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Califórnia: A linha tênue (pt. II)

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos
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Foto: Lucas Zuch

Getting it 

Enquanto ficava cada vez mais bestificado com as maravilhas da costa da Califórnia, como as formosas praias de Santa Cruz, a densidade cultural de San Francisco, a beleza psicodélica do Big Sur e o charme colonial de Santa Barbara, fui notando algo interessante nas conversas com os americanos que conhecia pelo caminho. Das pessoas para as quais falei que era brasileiro, todas me davam impressões positivas sobre o país. Não foram poucos os que disseram já ter visitado lugares como BahRRia, MaranhAO, RRio de XÁneiro, SAO PAOlo ou FlorianOpoliSH, dizendo que tivera sido a melhor viagem de suas vidas; enquanto os que não conheciam diziam querer desesperadamente vir para cá. Em razão disso, me coloquei a pensar bastante sobre as razões que fariam do Brasil um país desejado. Já havia conversado com a minha mãe americana sobre a atual situação econômica do Brasil, à qual ela havia levantado que o Brasil estava na crista da onda, crescendo muito e me perguntou o que eu achava daquilo tudo.

Caso eu não tenha situado o leitor no tempo/espaço, viajei para a Califórnia entre fevereiro e março de 2013, semanas após uma das mais terríveis tragédias da nossa história, o incêndio na boate em Santa Maria (RS); eu estava desconsolado com o Brasil e minha resposta sobre o nosso desenvolvimento e amadurecimento da nação refletiu essa angústia. Ainda assim, continuei ponderando os prós e contras sobre como um turista se sente no país do futebol. Bem, ele (ou ela) está cercado de um dos cenários mais bonitos do planeta, onde o verde é mais verde e o sol torna tudo mais colorido, ele está rodeado de um povo bonito, fisicamente atraente e de sangue muito quente e ele pode, basicamente, fazer o que bem entender. Foi aí que me vi em meio a um paradoxo.

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Foto: Guilherme Mancuso

The Fine Line

Não foi até o momento em que eu conheci Cyrus Sutton que eu pude ver o círculo completo desse paradoxo. Sutton, um conhecido cineasta-produtor-surfista-pensador era uma das pessoas que eu realmente queria conhecer enquanto estava na Califórnia. Eu havia conhecido seu trabalho há quase três anos e feito algumas colaborações com ele durante este tempo. Enquanto conversávamos, ele trouxe à tona algo que pude perceber, mas não havia concluído se era realmente tão pesado. “Os californianos não são livres, absolutamente,” disse Sutton. “Nós não produzimos alimentos, nós dependemos de eletricidade para qualquer coisa, nós estamos tão presos ao consumismo que achamos que podemos comprar nosso caminho para a liberdade.” Enquanto a maioria das pessoas que eu conheci veio para a Califórnia para ter liberdade e a oportunidade de fazer qualquer coisa que quisessem, aqui estava eu encarando um californiano, nascido e criado, dizendo que ele e seus conterrâneos estavam mais presos do que nunca. Por outro lado, enquanto eu via meu país como uma fonte abundante de problemas, ouvia esses delirantes desejos de conhecer o lugar.

Então, tive que tirar um momento e refletir. Por que os brasileiros são tão seduzidos pela Califórnia? Por que os americanos se interessam tanto pelo Brasil?

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Foto: Cássio Santiago Cappellari

Começando pelos brasileiros, acredito que – assim como o resto do mundo – somos tão influenciados pela cultura americana, de filmes a desenhos, de músicas a marcas, que tudo é copiado ou derivado de uma invenção ianque. E com essa informação toda, vemos no sistema e recursos americanos a oportunidade de “beber direto da fonte”, da liberdade, do sonho do “self mademan”, da oportunidade de dividir o lineup de um clássico de 4 pés em Rincon com Kelly Slater, Bobby Martinez e Chris Ward. Quem não gostaria, depois de enfrentar a burocracia enlouquecedora da máquina pública tupiniquim, de vir para cá e ver as coisas acontecerem?

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Foto: Tiago Prosperi

“O governo brasileiro não é amigo do empreendedor […] no Brasil, o sonho da família é que o filho passe num concurso da Petrobrás, não que ele abra seu próprio negócio,” conta Pedro Battaglin, shaper e diretor comercial da Rusty Surfboards, que após 20 anos empreendendo no Brasil decidiu que seria melhor para o seu bem-estar profissional e pessoal fazer a vida na América de cima. Nós podemos sentir falta de certas brasilidades, como os amigos, a família; e ficar um pouco contrariados com certas manias americanas, como a mão de ferro da lei, a barreira cultural entre as nacionalidades etc. Mas a balança para a maioria dos brasileiros que vivem lá pende para o lado estadunidense.

Já para os americanos, oprimidos por rígidas regras sociais, uma necessidade crescente de demonstrar sucesso através de poder e consumo, e uma visão estreita da maioria em relação às atrocidades cometidas por instituições nacionais, vê no Brasil um oásis de liberdade e fantasia distante de sua realidade. Nesse caso, não os importa a qualidade das ondas, mas sim a qualidade da diversão que podem obter saindo da nação mais poderosa do mundo. Banalidades como a possibilidade de tomar bebida alcóolica em público e festas que vão até o sol raiar soam como música para ouvidos reprimidos.

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Foto: Pedro Sehbe

No fim das contas, não há como dizer o que é melhor e o que é pior em relação a duas realidades tão distintas. Somos frutos do meio em que crescemos e isso molda nosso comportamento frente a qualquer situação que nos é colocada. Com certeza não concordo com todas as particularidades do sistema americano, tampouco sou favorável à baderna e oba-oba que permeia a República das Bananas. Acho que ambos deveriam tirar algumas lições mútuas de cada um. A alegria brasileira é contagiante e é uma ferramenta ímpar de conseguir suportar a enlouquecedora lógica social em que estamos inseridos, isso é algo em que os americanos poderiam se espelhar para que o individualismo e a ganância fossem atenuados. Enquanto, os brasileiros deveriam deixar de lado a síndrome da pequeneza e de se contentar com pouco, olhando para o que a organização, o método e a dedicação americanas trariam de positivo se exercitadas por aqui.

A impressão é que os americanos não desperdiçam tempo, eles vão atrás do que precisam sem muitas distrações. Isso não exclui uma massa de ianques tão bitolados com sua tecnologia quanto a mídia cobrindo a eleição do novo Papa, apenas atenta que o foco é algo muito presente na cultura deles. Eles não jogam tempo fora, seja a sua missãosurfar o máximo possível ou acumular a maior quantia de dólares que podem.

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Foto: Gustavo Gazzola

Toda e qualquer crônica, narrativa ou ensaio é afetada pelo ponto de vista de quem a escreve. Isso é um fato, não pode ser contestado. O que pode ser contestado, certamente, é a precisão ou miopia de minha observação. É provável que eu tenha atentado a aspectos da sociedade americana que nos faltam aqui, e assim ter enaltecido os pontos positivos disso. Assim como posso ter me debruçado sobre temas nevrálgicos brasileiros menos importantes do que a figura geral. Isso é uma questão interpretativa, podemos tomar uma cerveja no meio da rua, mas temos que esperar dois meses e meio para receber uma prancha encomendada de um shaper. Os americanos podem ir surfar e deixar o carro aberto, mas não podem morar na casa dos pais até os 25 sem serem taxados de fracassados. A vida é uma eterna briga entre a obtenção do equilíbrio e a percepção de satisfação pessoal.

Mas, no fundo, somos seduzidos por tudo que nos é privado.

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Foto: Guilherme Mancuso

 

Texto Lucas Zuch

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