morar na cidade desde que nasci, devo admitir que não sou um frequente visitante dessa área. Nos últimos anos, algumas obras de revitalização têm conseguido tirar a camada de sujeira e monotonia que, de tão esquecidas sobre as construções, haviam formado um bloqueio à outrora bela e pulsante região central da cidade.

Para deixar a questão mais clara, apesar de saber de tais belezas escondidas, ir ao Centro era algo bem próximo de uma penitência. Fazendo jus ao caso, estava lá exatamente para pagar uma multa de estacionamento em local proibido. Após cruzar faixas de pedestres correndo de motos e lotações, respirando um ar carregado de poeira e fumaça e dividindo com uma multidão as calçadas mais estreitas do que o Plano Diretor recomendaria, cheguei ao prédio de meu destino. Fiz o que tinha que fazer e saí de lá tão rápido quanto pude. Não falei com uma pessoa sequer, à exceção do atendente do Departamento de Trânsito. Todos estavam muito ocupados tentando chegar do ponto A ao ponto B o mais rápido, com o mínimo de atrito e com a maior segurança possível. Inclusive eu.

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Foto: semanaexperimentalurbana.com

Getting into it

Então, retomando minha visita anterior aos Estados Unidos, eu fiz um esforço para voltar lá no inverno – do hemisfério norte – de 2013. Era o timing perfeito para visitar minha família americana – em 2005 eu fiz um intercâmbio e vivi por seis meses com os anfitriões mais legais do mundo – e viajar pela costa, já que na época do intercâmbio eu morei nas montanhas e raramente visitava San Diego e as praias próximas. Depois da minha primeira visita à Califórnia muitas coisas mudaram. Apesar de já surfar àquela época, eu só fui realmente picado pelo inseto mais tarde, o que fez com que o retorno fosse ainda mais doce. Embora o surf tenha sido o ar que eu respiro nos últimos sete anos, eu não sabia exatamente o que esperar da Califórnia, já que sobre esse aspecto da cultura eu só conhecia alguma coisa através de livros.

Um amigo que estava em SD para uma temporada de três meses estudando inglês concordou em me pegar no aeroporto de Los Angeles. Depois de várias tentativas frustradas de encontrar um ao outro – ele de carro e eu com mala-sarcófago-mochila e sem celular – ele estacionou o carro na calçada e saiu para me procurar. Voltamos ao local dentro de 8 ou 10 minutos e havia três viaturas policiais cercando o carro, multa já emitida e ligação para o guincho em curso. Tentamos explicar o ocorrido, mas não só ele mantiveram a multa – é claro – como um policial começou a desconfiar que a habilitação do meu amigo era inválida, por não ter sido emitida na Califórnia. Uma boa hora e meia se passou até ele se convencer de que se o sujeito era capaz de alugar um carro, ele deveria estar legalmente apto a dirigi-lo. Esse foi o meu primeiro encontro com a lei de volta aos EUA, e iria se provar significativo mais à frente.

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Foto: Maurício Harm Bidone

Getting California

Depois de rever minha família americana e ser recebido novamente de braços e corações abertos eu pude me sentir em casa. Isso é algo que pode soar estranho para os brasileiros que não conhecem o lugar. Eu, pessoalmente, não tenho muita autoridade para falar sobre o resto dos EUA, e também partilhava dessa visão de que americanos eram frios e distantes antes de ter morado na Califórnia. Não é assim por lá. Provavelmente, por estar tão perto do México e conviver o tempo todo com diferentes povos e nacionalidades, a hospitalidade e o acolhimento dos californianos (nascidos aqui ou não) é bastante superior às expectativas.

No entanto, como havia planejado, iria fazer uma viagem de carro pela costa, de San Diego a San Francisco, conhecendo todos os lugares sobre os quais tanto já tinha lido e ouvido falar, mas que nunca havia conhecido. A cultura surf tem raízes tão profundas aqui, que cada lugar, onda, clima e peculiaridade já deve ter sido citada em mais livros, artigos e legendas de fotografia do que qualquer outro pedaço de terra do mundo. Através desse “conhecimento” acumulado, tinha certeza que iria encontrar algumas das paisagens mais belas e particulares da minha vida. Mesmo sabendo que, historicamente, o governo americano nunca poupou esforços em transformar a paisagem de forma a melhor servir o interesse de seu povo (certamente, não o interesse dos surfistas) eu estava procurando por algo que sabia que jamais iria encontrar no Brasil. Pointbreaks consistentes, ondas perfeitas, acessibilidade, segurança para viajar, estrutura e conforto.

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Foto: Thomaz Crocco Selliens

Desde o meu primeiro encontro com a lei, soube que essas vantagens teriam um custo. Adequação às rígidas regras americanas. Nada de simular a frenagem em sinais de ‘Pare’, nem parar em local proibido “só para dar uma olhada nas ondas” ou estacionar para dormir em qualquer rua, muito menos beber e dirigir (uma lição para qualquer nação seguir). Na verdade, a lei é tão estrita aqui, que mesmo se eu tivesse ido e voltado a pé após encher a cara em um pub e estivesse dormindo no meu carro, a polícia poderia me prender por embriaguez ao volante. É, isso não parece ter cabimento mesmo, mas considerando os prós e contras eu estava muito empolgado para achar essa caretice ruim. Há nesse contexto todo, porém, um paradoxo que saltou aos meus olhos ao passo que ia conhecendo um pouco mais desse lugar.

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Foto: Guilherme Mancuso

 

Getting it (part I)

Mesmo tendo conhecido mais profundamente apenas a Califórnia, que por vezes é dita ser um país dentro dos EUA, me sinto seguro para dizer que os EUA oferecem uma das melhores infraestruturas do Mundo para o viajante. Pensando em viagens de aventura e esportes, talvez apenas Austrália e Nova Zelândia possam bater de frente em relação a este quesito. Provavelmente alguns detalhes só possam ser percebidos por um observador neutro, pois viver em uma sociedade onde tudo funciona faz com que o indivíduo tenha uma base de comparação “distorcida”. É simples, pense em todas as noções que você tem relativas a segurança, logística, conveniência, oportunidade, realização e qualidade de vida. Desde uma coisa banal, como andar na rua sem olhar para trás, até algo complexo como conseguir o financiamento de uma casa, aqui tudo é facilitado e pensado na melhor forma de chegar até o cidadão.

Eu entrevistei diversas pessoas, entre brasileiros e americanos, e não houve um brasileiro sequer que não citasse segurança, liberdade e oportunidade de crescimento como as forças motrizes para a sua decisão de morar na Califórnia – além, é claro, dos mais de 300 dias por ano de sol e surf que abençoam o estado, principalmente o sul. Seja essa decisão por um mês, três meses, um ano ou a vida toda. Há algo sobre a sociedade americana que os brasileiros não entendem. Não porque somos ignorantes ou selvagens, mas porque não somos ensinados a pensar assim. Nos EUA, as coisas funcionam. E elas funcionam por um motivo simples, não há brechas, não há histórias nem jeitinhos que te façam chegar do ponto A ao C sem passar pelo ponto B.

A liberdade é dada aos que sabem aproveitá-la sem restringir a liberdade do próximo. Você pode dobrar à direita com o sinal fechado, você pode cruzar a qualquer momento a faixa de pedestres, você pode deixar a porta de casa destrancada, você pode até mesmo não fazer nada e ganhar um salário do governo. No entanto, para todas as outras coisas que você não pode fazer – e não são poucas – sempre haverá alguém vigiando e assegurando que o que foi feito de errado seja corrigido e, se necessário, punido. Aqui é mais difícil de os bons pagarem pelos erros dos maus, como ocorre no Brasil a todo momento. Coloque na balança um pacto social favorável ao bom comportamento, um povo acolhedor, pouquíssimos dias de chuva por ano, SunsetCliffs, Blacks, Trestles, Rincon e Steamer Lane, enão é uma surpresa que qualquer brasileiro queira ficar.

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Foto: Lucas Zuch

Getting Brazil

Como um brasileiro provido de recursos, empresário e surfista fico numa posição privilegiada para observar o que faz do Brasil uma nação tão atraente. Na mesma medida em que muitas vezes os direitos civis podem não ser respeitados em um embate com a frágil lei (seja ela a oficial ou a paralela), no maior país da América Latina o livre arbítrio impera para o cidadão. Uma das maiores confusões miscigenarias da história deu origem a um povo bonito e alegre, talvez o mais bonito e alegre a habitar a Terra. O reflexo dessas qualidades é uma sociedade que (embora adora se auto analisar como cosmopolita e séria) permite qualquer comportamento, hábito, hobbie ou projeto de vida imaginado. Desde que haja capital pra bancar.

Na verdade, a sociedade brasileira, numa percepção já entendida por povos estrangeiros, é tão esquizofrenicamente peculiar que a definição de Tim Maia sobre a nação tupiniquim permanece como uma das mais elucidativas e fiel à realidade: “O Brasil é o único país onde, além de puta gozar, cafetão ter ciúme e traficante ser viciado, o pobre é de direita.” Além do caos liberal em que vivemos, estamos, literalmente, sentados sobre uma das melhores parcelas de terra, água e ar do planeta. A terra é fértil na maior parte do país, a água acima ou abaixo da superfície é abundante e limpa, além da geografia permitir o aproveitamento energético, e o ar, exceto em grandes centros industriais, é puro. Por mais supérfluo que isso soe para algumas pessoas, falando sobre a natureza, a única coisa que nos falta são ondas consistentes.

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Foto: Guilherme Mancuso

No entanto, como um brasileiro provido de recursos, empresário e surfista fico numa posição confortável para dissecar a visão negativa que muitas vezes tenho sobre o Brasil. Dentre todas as coisas erradas que vejo dia após dia, o que mais me choca são a falta de educação e a flexibilidade moral. A falta de educação nos transforma em seres individualistas que acabam ignorando a presença de outros indivíduos com necessidades e desejos distintos, nos levando a agir da forma que melhor nos convir em relação a simplesmente qualquer coisa.

A flexibilidade moral é a responsável pelo que ficou mundialmente conhecido como o “Jeitinho Brasileiro” – tomara que eu não esteja certo sobre essa fama ter atingido escala mundial, embora eu duvide muito. O jeitinho é, em certa medida, complementar à falta de educação, pois se trata de um conjunto de métodos e ações que tem o objetivo de conseguir qualquer coisa que nos beneficie, custe o que custar. Seja entrar na contramão para conseguir a vaga no estacionamento do shopping, seja furar a fila para entrar na hora no show de rock, seja emitir meia nota fiscal (ou nota nenhuma) para pagar menos impostos, seja dar a volta no cara que está na preferência para pegar a melhor da série. Essas são as chagas brasileiras que nos colocaram na posição onde estamos. Já estivemos muito pior, e estaríamos em situação crítica, não fosse a maravilhosa sorte brazuca de ter nascido em berço esplêndido, com os melhores recursos naturais (exceto pela qualidade das ondas) que nação alguma jamais terá oportunidade de obter. Mas isso você já sabia.

 

Texto Lucas Zuch

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